E o voo pra Atenas foi indescritivel. O tempo estava otimo e quando o aviao ia descendo perto de Atenas, conseguia ver claramente algumas das ilhas e o belissimo litoral grego. Foi uma experiencia unica, inesquecivel, maravilhosa, mas... perai, cade minha mala? Espera, espera, espera e nada. E fica aquela sensacao de "merda, e agora?" Primeiro, bate o desespero. Ai eu reclamei e a mulher do balcao da cia aerea me deu quarenta euros pra passar o dia. Depois, pensa pra ca, pensa pra la e a cabeca ja tinha mudado um bocado. "Eu nem preciso daquilo tudo", "e melhor pegar a grana da mala e comprar tudo novo porque eu vou saber escolher muito melhor as coisas e ainda vai sobrar dinheiro". Bom ou ruim, o que sei e que eu tinha que aguentar um tempo ate ver o que ia acontecer. Usando, claro, a mesma roupa o dia inteiro. Meu pe estava destruido e eu precisava comprar sandalias, mas como estava doendo tanto eu nao conseguia sair pra comprar as malditas sandalias. Entao quando ja me agradava a ideia de ganhar uma grana da cia aerea e comprar tudo de novo, eles ligaram e falaram que encontraram minhas coisas...
Claro que eles so iam entregar no dia seguinte, entao eu tinha que aguentar ate o dia seguinte com a mesma roupa. Descansei um pouco e jantei num lugar que serviu uma das melhores refeicoes que eu ja fiz na minha vida. Cordeiro com batatas cozidas, simples e perfeito. Na volta pro hostel, ao tentar abrir a porta do elevador, acidentalmente libertei dois americanos que estavam presos la fazia algum tempo. E assim conheci Victor e Mike. Eu posso estar sendo injusto com todo mundo que conheci ate agora, mas acredito que esses tenham sido os caras mais maneiros que conheci ate agora. A historia dos dois e simples: eles se conhecem faz bastante tempo. Um dia olharam pra vida que estavam levando, pensaram por um momento no que fazer, venderam tudo e foram morar em Granada que e simplesmente minha cidade predileta de todas que visitei ate agora. Eles querem morar em Granada definitivamente, mas e dificil arrumar visto de residente na Espanha. Entao eu pensei depois de algumas cervejas eu tive um ideia: "Por que nao abrimos um hostel em Granada?" O Mike complementou: "Por que nao abrimos um hostel/night club?" E o Victor que e um italo americano sacana pra cacete bolou uma nova ideia de negocio que deve revolucionar a industria do entretenimento e hospedagem mundial: "Ja sei: um hostel/nightclub/stripclub!" E foi assim que terminou antes mesmo de comecar minha aventura empreendedora com meus dois potenciais novos socios. Algo me diz que nao daria certo.
No dia seguinte, eu, Victor, Mike e um casal de australianos que conhecemos no hostel fizemos a walking tour do hostel que nao foi muito legal, mas foi o suficiente pra ter uma ideia da cidade. Rodamos um pouco depois do tour, comemos um kebab de dois euros maravilhoso e depois fomos fazer uma caminhada no morro mais alto de Atenas. A vista era belissima e tiramos varias fotos muito legais. De repente ouvi alguem falando portugues e conheci o Thiago, a Fernanda e o Antonio. E assim quatro brasileiros se conheceram em Atenas. O Thiago e a Fernanda estavam viajando juntos. Eles sao oficiais da Marinha. O Antonio estava fazendo mestrado na Franca e tirou um tempo pra viajar. Conversamos um pouco e combinamos de nos falar por email.
Apos o passeio foi hora de me despedir de Mike e Victor que estavam indo para Creta. Eles ate me chamaram pra ir, mas eu tinha que dar a devida atencao a Atenas. Cheguei no hostel e tudo que eu queria era ficar com o pe pra cima. Abri o email e fiquei surpreso ao ver o roteiro que o Antonio tinha mandado por email. Ele estava propondo uma visita ao Oraculo de Delfos, ate ai tudo bem. So que eu teria que estar na estacao de onibus as seis da manha. Ou seja, esquece.
No dia seguinte, fiz amizade com duas meninas que estavam no mesmo quarto que eu e marquei com elas de ir a Acropole a tarde. De manha fui no Museu de Arqueologia. O Museu de Arqueologia de Atenas tem as coisas mais antigas que eu ja vi. Tem um monte de coisas com um monte de milhares de anos. E foi la que tive meu primeiro contato intimo com uma peca de mais de dois mil anos de idade. Enquanto eu tentava enquadrar uma peca de bronze para tirar uma foto, dei uns passos pra tras e ao dar um passo um pouco maior esbarrei numa peca que estava no meio do caminho num pedestal. Ela comecou a balancar e eu tive que abracar a porcaria da peca pra evitar que ela caisse. Depois de um esporro do seguranca, perguntei se a peca nao deveria estar presa ao chao e ele falou que aquela tinha acabado de ser movida pra la e por isso estava solta. Boa cagada que eu quase fiz.
A tarde, fui com duas amigas canadenses que conheci no hostel para dar um role na cidade e fomos a alguns museus e monumentos que eram basicamente um monte de pedras muito velhas e comecei a me sentir muito cansado de ver vasos de cinco mil anos de idade. Depois dos vasos de cinco mil anos de idade, qual a graca de ver vasos de dois mil anos de idade? Se eu trabalhasse num museu grego, ia propor alterar totalmente a organizacao do museu e colocar primeiro as coisas mais novas e depois as mais velhas pra que as pessoas continuassem interessadas nas pecas expostas de menos de dois mil anos de idade.
Caminhando para o Museu de Arqueologia, esbarrei com a Fernanda que conheci no dia anterior. Ela nao conseguiu acordar e ficou perdida pela cidade ate se juntar a nos. Foi otimo voltar a falar carioques por um momento com minha nova amiga tijucana. E foi ainda melhor porque as meninas do Canada ja tinham me ensinado tudo que sabiam sobre como identificar uma bolsa Louis Vitton original e qual a cor mais elegante para armacao de oculos de grau. Entao posso dizer que estava um pouco de saco cheio. Depois fui ajuda-las a negociar a compra de souvenirs e outras tralhas pra levarem pra casa. Ainda com o pe destruido tive que dar um descanso a noite por causa do frio.
No dia seguinte, domingo, todas as atracoes em Atenas eram de graca, entao aproveitei pra ir ate a Acropole e mais algumas ruinas velhas pra cacete que pra mim eram somente um monte de pedra velha empilhada. Ficou claro que estava na hora de seguir em frente, entao usei o ultimo dia pra dar uma volta na cidade a noite e me preparei para seguir em frente no dia seguinte.
Istambul ai vou eu.
Peguei dois voos ate Istambul e quando cheguei no aeroporto passei por uma situacao unica. Os vistos da Turquia sao vendidos no proprio aeroporto. Ao chegar todo mundo entra na fila pra comprar o seu. Eu me dirigi a fila e apos comprar meu visto, vi o seguranca seguindo na minha direcao e falando: "Brazil, no visa, no visa!!" Ja me prepava para ser mandado de volta quando o seguranca pegou meu passaporte tirou o visto, me devolveu o dinheiro e pediu desculpas pela inconveniencia. Ele me falou que eu nao precisaria de visto para visitar a Turquia. Nisso, todo mundo saiu da fila, comecou a me seguir. O seguranca nao perdeu a oportunidade e virou pros caras perguntando pra um deles de onde ele era. O cara respondeu que era dos EUA. Em seguida, o seguranca lhe deu um esporro e mandou o cara pro fim da fila falando que so brasileiros tinham aquele privilegio. AEEEEEEE!!! Depois de todos esses anos, e o primeiro momento que valeu a pena ser brasileiro fora de ano de Copa do Mundo.
Istambul e uma cidade gigantesca com mais de doze milhoes de habitantes. E impossivel se encontrar sozinho aqui. E no momento, uma das coisas que mais gosto de fazer viajando e me perder um pouco na cidade. E a bandeirinha do Brasil que eu costurei na minha mochila e um convite aos turcos para um bate papo de tres ou quatro frases recheadas de nomes de jogadores brasileiros que atuam na Turquia. De cara na saida do aeroporto, um senhor chamado Izrhafi me perguntou se eu estava perdido, fiquei meio desconfiado, mas conversamos um pouco e ele falou que viu a bandeira do Brasil na minha mochila e imaginou que eu precisaria de ajuda. Dez minutos depois, eu estava sentado no metro com tres senhores turcos falando de futebol, sem que eu entendesse nada do que eles estavam falando e eles entendessem o que eu estava falando. Quando mudei o assunto e falei kebab, cada um me deu uma sugestao de lugar diferente. Sai do trem e precisei de alguns minutos para admirar a Mesquita Azul de um lado o Hagia Sophia do outro. Em alguns minutos, cheguei ao Bahaus que e o hostel em que estou hospedado. Esse hostel e simplesmente um fenomeno de popularidade. Todo mundo que ja foi pra Istambul e se hospeda em hostel ja ouviu falar do Bahaus. O Bahaus e um fenomeno inexplicavel a principio, pois e um hostel sem grandes atrativos, mas basta passar algumas horas para entender que o diferencial sao as pessoas. Tariq, Volcano, Ali, Tony. Os caras sao muito bons e o ambiente e muito tranquilo. Eles nao ficam enchendo o saco com horario de check out ou pagar tudo adiantado como os outros lugares e tem um lounge no ultimo andar que e muito legal. O Volcano e o cara que manda no bar. Ele e uma versao juvenil do Borat. A familia dele conseguiu fugir do Kosovo da guerra, mas ele acabou perdendo mais de vinte parentes no conflito. Apesar disso, ele e o cara mais divertido do mundo e comanda o lounge do hostel, entao nao e de surpreender que duas horas depois da minha chegada ele ja tivesse me apresentado a mais de vinte pessoas que tambem em sua grande maioria nao se conheciam. Conheci um cara do Paquistao que e trader em Houston muito gente boa e Charmaine, a menina mais gente boa que conheci ate agora. Acabou que no dia seguinte ficamos muito amigos e ela virou minha irmazinha. Irmazinha mesmo, pois ela tem 1,50m. Fomos no dia seguinte no Hagia Sophia, na Mesquita Azul e conhecemos o Grande Bazar. Na volta do passeio aproveitei para marcar mais duas noites em Istambul. A cidade e simplesmente fascinante. Tao fascinante que eu preciso do email seguinte pra falar so dela...
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