Monday, November 30, 2009

Diario de Bordo IX: Road Trip turca






Foi dificil deixar Istambul, mas dar adeus faz parte e assim seguimos, eu e Art pelas estradas da Turquia. Pegamos o carro no aeroporto e dirigimos ate Bursa.
Bursa foi a primeira capital do imperio turco otomano ou algo do tipo, mas nao tem nada pra ver. De positivo, a hospitalidade do povo turco foi o cartao de visita. Paramos num cafe para perguntar como chegar no hostel e um rapaz que estava travalhando no cafe deixou o trabalho e nos levou ate onde tinhamos que ir. Ele nao aceitou nada em troca e nao quis que o levassemos de volta. Dormimos, acordamos no dia seguinte e vimos a mesquita da cidade que e bem bonita. Quando ja estavamos indo embora da cidade decepcionados, eis que demos de cara com a inauguracao de um restaurante e ganhamos kebabs de graca. E dai em diante Bursa sera lembrada como uma cidade maravilhosa por nos. Mas sair de Bursa foi um pouco complicado. O transito e caotico e uns caras simplesmente estacionaram colados no nosso carro sem espaco para sair. Tivemos que literalmente levantar o carro com a ajuda de alguns senhores turcos para poder seguir em frente.
Seguimos no dia seguinte para Pamukkale. Pamukkale significa castelo de algodao em turco. A cidade tem duas atracoes turisticas: "hot springs" que sao nascentes de agua quente ricas em minerais que deixam a montanha de Pamukkale branca como neve o ano inteiro e as ruinas da cidade de Hierapolis no topo da montanha branca. Muito bonito e interessante, mas vimos tudo em duas horas e seguimos em direcao a Aphrodisias. Conseguimos chegar la faltando vinte minutos pras cinco da tarde, mas aparentemente, o pessoal la ja estava fechando e todo mundo estava indo embora. Viramos o carro estacionamos e entramos pela saida como se fosse nada estivesse acontecendo. Depois de mais de 100 km pra chegar la, nao podiamos aceitar um simples nao. Ninguem falou nada e em menos de vinte minutos de muita correria conseguimos ver tudo e tirar mais de 40 fotos do lugar. Em seguida fomos para Selcuk. La dormimos e nos preparamos para mais um dia de ruinas e historia.
No dia seguinte, vimos as ruinas da Basilica de Sao Joao que e o local onde supostamente se encontram os restos mortais de Sao Joao, o templo de Artemis que era uma das sete maravilhas do mundo, as ruinas da cidade de Ephesus e a casa da Virgem Maria que reza a lenda seria onde ela teria morado ate sua morte.
Desde que comecei minha viagem eu ja vi o tumulo de Sao Thiago em Santiago de Compostela, de Sao Pedro no Vaticano e agora o de Sao Joao em Selcuk, mais dois ou tres apostolos e passo de viajante a peregrino. No templo do Artemis so uma das 127 lendarias colunas ainda esta de pe, o resto do que foi recuperado esta exposto no British Museum em Londres segundo os pessoal do local.
As ruinas de Ephesus sao as que estao em melhor condicao de preservacao de todas as antigas cidades gregas. O estadio antigo da cidade tinha capacidade para 24.000 espectadores e esta praticamente intacto. La encontramos com Roman e Leonor que estavam no hostel em Istambul com a gente. Acabou que passamos o resto do dia com eles e seguimos juntos pra casa da Virgem Maria. Que foi uma grande decepcao. O preco do entrada e abusivo e assim que pegamos o ingresso descobrimos que o valor cobrado e para manutencao e preservacao da estrada que leva ate la e nao para entrar no monumento, sendo assim eles aceitam doacoes para ajudar na preservacao da area. Me senti de volta ao Vaticano. Pra piorar tudo que tem pra ver la e um casebre e ainda metem uma placa proibindo fotos dentro do recinto. Ta legal, ja vi esse filme. Tirei o flash da camera e tirei uma duzia de fotos pra fazer valer o ingresso. Tirar foto de monumento nao pode ser pecado e se a Virgem Maria pagasse o que eu paguei para entrar na casa de alguem aposto que tambem ia pelo menos querer tirar umas fotos.
Acabado o passeio fomos comer na cidade e seguir para Pergamum. La encontramos as ruinas da Acropole turca. E foi na Acropole turca que tive um momento muito estranho. As pessoas estavam jogando moedas dentro de um poco e fazendo pedidos. Como turista idiota que sou, fui perpetuar a tradicao e ao empunhar a moeda, nao fazia a minima ideia de qual seria meu desejo. Fiquei alguns minutos la ate que joguei a moeda e pedi simplesmente para ser feliz. Nesse momento, eu nao faco a minima ideia do que gostaria que fosse minha vida daqui a cinco ou dez dias, quanto mais daqui a dez anos.
Vimos tudo rapido e seguimos para Troia. Troia na verdade foi surpreendente porque as pessoas falaram tao mal que fomos sem expectativa nenhuma. No final, vimos muito mais do que esperavamos. Troia foi reconstruida oito vezes ate que os caras simplesmente desisitiram e deixaram as ruinas de lado e seguiram em frente para outras cidades. Troia devia ser uma cidade incrivel, mas seus habitantes nao deviam prezar pela inteligencia, pois reconstruir a cidade pela terceira vez ja devia ser sinal suficiente de que ali nao era o lugar ideal para se ter uma cidade. E a historia do cavalo... Fala serio! Sera que depois de toda a guerra e a cidade sitiada por tanto tempo, ninguem desconfiou de um cavalo de madeira que surgiu do nada?
Depois seguimos para Cannukale para dormir e descansar para a volta a Istambul no dia seguinte.
Quem lucrou mais com essa viagem foi meu amigo Art. Ele aprendeu que e muito melhor ser brasileiro do que americano na hora de ligar pra fazer reservas em hostels ou hoteis. Portanto toda vez que ele ligava para ver se tinha vaga em algum hostel, ele falava que era brasileiro e assim Art Rich virava Artur Ricardo. Alem de ganhar sempre um descontinho, ninguem espera gorjeta de brasileiro. O exato oposto dos americanos.
Entao no dia seguinte pegamos a balsa em Cannakale e seguimos viagem pra Istambul. A ideia era vermos a costa da Turquia e aproveitarmos a viagem de volta pra tirar algumas fotos e voltar sem pressa. Bem no estilo road trip. Foi otimo ate que chegamos num ponto em que podiamos pegar a rodovia ou continuar na costa pelo que parecia um atalho. Era uma escolha obvia 40 km por uma rodovia auxiliar ou 80 km para fazer o mesmo trajeto porque teriamos que andar para tras para poder pegar a estrada principal.
Comecamos na rodovia auxiliar e de repente, cade o asfalto? Foram quarenta quilometros de pedras, penhascos e desfiladeiros. Levamos duas horas para percorrer 40 km numa estrada que so fazia subir. Valeu pela paisagem. Apos essa "odisseia" chegamos a Istambul prontos para descansar e aproveitar o fim de semana.

Tuesday, November 24, 2009

Diario de Bordo VIII: Istambul, a melhor cidade do mundo






Eu ja falei que Istambul e fascinante. Mas isso todo mundo que ja visitou a cidade sabe. Istambul foi muito especial pra mim pelas pessoas incriveis que la conheci. O primeiro passo foi a sorte que eu dei na escolha do hostel. Isso foi fundamental, porque o Bahaus esta situado numa area de hostels e restaurantes para turistas. No entanto, ele e o unico hostel que esta sempre cheio.
O ambiente e tao agradavel que duas horas depois de chegar na cidade ja conhecia quase todo mundo no hostel. E o quase se justifica porque sempre tem um grupinho de americanos ou asiaticos que nao se mistura. No dia seguinte, eu e Charmaine fomos no Hagia Sofia, na Mesquita Azul e no Grande Bazar.
No caminho do Grande Bazar, eu e a Charmaine estavamos caminhando pela cidade quando fiquei com vontade de provar o famoso suco de roma da Turquia. O suco era uma verdadeira porcaria, azedo que doia, mas foi nesse momento que tive a sorte de conhecer o Tarik que e um cara que em pouco tempo virou meu amigaco e o Jochan que e um alemao que rodou com a gente por todo o tempo que estivemos em Istambul. Aqui todo restaurante tem alguem na porta convidando os clientes para entrar. Essa e a profissao do Tarik. Ele e tao gente boa que simplesmente todas as refeicoes que eu e a Charmaine fizemos em Istambul daquele momento em diante foram no restaurante em que ele trabalha. Depois do almoco, esbarrei de novo com o Thiago e a Fernanda que eu havia conhecido em Atenas. Eu sabia que eles estavam indo pra Istambul e haviamos ficado de nos encontrar, entao aproveitamos para irmos juntos a um banho turco. Eu nao sabia nada de banho turco, mas a galera falou tanto a respeito que resolvi experimentar. O que eu aprendi e que os turcos levaram o conceito de limpeza a um outro patamar. Eles nao limpam a pele, eles arrancam. Fiquei cheio de ferida nas costas e nos bracos, mas foi bem legal.
Apos o banho turco ainda fomos jantar no mesmo restaurante de sempre e assistimos ao Tarik cantando musicas turcas.
No dia seguinte, acordei todo quebrado do banho turco e fui dar uma caminhada com a Charmaine pela cidade. Aproveitamos para conhecer melhor o Grande Bazar e o Spice Market. E muito divertido ver as negociacoes envolvidas em cada compra e a quantidade de ouro exposta em algumas vitrines. O ouro brilha tanto que fica ate dificil tirar foto. A noite fomos eu, Charmaine e Johan assistir a um show de musica turca a convite do Tarik. Foi uma experiencia muito interessante.
O show foi otimo, mas dificultou acordar no dia seguinte. E ao subir pro cafe da manha conheci o Art, um americano que jogou futebol americano na faculdade e hoje em dia da aulas de ingles na Arabia Saudita. Conversamos um pouco e resolvemos fazer um passeio de barco. E la fomos eu, Fernanda, Charmaine e Art. O passeio vai ate a ponte que cruza do continente europeu para o asiatico. O Art e uma das maiores figuras que ja conheci e alguns minutos depois de conhece-lo, fui convidado a me juntar a ele numa road trip pela Turquia. Por que nao? Estou dentro.
A experiencia que tive em Istambul realmente define o que e viajar na minha opiniao. No final das contas, tudo remete as pessoas que conhecemos no local que fazem com que os momentos vividos sejam inesqueciveis. Tenho certeza que Istambul sera insuperavel. Muita gente legal junta querendo se divertir da nisso. Ficamos tao amigos que os caras do hostel ate estranharam quando fomos levar a Fernanda no aeroporto, pois ela tinha que voltar pro Brasil. Para eles e normal que as pessoas sigam em frente, mas para nos estava tao legal que foi como se dessemos adeus para um amigo de longa data.
Apos a deixarmos no aeroporto, seguimos para o hostel para assistir um show de danca do ventre meio mixuruca, mas engracado. Em seguida, juntamos um grupo de pessoas que estavam hospedadas no hostel e saimos na noite de Istambul. As pessoas que sairam conosco eram em sua grande maioria simplesmente incriveis como Denis, o irlandes que usa um palavrao a cada tres palavras, Stuart, o australiano que sonha em ir pro Iran, Imi, o ingles que tem que mostrar o passaporte pra provar pras pessoas que nao e indiano e Mario, um portugues que tirou um ano pra viajar pelo mundo, mas ja reservou tres meses so pro Brasil. O lugar que fomos era super legal, mas so tocava musica turca e acabamos numa boate que nao tinha ninguem alem do nosso grupo do hostel. Estava tao animado que nem quando encontraram o Stuart desmaiado em cima dos sacos de lixo do lado de fora da boate o pessoal desanimou.
A noite foi muito legal, mas o dia seguinte foi um tanto triste, pois era o ultimo dia quase todo mundo no hostel. Entao tivemos que nos despedir da cidade e do restaurante do Tarik. Fui cortar o cabelo com um cara indicado pelo Tarik que me falou cinco vezes em trinta minutos que tinha sido considerado o quarto melhor cabeleireiro de Istambul. E no final todo mundo se encontrou no hostel para sair junto.
Eu tenho que fazer um parentese aqui para explicar que desde que cheguei a Istambul, senti como se tivesse encontrado o que estava procurando. Apesar de toda a confusao, eu acho a cidade linda e gosto muito dessa integracao de cidade europeia com cultura muculmana. Cheguei a olhar empregos e oportunidades por la.
E assim, de forma meio subita, mais uma vez algo me disse que era hora de seguir em frente. Algumas pessoas vieram perguntar se eu estava triste e eu tenho que confessar que estava um pouco, mas ao mesmo tempo fiquei feliz por sentir que minha viagem continua. E uma coisa estranha, sem explicacao (e quem me conhece sabe que eu sempre fui racional a ponto de nao deixar que nada assim influenciasse minhas decisoes), mas nesse momento e o que me guia. E curtimos todos ate quase de manha cedo e no final da noite eu sabia que minha experiencia em Istambul tinha sido incrivel, mas estava na hora de dizer adeus. O meu novo amigo portugues, Mario, me falou uma coisa que eu achei muito interessante e vou levar comigo daqui em diante: nunca volte a um lugar em que voce foi muito feliz. As chances de que tenhamos duas experiencias incriveis duas vezes no mesmo lugar sao tao remotas que nao vale a pena. E foi assim que fiquei feliz de acordar no dia seguinte rumo ao interior da Turquia para uma viagem de carro de carona com o Art. Istambul foi otimo, mas e hora de seguir em frente... de novo...

Monday, November 23, 2009

Diario de Bordo VII: Atenas e a chegada a cidade mais incrivel de todas, Istambul (20/11/2009)






E o voo pra Atenas foi indescritivel. O tempo estava otimo e quando o aviao ia descendo perto de Atenas, conseguia ver claramente algumas das ilhas e o belissimo litoral grego. Foi uma experiencia unica, inesquecivel, maravilhosa, mas... perai, cade minha mala? Espera, espera, espera e nada. E fica aquela sensacao de "merda, e agora?" Primeiro, bate o desespero. Ai eu reclamei e a mulher do balcao da cia aerea me deu quarenta euros pra passar o dia. Depois, pensa pra ca, pensa pra la e a cabeca ja tinha mudado um bocado. "Eu nem preciso daquilo tudo", "e melhor pegar a grana da mala e comprar tudo novo porque eu vou saber escolher muito melhor as coisas e ainda vai sobrar dinheiro". Bom ou ruim, o que sei e que eu tinha que aguentar um tempo ate ver o que ia acontecer. Usando, claro, a mesma roupa o dia inteiro. Meu pe estava destruido e eu precisava comprar sandalias, mas como estava doendo tanto eu nao conseguia sair pra comprar as malditas sandalias. Entao quando ja me agradava a ideia de ganhar uma grana da cia aerea e comprar tudo de novo, eles ligaram e falaram que encontraram minhas coisas...
Claro que eles so iam entregar no dia seguinte, entao eu tinha que aguentar ate o dia seguinte com a mesma roupa. Descansei um pouco e jantei num lugar que serviu uma das melhores refeicoes que eu ja fiz na minha vida. Cordeiro com batatas cozidas, simples e perfeito. Na volta pro hostel, ao tentar abrir a porta do elevador, acidentalmente libertei dois americanos que estavam presos la fazia algum tempo. E assim conheci Victor e Mike. Eu posso estar sendo injusto com todo mundo que conheci ate agora, mas acredito que esses tenham sido os caras mais maneiros que conheci ate agora. A historia dos dois e simples: eles se conhecem faz bastante tempo. Um dia olharam pra vida que estavam levando, pensaram por um momento no que fazer, venderam tudo e foram morar em Granada que e simplesmente minha cidade predileta de todas que visitei ate agora. Eles querem morar em Granada definitivamente, mas e dificil arrumar visto de residente na Espanha. Entao eu pensei depois de algumas cervejas eu tive um ideia: "Por que nao abrimos um hostel em Granada?" O Mike complementou: "Por que nao abrimos um hostel/night club?" E o Victor que e um italo americano sacana pra cacete bolou uma nova ideia de negocio que deve revolucionar a industria do entretenimento e hospedagem mundial: "Ja sei: um hostel/nightclub/stripclub!" E foi assim que terminou antes mesmo de comecar minha aventura empreendedora com meus dois potenciais novos socios. Algo me diz que nao daria certo.
No dia seguinte, eu, Victor, Mike e um casal de australianos que conhecemos no hostel fizemos a walking tour do hostel que nao foi muito legal, mas foi o suficiente pra ter uma ideia da cidade. Rodamos um pouco depois do tour, comemos um kebab de dois euros maravilhoso e depois fomos fazer uma caminhada no morro mais alto de Atenas. A vista era belissima e tiramos varias fotos muito legais. De repente ouvi alguem falando portugues e conheci o Thiago, a Fernanda e o Antonio. E assim quatro brasileiros se conheceram em Atenas. O Thiago e a Fernanda estavam viajando juntos. Eles sao oficiais da Marinha. O Antonio estava fazendo mestrado na Franca e tirou um tempo pra viajar. Conversamos um pouco e combinamos de nos falar por email.
Apos o passeio foi hora de me despedir de Mike e Victor que estavam indo para Creta. Eles ate me chamaram pra ir, mas eu tinha que dar a devida atencao a Atenas. Cheguei no hostel e tudo que eu queria era ficar com o pe pra cima. Abri o email e fiquei surpreso ao ver o roteiro que o Antonio tinha mandado por email. Ele estava propondo uma visita ao Oraculo de Delfos, ate ai tudo bem. So que eu teria que estar na estacao de onibus as seis da manha. Ou seja, esquece.
No dia seguinte, fiz amizade com duas meninas que estavam no mesmo quarto que eu e marquei com elas de ir a Acropole a tarde. De manha fui no Museu de Arqueologia. O Museu de Arqueologia de Atenas tem as coisas mais antigas que eu ja vi. Tem um monte de coisas com um monte de milhares de anos. E foi la que tive meu primeiro contato intimo com uma peca de mais de dois mil anos de idade. Enquanto eu tentava enquadrar uma peca de bronze para tirar uma foto, dei uns passos pra tras e ao dar um passo um pouco maior esbarrei numa peca que estava no meio do caminho num pedestal. Ela comecou a balancar e eu tive que abracar a porcaria da peca pra evitar que ela caisse. Depois de um esporro do seguranca, perguntei se a peca nao deveria estar presa ao chao e ele falou que aquela tinha acabado de ser movida pra la e por isso estava solta. Boa cagada que eu quase fiz.
A tarde, fui com duas amigas canadenses que conheci no hostel para dar um role na cidade e fomos a alguns museus e monumentos que eram basicamente um monte de pedras muito velhas e comecei a me sentir muito cansado de ver vasos de cinco mil anos de idade. Depois dos vasos de cinco mil anos de idade, qual a graca de ver vasos de dois mil anos de idade? Se eu trabalhasse num museu grego, ia propor alterar totalmente a organizacao do museu e colocar primeiro as coisas mais novas e depois as mais velhas pra que as pessoas continuassem interessadas nas pecas expostas de menos de dois mil anos de idade.
Caminhando para o Museu de Arqueologia, esbarrei com a Fernanda que conheci no dia anterior. Ela nao conseguiu acordar e ficou perdida pela cidade ate se juntar a nos. Foi otimo voltar a falar carioques por um momento com minha nova amiga tijucana. E foi ainda melhor porque as meninas do Canada ja tinham me ensinado tudo que sabiam sobre como identificar uma bolsa Louis Vitton original e qual a cor mais elegante para armacao de oculos de grau. Entao posso dizer que estava um pouco de saco cheio. Depois fui ajuda-las a negociar a compra de souvenirs e outras tralhas pra levarem pra casa. Ainda com o pe destruido tive que dar um descanso a noite por causa do frio.
No dia seguinte, domingo, todas as atracoes em Atenas eram de graca, entao aproveitei pra ir ate a Acropole e mais algumas ruinas velhas pra cacete que pra mim eram somente um monte de pedra velha empilhada. Ficou claro que estava na hora de seguir em frente, entao usei o ultimo dia pra dar uma volta na cidade a noite e me preparei para seguir em frente no dia seguinte.
Istambul ai vou eu.
Peguei dois voos ate Istambul e quando cheguei no aeroporto passei por uma situacao unica. Os vistos da Turquia sao vendidos no proprio aeroporto. Ao chegar todo mundo entra na fila pra comprar o seu. Eu me dirigi a fila e apos comprar meu visto, vi o seguranca seguindo na minha direcao e falando: "Brazil, no visa, no visa!!" Ja me prepava para ser mandado de volta quando o seguranca pegou meu passaporte tirou o visto, me devolveu o dinheiro e pediu desculpas pela inconveniencia. Ele me falou que eu nao precisaria de visto para visitar a Turquia. Nisso, todo mundo saiu da fila, comecou a me seguir. O seguranca nao perdeu a oportunidade e virou pros caras perguntando pra um deles de onde ele era. O cara respondeu que era dos EUA. Em seguida, o seguranca lhe deu um esporro e mandou o cara pro fim da fila falando que so brasileiros tinham aquele privilegio. AEEEEEEE!!! Depois de todos esses anos, e o primeiro momento que valeu a pena ser brasileiro fora de ano de Copa do Mundo.
Istambul e uma cidade gigantesca com mais de doze milhoes de habitantes. E impossivel se encontrar sozinho aqui. E no momento, uma das coisas que mais gosto de fazer viajando e me perder um pouco na cidade. E a bandeirinha do Brasil que eu costurei na minha mochila e um convite aos turcos para um bate papo de tres ou quatro frases recheadas de nomes de jogadores brasileiros que atuam na Turquia. De cara na saida do aeroporto, um senhor chamado Izrhafi me perguntou se eu estava perdido, fiquei meio desconfiado, mas conversamos um pouco e ele falou que viu a bandeira do Brasil na minha mochila e imaginou que eu precisaria de ajuda. Dez minutos depois, eu estava sentado no metro com tres senhores turcos falando de futebol, sem que eu entendesse nada do que eles estavam falando e eles entendessem o que eu estava falando. Quando mudei o assunto e falei kebab, cada um me deu uma sugestao de lugar diferente. Sai do trem e precisei de alguns minutos para admirar a Mesquita Azul de um lado o Hagia Sophia do outro. Em alguns minutos, cheguei ao Bahaus que e o hostel em que estou hospedado. Esse hostel e simplesmente um fenomeno de popularidade. Todo mundo que ja foi pra Istambul e se hospeda em hostel ja ouviu falar do Bahaus. O Bahaus e um fenomeno inexplicavel a principio, pois e um hostel sem grandes atrativos, mas basta passar algumas horas para entender que o diferencial sao as pessoas. Tariq, Volcano, Ali, Tony. Os caras sao muito bons e o ambiente e muito tranquilo. Eles nao ficam enchendo o saco com horario de check out ou pagar tudo adiantado como os outros lugares e tem um lounge no ultimo andar que e muito legal. O Volcano e o cara que manda no bar. Ele e uma versao juvenil do Borat. A familia dele conseguiu fugir do Kosovo da guerra, mas ele acabou perdendo mais de vinte parentes no conflito. Apesar disso, ele e o cara mais divertido do mundo e comanda o lounge do hostel, entao nao e de surpreender que duas horas depois da minha chegada ele ja tivesse me apresentado a mais de vinte pessoas que tambem em sua grande maioria nao se conheciam. Conheci um cara do Paquistao que e trader em Houston muito gente boa e Charmaine, a menina mais gente boa que conheci ate agora. Acabou que no dia seguinte ficamos muito amigos e ela virou minha irmazinha. Irmazinha mesmo, pois ela tem 1,50m. Fomos no dia seguinte no Hagia Sophia, na Mesquita Azul e conhecemos o Grande Bazar. Na volta do passeio aproveitei para marcar mais duas noites em Istambul. A cidade e simplesmente fascinante. Tao fascinante que eu preciso do email seguinte pra falar so dela...

Friday, November 13, 2009

Diario de Bordo VI: Dos Alpes a Roma (11/11/2009)






Nao acreditei quando eu abri meu guia e comecei a ler sobre meu proximo destino. Interlaken e uma das capitais suicas do desporto de inverno e dos esportes radicais.
Fiquei num quarto com um casal de amigos de Denver que esta estudando em Budapeste por um semestre: Evan e Ally. Evan foi muito simpatico desde o primeiro momento e logo estavamos amigos. Ao me perguntar se eu ja havia estado la e receber uma resposta negativa, ele falou para que me preparasse para estar num cartao postal. Desci para o bar do hostel e descobri que a cozinha estava fechada. Sem opcoes tive que comecar a me nutrir por liquidos, a escolha obvia foi uma Guiness. A noite de Interlaken e incrivel, era como uma cidade fantasma, mas ao descer um lance de escadas no interior do hostel cheguei num pub subterraneo gigante e lotado. Depois de umas cervejas acabei do lado de fora cheio de casaco, luva, gorro conversando com um costarriquenho com umas dreadlocks que so usava uma camiseta e jurava que frio e psicologico. Eu sou obrigado a concordar, mas nao soube decifrar qual o tipo de problema psicologico ele tinha. O ponto alto de Interlaken e o sky diving e eu conheci o dono da empresa que faz o saltos. Claro que ele e australiano. Os australianos e os neozelandeses estao por toda parte. Os australianos mesmo falam que dos 22 milhoes de habitantes que eles tem pelo menos quinze estao rodando o mundo. Uma coisa muito legal do hostel de Interlaken e que eles tem um Sao Bernardo gigante que anda solto dentro do hostel. Ele e tao bonachao que eu deitava perto da lareira com a cabeca em cima dele e ele nem se mexia.
Na manha seguinte, abrir os olhos foi uma agradavel surpresa. Da janela do quarto, eu via uma casinha de madeira com a bandeira da Suica soltando fumaca da chamine, as arvores amareladas do outono e as montanhas com o topo cheio de neve. Lembrei do que o Evan havia falado sobre estar num cartao postal e fiquei la embasbacado admirando uma das mais belas vistas que ja vi. O Evan mencionou que faria uma caminhada por uma dessas montanhas com um grupo e me convidou pra ir. Ele nao sabia dizer como funcionava a caminhada, mas se um monte de gente estava indo devia ser uma boa ideia. Encontrei algumas pessoas que eu conheci em Paris e descobri que existe uma empresa especializada em levar estudantes americanos que moram na Italia para viagens de fim de semana. Ela foi fundada por um rapaz chamado Tom com um amigo oito anos atras quando ele foi estudar em Florenca e comecou a organizar viagens para os amigos. Gostou do que estava fazendo e transformou em profissao. Logo, eu estava estava de penetra na caminhada do grupo de turismo da empresa do Tom. Logo percebi que o frio seco dos Alpes e muito mais tranquilo do que o frio umido com chuva que eu peguei em Bruges ou Amsterdam. Quando comecamos a subir comecei a suar e tirar casaco, luva, gorro e acabei de calca e camiseta nos Alpes. A vista do topo era inacreditavel, parecia montagem. Os lagos de Interlaken sao de um tom azul muito claro por serem formados por agua que escorre das geleiras. So vendo pra entender o que estou falando.
Todo mundo estava de boca aberta com a vista ate um babaca cismar que tinha que ficar em pe na beira do mirante pra tirar uma foto. Claro que esse babaca era eu e realmente a foto ficou muito maneira, mas quando as outras pessoas comecaram a imitar e fazer papagaiada na beira do precipicio, o Tom adiantou a descida.
Acabou que eu conheci tanta gente na caminhada que no final do dia, eu e umas quinze pessoas que conheci na caminhada se dirigiram ao quarto de um deles, onde estavam todos bebendo whiskey vagabundo com Coca-Cola, mas, como isso nao faz meu genero, fiquei so no bate-papo. Eles iam para um pequeno casino que havia na cidade, mas meus pes estavam destruidos e tive que ficar pra dormir. Uma das meninas me falou que nunca teria condicoes de jogar nenhum jogo de azar, mas no dia seguinte fiquei sabendo que ela colocou dez francos suicos numa maquininha e ganhou quinhentos de primeira. Nada mal...
No dia seguinte, foi legal descobrir que meu colega de quarto ja tinha ido embora, mas me deixou uma mensagem que dizia "Safe travels, let happiness be your means and your end." Achei muito maneiro. Depois do cafe da manha, tive que ir atras da maior contribuicao dos suicos pra sociedade moderna. E nao estou falando de chocolate suico e sim dos canivetes.
A Suica tambem tem uma peculiaridade, pois ainda que faca parte da comunidade europeia, nao adotou o Euro como moeda. Isso torna qualquer compra pequena um exercicio de matematica desagradavel. Entao a licao que tirei e que nao da pra contar com a honestidade dos suicos, mas eu ja devia ter aprendido isso pelo pouco que sei do sistema bancario deles.
O Tom foi tao gente boa comigo, mas tao gente boa que quando falei que ia pra Italia, ele me convidou pra ir no onibus da excursao dele. Ele falou que tinha espaco sobrando e nao teria problema. Entao foi assim que cheguei a Florenca na Italia. Alem de ir de penetra na caminhada, ainda peguei uma carona no onibus do cara e pra fechar a triplice coroa, cheguei antes de todo mundo e deitei em tres assentos no fundo do onibus, enquanto que um monte de gente se amontoava nas cadeiras da frente. Essa e pra deixar meus pais orgulhosos.
Eu estava querendo mesmo ir pra Roma, mas acabei me convencendo de que Florenca era um lugar que valia a visita. E como o onibus chegou muito tarde, passei o dia em Florenca. Uma cidade muito bonita e que possibilitou completar um objetivo da minha viagem: eu ja havia visto obras do Michelangelo, Leonardo e Rafael, mas ainda faltava ver alguma obra do Donatello. Agora ja posso falar com orgulho que eu vi obras feitas por todas as Tartarugas Ninjas.
Fui a alguns museus bonitos, mas foi uma overdose de arte e agora quando eu passo por um quadro do Leonardo da Vinci ou uma escultura do Michelangelo e como se passasse por uma Playboy em uma banca de jornal no Rio de Janeiro, ou seja, virou parte da paisagem.
Uma das coisas mais me orgulhava nessa viagem era minha barba. E a primeira vez que eu deixo crescer por tanto tempo. Mas Florenca me deu um sinal de que era hora de dar um fim a ela. Almocei uma pasta e quando me olhei no espelho depois do almoco pude notar que metade do prato ficou na barba. Ou seja, fim da barba.
Barba feita, e hora de seguir pra Roma!!!
A chegada em Roma foi tranquila e o hostel muito bom. Comi uma pizza e fui dormir.
Ao acordar no dia seguinte, notei que tinha um cara fazendo flexao de braco no escuro. Nem pensei duas vezes e mandei um: "Bom dia, mermao!" So carioca tem tanta neura com atividade fisica e ele respondeu da mesma forma. Comecamos a conversar e descobri que ele estava indo embora naquele dia, mas durante o cafe da manha, me apresentou um outro brasileiro que esta morando em Lisboa e ficaria mais um dia em Roma. E la fomos nos para o Vaticano. O Vaticano e a sede da obra de vida do maior empreendedor da historia, o apostolo Pedro. O cara fundou a igreja catolica, foi o primeiro papa e comecou um negocio tao bom que ate hoje ninguem cobra imposto deles. E ainda tem mais, alem de ser caro pra cacete pra visitar em todo canto tem uma lojinha de souvenir e um altarzinho pedindo doacao. A Basilica de Sao Pedro e maravilhosa, as catacumbas dos papas sao super interessantes e o museu tem tanta coisa pra ver que quando as pessoas chegam na metade simplesmente desistem e vao direto pra capela sistina que e uma overdose de pinturas sensacionais. De la fui ver algumas pracas e monumentos e fechei o dia na Fontana di Trevi.
A galera que trabalhava no hostel era tao gente boa que no final do dia eu fiquei la conversando com eles e ja estavam ate me arrumando emprego pra eu ficar em Roma. Moa, Jason e Isla viraram meus bons amigos logo. Jason e Isla sao neozelandeses e simplesmente tiraram tres anos da vida deles para viajar e conhecer o mundo. Quisera eu ter coragem pra fazer isso... Moa e uma sueca que nao gostava do frio e foi parar na Italia.
Ao chegar no meu quarto a noite, conheci um iraniano chamado Mansour que foi o meu amigo do dia seguinte. No nosso quarto ainda havia um dinamarques muito simpatico chamado Thomas que saiu cedo, mas encontrou com a gente no meio da rua na hora do almoco. E o que acontece quando juntamos um brasileiro, um dinamarques e um iraniano em Roma? Nada. Sao so mais tres turistas perdidos em Roma. Mas a culpa nao era nossa, pois Roma e a cidade mais confusa que eu ja vi. Nao tem nenhuma rua que siga em linha reta por mais de 50 metros. E uma zona do cacete. E toda hora que nos perdiamos o Thomas falava que precisava de mais uma cerveja e ficava cada vez mais dificil de achar os lugares no mapa e o Mansour reclamava que tava cansado e a gente sentava e o Thomas pedia outra cerveja. Foi um longo dia e so na Fontana di Trevi nos passamos umas cinco vezes. Mas eles foram muito boa companhia.
Eu adorei Roma e uma cidade incrivel, mas tem uma coisa em Roma que me impressionou mais que qualquer outro monumento que eu ja tenha visto na minha vida: o Coliseu. E indescritivel estar caminhando nas ruelas de Roma e dar de frente com um monumento monstruoso de mais de dois mil anos de idade. So e comparavel com a emocao de avistar o Engenhao ao passar pela linha amarela.
Eu estava me sentindo muito bem em Roma. Ja tinha feito um monte de amigos no hostel, logo, e hora de seguir em frente. Atenas ai vou eu!

Diario de Bordo V: Cerveja belga e porre do brabo (07/11/2009)






Sempre pontuais, confortaveis e rapidos. Assim sao os trens europeus. So que aqui ou voce sabe exatamente o trem que quer pegar, ou voce fala holandes/alemao/frances. Como eu nao atendo a nenhuma dessas condicoes, e no minimo de se esperar que em algum momento eu entre no trem errado.
Indo de Amsterdam pra Bruges, eu tinha que trocar de trem em Antuerpia, sai e perguntei pra um cara que estava em pe com cara de quem sabia pra onde estava indo o que eu tinha que fazer pra chegar em Bruges e ele apontou o trem no qual entrei... Que ia na direcao oposta, e claro! Depois de uns 20 minutos de viagem, surge um coroa querendo me multar porque eu nao tinha bilhete para aquele trem. Prontamente respondi com um "Nem F..." em portugues mesmo. Seguido por: "I'm not paying a f... thing! You should have a motherf... on the f... platform to help stupid f... tourists like me!" (Uma forma muito elegante de falar que eles deveriam ter alguem na plataforma pra ajudar os turistas). Por incrivel que pareca, ele concordou, virou as costas e foi embora. Esperei a policia para me prender, mas nao deu em nada. Da-lhe Belgica! Como eu ainda tinha que chegar em Bruges procurei alguem a quem perguntar o que fazer. Hora ideal pra utilizar minha nova tecnica para pedir informacao: procure alguem bem feio. Essas pessoas costumam ser muito mais solicitas e voluntariosas do que a pessoa comum. Eu acabei de desenvolver essa tecnica, entao se alguem tiver me conhecido enquanto eu pedia informacao, nao precisa ficar ofendido. Mas fiquei meio espantado quando olhei em volta e so vi gente bonita arrumada. Quando avistei o corcunda de Notre Dame no fundo do vagao e me preparava para ir ate ele pra pedir ajuda, uma menina muito bonita perguntou se eu estava precisando de ajuda. Ela e um amigo estavam no trem e sairam comigo na estacao seguinte me levaram ate a plataforma onde eu tinha que pegar o trem pra Bruges e esperaram dez minutos conversando comigo enquanto meu trem nao chegava. Isso me deixou uma impressao muito boa da Belgica porque estar perdido pra mim nao e novidade. Eu me perco aqui entre 10 e 20 vezes por dia (40 em Amsterdam), mas ninguem nunca tinha me ajudado assim. Chegando em Bruges foi muito facil achar o hostel. Comi um kebab e fui dormir.
No dia seguinte, acordei pra descobrir que eu so tinha mais uma camisa limpa e estava na hora de lavar roupa. Esse e sempre um dos piores momentos da viagem porque voce sabe que vai perder pelo menos umas duas horas so pra entender como fazer isso no idioma local e isso foi o suficiente pra eu concluir que precisaria de mais um dia em Bruges. Cheguei na lavanderia e o maldito do cartaz era uma sopa de letrinhas do cacete! Botei uma nota de 20 euros e recebi uma porrada de tokens pra maquina de lavar. Aparentemente algum daqueles cartazes dizia que a maquina nao dava troco. Proxima experiencia inedita: vender alguns tokens por mimica pra uns velhinhos que foram chegando na lavanderia.. Entao, entrou na lavanderia um garoto com a cara amassada e foi nesse exato momento que conheci meu amigo do dia, um mexicano muito gente boa chamado Maurice. Apesar de ter somente 19 anos ele esta viajando pela Europa. Antes que todo mundo pense o quao legal e ver um menino tao novo viajando o mundo pra conhecer lugares e culturas diferentes, e importante ressaltar que ele esta viajando ha pelo menos dois meses e o primeiro museu que ele visitou foi comigo. O negocio do Maurice e so bagunca. Ele estava lavando roupa pela segunda vez desde que comecou a viajar e me contou que tinha ficado dez dias em Amsterdam usando as mesmas meias e a mesma cueca (algo que eu sinceramente nao precisava saber). Amsterdam foi a cidade que ele mais gostou da Europa apesar de la ter perdido a camera, a carteira e muitos, muitos neuronios. Tem duas coisas que encantam o Maurice na Europa: o guarda chuva que ele comprou (o guarda chuva abre apertando botao. Ele nunca havia visto isso antes, fazer o que?) e os kebabs. Todo mundo que ja provou kebab tem que admitir que tem algo de especial em juntar carne ruim, vegetais ruins, pao velho e ter uma refeicao maravilhosa. O Maurice falou que o sonho dele e voltar pro Mexico e abrir uma barraquinha de kebab.
Bruges e muito bonita, mas tem poucas atracoes turisticas. E simplesmente uma cidadezinha boa de ficar um tempo descansando, mas como esse nao e o espirito da minha viagem, segui pra estacao de trem e comprei um bilhete pra seguir pra Luxemburgo no dia seguinte.
Bruges tambem e a terra da batata frita, do mundialmente famoso chocolate belga e de maravilhosas cervejas belgas. Entao no caminho de volta pro hostel comprei uma porcao das "famosas batatas fritas" que sao iguais a qualquer outra batata frita no mundo e comprei um monte de chocolate que eu fui comendo no caminho. Chegando no hostel, fui direto provar as maravilhosas cervejas belgas. E a primeira licao e que as cervejas aqui sao maravilhosas, mas tem sempre um nome horrivel cheio de consoantes que tornam impossivel pro turista estrangeiro pedir duas vezes a mesma. Um casal de neozelandeses se juntou a mim e ao Maurice no bar do hostel. Hayden e Denise comecaram a namorar quando tinham quinze anos e decidiram quando tinham vinte e um que iam viajar o mundo. Moraram em alguns paises trabalhando com um monte de coisas diferentes. Agora eles estao morando na Noruega e tiram o tempo que podem pra viajar. Foi muito legal ver um casal jovem viajando junto e conhecendo o mundo, mas o mais importante de conhece-los esclarecer uma das questoes fundamentais que assombrava minha existencia e descubri que se voce fizer um piercing abaixo do labio nao pode mais bochechar porque vaza. Eu sabia!!!
As cervejas belgas sao muito mais fortes que as brasileiras e o meu amigo barman com nome impronunciavel que la pelas tantas eu apelidei de Joao me apresentou a diversas delas. Pra fechar a noite ele me deu uma cerveja que tinha mais de 15% de teor alcoolico e esse foi o momento em que eu percebi que a Terra nao estava girando como de costume. O Maurice ja tinha perdido a carteira e o anel no bar e eu me despedi dele e do novo casal de amigos pra seguir pro quarto. Cheguei no quarto e vomitei todas as famosas cervejas belgas, seguidas pelo famoso chocolate belga e a famosa batata frita belga. Dei sorte de estar sozinho num quarto de quatro camas. Isso significa que eu poderia escolher a cama que eu quisesse, mas aparentemente nao foi o suficiente pra mim porque acordei deitado no chao usando um sapato como travesseiro acompanhando da famosa dor de cabeca belga e da famosa ressaca belga. Chega de Belgica para mim.
Tomei cafe e corri pra estacao pra seguir pra Luxemburgo. A viagem e maravilhosa, passando por diversos bosques em diversos tons entre o verde e o amarelo do outono. O bom dessa epoca do ano e que eu estou vendo pela primeira vez a entrada do outono europeu que e verdadeiramente muito bonito.
Agora chega um momento diferente da minha viagem em que eu estou indo visitar primos que eu nunca vi antes. Da um frio na barriga porque voce nao sabe muito bem o que esperar. Eles moram numa cidadezinha na Franca chamada Yutz que e bem proxima das fronteiras com Luxemburgo, Alemanha e Belgica. Tudo que sei e que so os primos diretos da minha mae falam portugues, o resto da galera so fala alemao e frances. E eu so pensava comigo: Isso vai ser legal!
Sai da estacao e, alguns minutos depois, conheci um dos caras mais legais do mundo, meu primo Albertino. De cara ele ja me recebeu com o maior sorriso do mundo e fomos pra casa dele conhecer a familia. Ele e casado com a Caty e tem quaro filhos: Marc, Etienne, Adelina e Yves. Todo mundo fez uma forca pra que eu me sentisse bem e e nesse momento que eu fico muito puto com as aulas de frances que eu tive na escola. Eu sei rezar a Ave-Maria em frances, mas nao sei perguntar onde e o banheiro! Apos o jantar, o Albertino me levou pra conhecer sua irma Julia, seu irmao Belarmino e as respectivas familias. Todos me receberam maravilhosamente bem. Fiquei num quarto muito bom no porao da casa do Albertino. Com acesso a internet, XBOX e um silencio que eu nao imaginei que existisse. Melhor que todos os hostels e hoteis onde ja fiquei na vida. Acessei a internet e como nao podia deixar de ser, fiquei pendurado ate as 3h da manha no computador acompanhando pela internet a merda do meu time perder como de costume. No meio do jogo lembrei que tinha que escolher um lugar pra ir. Entrei na internet e escrevi algo como lugar mais bonito da Europa e vi uma mencao a Interlaken, na Suica, lembrei que algumas pessoas que conheci em outros lugares me falaram que iam pra la e foi assim que decidi meu proximo destino.
No dia seguinte, a Caty teve a paciencia de uma santa pra conversar via tradutor comigo na cozinha enquanto eu esperava o Belarmino. Ele me levou pra ver lugares incriveis de batalhas da Segunda Guerra Mundial e os restos de um castelo. A cidade deles ainda conserva os bunkers da epoca da guerra por todos os lados. Ta ai algo que eu nao vejo todos os dias. Depois fomos a Luxemburgo, um pais pequenininho muito simpatico e frio pra cacete. Rodamos um pouquinho ate eu perder a sensibilidade da ponta do meu nariz por conta do frio e voltamos. O Belarmino e um cara muito legal e diferente. Ele tem quase 60 anos, mas escuta Black Eyed Peas, Nelly Furtado e tudo que e musica de noitada que toca no radio. Ele tem uma cabeca muito jovem e e muito engracado. Tentei por algumas vezes comprar alguma coisa pra presentear ele e o Albertino pela hospitalidade, mas ele simplesmente nao deixava. Jantamos na casa dele com sua esposa, o filho Mikael (a grafia deve estar errada) e a namorada. Depois fui conhecer o irmao do meu avo materno e os outros irmaos do Albertino e do Belarmino. Sentado na mesa cercado por todos, tirei uma licao que levo pro resto da minha vida: o real sentido da palavra sorte. Sorte e vc chegar num lugar que nunca foi antes pra conhecer parentes que nunca viu e encontrar algumas das melhores pessoas do mundo de bracos abertos para te receber e a unica reclamacao que eles te fazem e do pouco tempo que voce reservou para visita-los. E ter amigos incriveis e familiares que sempre te apoiem e proporcionem as condicoes para voce ser o melhor que pode ser. E ainda ter uma namorada incrivel que te apoia e da forca sem te mandar pra nenhum lugar obsceno, mesmo quando voce liga pra ela e fala o quanto seria legal fazer isso pro resto da sua vida. Pra compensar isso tudo, eu torco pro Botafogo. Fazer o que? Nao da pra ser perfeito...
No dia seguinte, a Caty me convidou pra ir na escola primaria da cidade falar um pouco pra uma classe de criancas que estao comecando a aprender ingles. Falei da minha viagem. Matei a curiosidade deles confirmando que existem arvores no Brasil, ao contrario do que uma menininha pensava, e que nos dirigimos no mesmo lado que os franceses. Fui com o Belarmino a Metz, onde almocei um autentico Quiche Lorraine (pois eu estava na Lorraine) e depois me preparei para seguir em frente mesmo estando com muita vontade de ficar mas tempo. Um dia eu volto. Hora de seguir em frente.
Agora, estou num trem pra Zurique. Tudo que eu vejo e que a cada parada entra gente mais agasalhada e eu to vendo que me meti numa gelada...

Diario de Bordo IV: Calor e sol em Londres, acredite se quiser (03/11/2009)






E a viagem para Londres foi uma das piores que eu ja fiz. O onibus parou duas vezes na fronteira, uma do lado frances e outra do lado ingles. Uma senegalesa que tentava entrar pela segunda vez na Inglaterra em menos de uma semana, fez com que nosso onibus ficasse retido um tempao na fronteira. Quando nos liberaram, a passagem do canal estava fechada e tivemos que esperar mais uma hora parados no onibus. Quando chegou minha hora de passar pela oficial de imigracao, nao conseguia achar minha passagem de volta pro Brasil. Nessa altura da viagem, quando eu procuro algum papel acho um bilhete de metro de Barcelona, ingresso pra monumento em Granada, mapa de Madri, mas nunca o que eu estou procurando. Ela ficou meio impaciente, mas eu falei que estava salvo no meu netbook e por sorte era o exato modelo que ela estava pensando em comprar.Comecamos a conversar a respeito e ela se esqueceu falou pra passar. Chegar em Londres e dificil e a estacao de metro parece ter sido feita para se perder propositalmente. Ainda bem que podia contar com os ingleses que sao infinitamente mais simpaticos que os espanhois (que nao sao muito solicitos) e os franceses (que sao franceses, ora bolas, precisa dizer mais alguma coisa?). Toda as vezes que precisei de ajuda, todos fizeram questao de colaborar.
No primeiro dia me instalei na casa dos meu amigos Gustavo e Mariana Feijoo e ele me levou pra conhecer um pouco da cidade. Fomos aos museus de historia natural e de ciencias, depois rodamos a Picadilly Circus e o Soho tomando umas "cervejinhas". O problema e que o copo da cervejinha aqui equivale a uma garrrafa de cerveja no Brasil, ou seja, depois de tres ou quatro cervejas eu ja estava indo ao banheiro de 15 em 15 minutos.
O clima em Londres estava incrivel e as pessoas por todo lado estavam falando de onde de calor. Acreditem ou nao, eu tive que comprar um casaco mais leve porque o meu casaco estava esquentando muito. O Gustavo me levou pra visitar as lojas aqui e realmente eles tem coisas que eu so acredito porque vi. Alguem consegue imaginar uma loja de escalada que possui uma parede de escalada de gelo dentro da loja? E uma loja com uma camara fria so pra testar casacos com leitor infravermelho pra identificar onde o casaco esquenta e onde ele nao esquenta no frio?
Fui conhecer o Borough Market que e como se fosse a feirinha de Sao Cristovao daqui um tiquinho de nada mais sofisiticada. Comi que nem um condenado pra compensar minha alimentacao baseada em hamburguer e cerveja de Paris. Ainda visitei o Imperial War Museum que e um museu dedicado a contar a historia de guerras e conflitos diversos (a versao deles e claro) e o Westminster Abbey. O Westminster Abbey e um passeio com a cara do meu irmao. La estao os tumulos do Darwin e do Newton, sem falar de Geoffrey Chaucer, Charles Dickens, Lord Byron e diversos monarcas ingleses e personalidades. E uma aula de historia. Logo que entramos no predio estamos no exato lugar em que foram coroados todos os monarcas ingleses desde o seculo XI e onde sao velados os membros da familia real. Fiquei um tempao procurando o tumulo do Darwin ate um cara falar que eu estava pisando nele (oops!). Pisei ate no Churchill.Claro que nao podia tirar foto, mas claro que eu tirei. Desenvolvi uma tecnica bem simples. Entreguei o audioguide na entrada e me dirigi ao local que queria fotografar. Quando chegou um ingles muito puto falando que nao podia fotografar eu rebati com a cara mais lavada com um "No hablo ingles" e desembestei pra saida. Apos o passeio almocei na casa do Gustavo e da Mariana que e num bairro muito maneiro digasse de passagem. A Mariana que fez o almoco e estava maravilhoso. Mal acabei o almoco esta na hora de correr pro aeroporto para seguir pro meu proximo destino, nada menos que Amsterdam.
O voo pra Amsterdam foi otimo. A chegada tambem foi muito tranquila e o hostel que eu escolhi era realmente num local incrivel. Localizei o hostel com facilidade e quando ja estava sonhando com um banho, fui informado que tinha marcado o dia errado e perdi minha reserva. O hostel estava lotado assim como os outros cinco lugares que visitei. Em um deles um cara com bone do Che Guevara me ofereceu uma cama embaixo do balcao por 35 euros. Dormir embaixo do balcao por mim tudo bem, mas nao existe nenhuma chance de eu dar nem um centavo pra ninguem com bone de Che Guevara ou outro babaca de esquerda qualquer! Resolvi entao dar um volta e passando por um rua escura conheci tres irlandeses. Um deles estava usando uma fantasia rosa de ursinho carinhoso, um vestido de cowboy e o outro estava sem camisa num frio de menos de dez graus. Quando eu contei pra eles da situacao, eles me falaram que no hostel onde eles estavam haviam camas sobrando, entao me dirigi pra la.
Eles ate tinham cama sobrando, mas a eu tenho certeza que o povo que estava la nao pretendia usar essas camas pra dormir. O lugar era a maior zona que eu ja vi. Eu consegui fechar uma cama por 40 euros, o que era extremamente caro, mas pelo menos fiquei num quarto sozinho. Nao e tao dificil arrumar camas em Amsterdam, mas estamos falando de uma cama em Amsterdam no sabado de Halloween. Enquanto subia pra deixar minha mochila no quarto cruzei com o Scooby Doo, tres Smurffs e um negao gordo vestido de Branca de Neve. E e claro que a primeira coisa que fiz foi sair pra dar um volta e ver a cidade um pouco melhor. Passei por diversos "coffee shops" e janelas do red light district, mas maneiro mesmo foi a queda de um garoto chapado que estava andando de olhos fechados direto no rio. Tomei umas cervejas com meus amigos irlandeses e quando perguntei que horas eles tinham comecado a beber um deles respondeu "1978". Em seguida, me surgiu do nada um coroa escoces que devia ter uns 60 anos e comecou a falar de futebol no bar. Comecei a retrucar as comentarios dele a respeito do nosso esporte nacional e quando ele descobriu que eu era brasileiro simplesmente levantou e gritou: "Ordem e Progresso". Uma vez, duas vezes, tres vezes, quatro, cinco,.... dez vezes, ate que simplesmente saiu pela porta e foi embora. De onde ele tirou o "Ordem e Progresso" eu nunca vou saber.
No dia seguinte, a ideia era acordar cedo pra trocar de hostel e pegar o Free Walking Tour assim como fiz em Paris. O de Paris foi bom, mas esse foi ainda melhor. O tour foi tao bom que comecou a chover no meio e ninguem arredou pe. Quase no finalzinho do tour, tive meu momento Junior Baiano da viagem. Enquanto passavamos por um pequena ladeira com piso muito liso, escorreguei e desci a ladeira dando um carrinho criminoso que terminou com tres corpos estendidos numa poca. Eu e o casal que eu derrubei no caminho enquanto escorregava. Se tivesse algum juiz nos arredores, era cartao vermelho na mesma hora. Direto pro chuveiro.
Voltei pro novo hostel que era muito bom, tomei um banho e desci pra conversar com a galera. Encontrei um cara de Chicago que eu tinha conhecido em Paris e ele me falou que a boa era o "Pub Crawl" que existe em todas as cidades em que eu estive. A galera se encontra e vai pulando de pub em pub bebendo uma cerveja em cada um. So que em Amsterdam o negocio e tao intenso que quando deu a hora do Pub Crawl nem o proprio guia conseguia mais andar e o evento nao aconteceu. Conheci duas brasileiras e um brasileiro bem legais que tambem tinham acabado de se conhecer e rodamos um pouco na cidade vendo algumas das "vitrines" de Amsterdam: as janelas do Red Light District, onde as prostitutas se exibem. Como o negocio e ponto turistico, voce ve todo tipo de gente passando pelas vitrines. Casais com criancas, senhoras de idade e seres de genero indecifravel. Todo mundo passa rindo e apontando e e uma grande farra. Mas e importante falar que se voce tentar tirar fotos, sera alvo de projeteis de copos plasticos com urina dentro. Claro que eu tinha que tirar foto mais uma vez, mas dessa vez nao saiu legal. Eu aprendi uma coisa muito legal a respeito de Amsterdam. De acordo com nosso guia, eles tem um conceito chamado "plausible deniability" que diz que caso a atividade que voce esteja fazendo nao faca mal a ninguem (a nao ser vc mesmo), seja discreta e gere beneficio economico para a cidade que governa as leis aqui. Por isso, o pessoal libera de algumas drogas aqui, mas voce nao vai encontrar nenhuma loja de droga. Aqui voce tem lojinhas de cafe que vendem livremente e as pessoas sao livres pra consumir seus produtos dentro dessas lojas. Mas ninguem pode fumar cigarro comum nessas lojas porque e ilegal segundo a lei europeia. E por incrivel que pareca, eles levam isso extremamente a serio.
O dia seguinte amanheceu com tempo bem melhor e aproveitei pra ver tudo que queria em Amsterdam. Vi o museu do Van Gogh que foi uma boa porcaria e so serviu pra provar o quanto estou de saco cheio de arte, a casa da Anna Frank que foi a menina que escreveu um diario nos dois anos em que ficou escondida dos nazistas numa casa falsa em Amsterdam e por final a "igreja" mais importante da Europa, a Fabrica da Heineken. Foi incrivel! Eles tinham um simulador que leva o visitante a percorrer todo o caminho que a cerveja percorre desde o grao ate a mesa do consumidor. Conheci tres "mochileiras" paulistanas que levam o conceito de mochileiro sofisticado ao extremo. Uma delas tinha uma mochila so de cremes e a outra tinha uma bolsa so de botas e sapatos de frio que ela comprou so pra viagem. Elas nao podiam ver uma vitrine que o olho brilhava. Logo me despedi de minhas novas amigas "mochileiras" e segui pra estacao de trem pra pegar meu trem para Bruges que e a minha proxima parada.

Diario de Bordo III: Paris e 10, Barcelona e 1000!! (31/10/2009)






Entao eu chego em Barcelona. Fiquei num hostal indicado pelo meu novo amigo argentino que aparentemente tinha otima localizacao.O hostel era um pouco pior do que o de Madri, muito mais pelas pessoas que estavam no meu quarto do que pelo lugar em si. Diferente do hostel de Madri, nao consegui vaga num quarto com menos camas e fiquei num quarto de oito camas. De cara, me assustou a bagunca que umas tres australianas fizeram com tudo espalhado no chao. No meu quarto ainda tinha um chines, um coreano e duas brasileiras. Uma delas chegou no meio da noite e fez um barulho do cacete. Sem duvida o que mais me surpreendeu em Barcelona nao foi nenhum dos monumentos, parques, museus ou igrejas e sim a capacidade de um coreano de 1,60m molhar ate o teto do banheiro quando tomava banho. No segundo dia, ele deixou uma poca no meio do quarto de agua que escorreu do banheiro pro quarto porque o ralo nao deu vazao(!).
De cara cheguei e fui dar uma volta na La Rambla pra ver a cidade e realmente fiquei surpreso, nao so com a beleza, mas com o clima, a simpatia das pessoas e principalmente pela possibilidade de testemunhar jovens empreendedores de rua tendo sucesso. Madri e Sao Paulo, Barcelona e Rio de Janeiro. Voce ve camelos na rua, a 'guarda municipal' perseguindo os caras, diversos caras vendendo drogas na rua e, principalmente, se voce parar por cinco minutos ve todos os 'jovens empreendedores' que eu falei utilizando uma 'estrategia de negocios' muito interessante. Um deles fica com um brinquedinho que joga pra cima no meio da La Rambla e o brinquedinho tem um helice que faz ele ir descendo devagarzinho. Nesse momento, todos os gringos que estao passando olham pra cima e ficam vendo o negocio descer devagarzinho enquanto um outro rapaz passa esbarrando e levando a carteira de todo mundo que da mole. Matou um pouco minhas saudades do Rio.
Em Barcelona, eu cheguei em cismei que ia comer uma boa paella. Entrei num restaurantezinho que pareceu legal e pedi uma paella valenciana. Entao, o garcom italiano muito simpatico perguntou se eu nao queria uma tapa de entrada e eu falei que sim, ele ofereceu o presunto e eu concordei novamente. O presunto estava realmente muito bom, mas tao bom que eu quase pedi mais, mas imaginei que ja seria o suficiente porque na paella vem coisa pra cacete. Veio a paella e estava maravilhosa. Pedi a conta e nao consegui entender como a paella custava 15 euros e outra coisa havia custado muito mais. Pedi que o rapaz me explicasse e ele entao me explicou que me serviu o melhor presunto da casa. Eles tinham presunto de cinco, de oito, de quinze, mas, obviamente, ele me serviu o presunto que custava 22 euros por uma porcao ridicula. Primeiro foi um choque, mas depois pensei que tinha sido realmente muito bom e talvez eu estivesse precisando de algo assim pra me libertar da minha pao durice, afinal o presunto so faltava mugir. Paguei e fui dar uma volta experimentando uma sensacao de liberdade inedita na minha vida... que durou mais ou menos uns 30 minutos. Demorei pra dormir pensando na cagada que era pagar mais de 50 reais numa porcaozinha de presunto. Acordei no meio da noite com pesadelos de um presunto espanhol roubando minha carteira. Se pelo menos o cara tivesse servido o presunto de oito euros. O tempo passava e so um assunto povoava meu pensamento: 'Italiano filho da p...'.
Mas Barcelona e mesmo incrivel. Acordei e fui no museu do famoso pintor, escultor, ceramista que possui o nome com maior potencial para trocadilhos da historia da arte, Pablo Picasso. Eu que achava os trabalhos dele uma porcaria antes, comecei a entender. O cara desenhava pra caramba, mas seguiu para uma linha de trabalho diferente revolucionando a arte moderna. Em seguida, visitei a Igreja da Sagrada Familia, uma obra de Gaudi que comecou a ser construida em 1890 e so acabara em 2030. Nao da pra descrever a grandiosidade do projeto com palavras. O parque Guell tambem e muito bonito e e onde Gaudi morava. Vale a visita.
Guardei pra tarde o paseio mais importante de Barcelona: a visita ao Camp Nou, estadio do Barcelona. Mas como era muito menos organizado do que o do Real Madri, fiquei um pouco decepcionado.
Na volta pro hostel, vi uma camisa que era a cara de uma pessoa que eu conheco e entrei na loja pra ver quanto custava. A loja era de um indiano. Os indianos adoram ficar negociando e se voce ficar la com cara de que nao vai levar, ele vai baixando o preco ate voce comprar. A camisa custava 15 euros, mas por 25 euros eu levei tres camisas, sendo que uma do Brasil do ano passado e outra do Arsenal de 2007, as duas oficiais.
Tinha ouvido falar de um show de aguas na Font Monjuic, toda sexta a noite. Como eu tava de bobeira, dei uma passada pra ver um pouquinho. E essa foi, ate agora, a surpresa da viagem. Foi increditavel. Se alguem for visitar Barcelona, faca questao de estar la na sexta e ir na Font Montjuic as 20h. O lugar e maravilhoso e eles botaram varias musicas legais e sincronizaram o som com um show de movimentos das aguas e luzes coloridas. Muito maneiro mesmo. Na volta pra me 'punir' um pouco por nao ter perguntado o preco na noite anterior eu me obriguei a comer um lugar mais barato, o que me leva a outra recomendacao pra quem visitar Barcelona: nao pecam paella num restaurante chines. Eu sei que a maioria das pessoas nao sao idiotas o suficiente pra fazer isso, mas enfim vale a lembranca. Nisso, estava eu desfrutando uma paella que mais parecia um amontoado de isopor amarelo quando encontrei com um amigo do meu irmao passeando na La Rambla. Sacanagem nao, o mundo e um ovo mesmo! Eles acabaram seguindo pra noitada e eu voltei pro albergue pra dormir e me preparar pro meu ultimo dia de Espanha.
Meu ultimo dia de Espanha foi bem tranquilo. Tirei o dia pra ir a lugares como o Museu de Arte Catala, o Poble Espanyol e a Fundacao Joan Miro. O primeiro foi bom, o segundo foi otimo e o terceiro uma bosta. Nao entendo como alguem pode admirar um troco daqueles. Eu sigo um conceito simples de arte: se eu sou capaz de fazer nao pode ser arte. E simples assim. Foi sem duvida o pior programa da viagem ate agora. Foram os nove euros mais jogados fora da viagem. E melhor perder dinheiro do que ir numa porcaria dessas. O dia foi muito cansativo e estava muito calor, mas tudo bem. Eu embarcaria do aeroporto de Girona e tinha uma estacao chamada Girona, duas estacoes do metro depois de onde eu estava. Show de bola, mas resolvi perguntar pro cara do hostel quanto tempo eu levaria ate o aeroporto de Girona e ele falou que algo como uma hora e meia para depois me explicar que esse aeroporto era em outra cidade, essa sim a verdadeira Girona. A boa noticia e que se eu corresse ainda conseguiria pegar o voo. Corri pra cacete e consegui pegar o voo. Cheguei 3 minutos antes de fecharem o balcao e 33 minutos antes do voo sair. A vantagem de viajar com as empresas aereas de baixa tarifa aqui na Europa e que elas sao muito mais baratas que os trens e mais rapidas, mas a desvantagem e que elas costumam usar aeroportos alternativos muito distantes das cidades principais. Para vir de Barcelona para Paris, gastei 2 h 30 min e 25 euros de onibus porque o aeroporto da Ryanair em Paris tambem fica a 1 h 30 min da cidade. Mas de qualquer forma, quando eu cheguei em Paris e vi de longe a Torre Eiffel foi realmente emocionante. Aquele momento tinha um siginificado especial porque ha exatamente um mes eu tinha decidido viajar. E enquanto todos dormiam no onibus eu estava viajando nos meus pensamentos, aproveitando a chance de realizar um sonho que nao tinha nada de impossivel, mas que era impensavel para mim ate pouco mais de um mes atras.
Paris foi muito tranquilo ate o onibus encostar, mas ja comecou a complicar quando eu tive que pegar o metro. Nada e facil aqui. Comprar o bilhete de metro aqui e um suplicio, mas com a ajuda de uma menina que estava passando consegui faze-lo. Cheguei na estacao onde eu deveria saltar e nao fazia ideia de como chegaria no hostel ate que ouvi alguem dizer 'Ba, Tche!' passando perto de mim. Ja virei perguntando se eram brasileiros e descobri que por acaso eles estavam no mesmo hostel que eu. Esse albergue e simplesmente sensacional. E sem duvida o melhor que eu ja vi. Os caras tem bar e boate dentro do hostel. Tomei um banho e desci pra tomar uma cerveja com os dois caras do sul. No dia seguinte, eu e os caras do sul estavamos nos preparando pra fazer o tour gratuito do hostel quando passou mais uma brasileira e se juntou a nos. O tour gratuito e muito legal, a guia mostra os principais pontos turisticos da cidade e depois quem quiser da um trocado como gorjeta. Foi muito legal. Apos o tour, subi no arco do triunfo e dei uma rodada na Champs Elysee. Muito maneiro. No dia seguinte, fui a Notre Dame, Sacre Coeur e Torre Eiffel. Notre Dame e Sacre Coeur sao mais igrejas e o saco de igreja ja ta cheio. A Torre Eiffel e realmente incrivel e o mais incrivel e estar la em cima e sentir a torre balancar com o vento. A visao do topo e incrivel e como consegui subir numa hora boa, vi o por do sol la de cima. Esse e um daqueles momentos na vida em que voce fica maravilhado e quando vai entender o que realmente aconteceu, ja acabou. Paris e incrivel. Nao tenho palavras pra descrever. E engracado como o frances de Paris e tao vaidoso quanto o espanhol de Madri, mas numa forma diferente. O espanhol e vaidoso, mas de uma forma mais descolada e atual, enquanto que o frances e vaidoso, mas de uma forma mais classica e convencional. E o frances nao se contenta em se vestir bem para ele alem disso eles fazem questao de te olhar de cima a baixo com um olhar que diz 'Voce nao esta bem vestido', que foi rebatido todas as vezes com um olhar que sutilmente dizia 'Voce fede!'. E como fedem. Aqui todo mundo se arruma todo e ai entra no metro que e aquecido so que nao vao ficar tirando e colocando toda aquela roupa e ai e que comeca aquela catinga de cachorro molhado pra tudo que e lado. Quem quiser uma dica sobre Paris, eu dou a principal, nao sente no metro. De pe voce consegue respirar o ar um pouco mais fresco. Acho que vale a pena mencionar que nao faz muito tempo que o presidente da Franca foi a televisao pedir que todos tomassem pelo menos um banho por semana.
Tem umas coisas de albergue que sao realmente curiosas. A maioria das vezes, vc esta num quarto com cinco pessoas e no dia seguinte no mesmo quarto com cinco pessoas totalmente diferentes. Entao, eu cheguei num quarto com cinco caras tranquilos e no dia seguinte abri a porta para ver a Cher e a Tina Turner no meu quarto. Eu confesso que demorei pra descobrir se eram homens ou mulheres. No outro dia, estava deitado e chegou um cara da Suecia muito gente boa que trabalha pra ONU. Ele esteve no Iraque e perdeu a mao num ataque a bomba no hospital que trabalhava em Bagda. Isso porque o cara so tem 25 anos, mas ja trabalhou na Jordania, Afeganistao e Iraque. Comecamos a bater papo entrou mais gente e acabamos todos no bar do hostel tomando cerveja de pijama. Muito melhor que qualquer hotel que eu ja fiquei na minha vida. Depois de viajar assim vai ser muito dificil voltar a ir pros tradicionais e chatos hoteis e pousadas. A parte ruim e passar pelo que eu passei em Madri em que uma gordinha alema maluca abriu a janela do quarto pra arejar as seis horas da manha. Acordei batendo queixo de labio roxo com um frio do cacete gritando em portugues que estava muito frio, que eu era do Rio e tudo que ela conseguia responder e que era de Dusseldorf. Ou o caso do coreano que e um Sao Bernardo no banho. Aqui em Paris, eu cheguei um dia no quarto e estava um cheiro horrivel e tinha um corpo numa cama todo coberto com um lencol branco. Achei que tinham matado alguem quando de repente me pula de debaixo um indiano gripado com conjuntivite. Foi um susto do cacete! Mas enfim deixa eu me arrumar pra ir pra Londres. Au revoir.

Diario de Bordo II: Thiago na Champions League (22/10/2009)





O Couch Surfing(CS) e uma rede de relacionamentos que permite a quem quiser entrar em contato com pessoas do local em que pretendem visitar para ficar na casa delas. E um pouco estranho no primeiro momento, mas assim como outras redes de relacionamento , as pessoas sao graduadas por quem elas conhecem e relatam as experiencias com seus hospedes. Um dos poucos lugares que eu tinha certeza que iria era pra Granada, entao procurei alguem do Couch Surfing em Granada. Encontrei o perfil do Jose, um mexicano que mora ha quatro anos em Granada. Jose e um estudante de Granada, mas nao qualquer estudante, eles esta finalizando um Phd em Psicologia fazendo um paralelo sobre a incidencia de transtornos de personalidade em alguns paises da America Latina e Espanha Muito interessante.
Granada foi a ultima cidade mantida pelos mouros antes de serem expulsos da Espanha. E incrivel como a influencia deles esta em todo canto. O complexo da Alhambra e um dos lugares mais incriveis e bonitos que eu ja visitei. O Mirador tambem da uma perspective incrivel da Alhambra especialmente a noite.La voce pode sair de um castelo mouro antiquissimo e, apos alguns passos, entrar num castelo medieval bem a frente. Acordei de manha cedo e vendo a Alhambra de uma praca proxima a catedral escolhi a rua que parecia fazer uma reta ate ela e comecei a caminhada sem olhar o mapa pra nao tirar a mao do bolso, por causa do frio. Logo em seguida a rua desviou eu acabei andando uns tres quilometros a mais do que o necessario. Dentro da Alhambra temos os Castelos Nazaries que cada pessoa tem 30 minutos pra visitar. Enquanto eu estava na fila, um cara proibiu um senhor e uma senhora de entrar porque eles se atrasaram. Eu, inconscientemente e inocentemente, fiz um leve comentario em portugues e, ai vem a parte ruim de fazer turismo na Espanha, eles entendem um pouco de portugues. Eu dei uma virada na cara pro lado e meio que dei uma cantarolada e ao que tudo indica ou ele deixou barato, ou acreditou qu existe uma musica com os versos 'Mas que filho da p...'. O lugar foi infestado por uma praga do turismo mundial: os japoneses! Todos filmando e fotografando ou fazendo as duas coisas ao mesmo tempo. Eu nunca vi ninguem que assitisse mais de uma vez video de viagem. Video e um saco. Mesmo os videos de casamento acabam se tornando uma oportunidade de fazer graca do tio que ainda tinha cabelo ou de quem ainda nao tinha barriga.
Segui depois pra catedral de Granada onde temos o tumulo da rainha Isabel e do rei Fernando. Visitei mais alguns monumentos e fui encontrar com Jose que me apresentou a novos pontos altos da viagem: Vino de Malaga e cha marroquino. Por dois euros um marroquino escreveu meu nome em arabe que e um idioma muito bonito visualmente, so que tem um leve problema: eu nao sei qual lado que fica pra cima. Depois eu fiquei meio com a sensacao que esse negocio de nome em arabe e que nem aqueles bonequinhos de retirante que vendem no nordeste, todo mundo compra, mas nao fica bem em lugar nenhum da casa. Ainda tive a sorte de achar um lugarzinho que vendia uns alfajores sensacionais chocolate por fora, doce de leite por dentro. Acabei comendo uns cinco. Estava tocando Michael Jackson na loja de doces assim como nos bares, no onibus e em todos os lugares na Espanha. O rapaz da loja de doces falou que depois que ele morreu o pessoal na Espanha voltou a curtir muito. Aposto que se ele soubesse que ia fazer tanto sucesso depois de morto, ja teria dado um jeito de morrer ha muito tempo.
No dia seguinte, tinha que seguir pra Madri. Quando voce tem dois metros aprende a observar as pessoas esperando no onibus ou no aviao pra ver as chances de alguem muito grande ou gordo sentar ao seu lado. So vi gente pequena e fiquei satisfeito, mas como era de se esperar o unico gordo no onibus tinha comprado a passagem para viajar do meu lado. E incrivel que em alguns pontos ao lado da estrada vemos sitios arqueologicos romanos sendo escavados enquanto passamos. A estacao de onibus e muito confusa e integrada. Como eu nao conseguia achar o metro comecei a me comunicar num portunhol cheio de gestos com as pessoas o que me ensinou uma coisa muito importante sobre a natureza humana: fome, sede ou dor de barriga fazem com que qualquer ser humano seja capaz de se comunicar em qualquer idioma com qualquer outra pessoa no mundo. Junte um pouco dos tres e foi isso que me deu forcas pra chegar no local em que ficava o albergue em poucos minutos. Ficava por que nao fica mais. O meu livro estava desatualizado, pois eles tinham mudado fazia duas semanas. Pra melhorar quando liguei do meu celular da Espanha so descobri que o albergue tinha mudado de lugar e acabou o credito, rodei um bocado e encontrei um telefone publico que me permitiu pegar o endereco e achar o lugar.
Confesso que esperava mais de Madri. Descobri os bocadillos de jamon que sao sanduiches de presunto que vendem em todo canto aqui. O presunto e muito bom e eu ja comi uns quatro hoje. Rodei um pouco na cidade e fui encontrar um amigo que malhava na Pro Forma e se mudou pra Madri faz tres anos. Segundo ele, um dos pontos altos da Espanha se exemplifica na seguinte situacao: se um rapaz de classe media no Brasil comeca a namorar uma menina que trabalha de gari, no minimo esperamos comentarios como 'Que isso, meu filho? Vc estudou.', enquanto que aqui e so mais uma profissao como qualquer outra.
Conheci um chines (Jason) e um argentino (Martin) muito gente boa no Hostel. O argentino tambem estava sozinho e assim como eu tinha uma prioridade em Madri: visitar ao Estadio do Real Madri. O irmao do Martin mora no Brasil e ele fala bem portugues, mas se limitava a dois comentarios 'Que lindo!' pra tudo de bom que acontecia e 'Que loco!' pra tudo de ruim.
No dia seguinte, fomos cedo ao estadio Santiago Bernabeu e o que achavamos que seria um passeio de 40 minutos se estendeu por quase quatro horas. Testemunhei diversas grosserias de segurancas do estadio com diversos senhores e senhoras e fiquei com uma impressao pessima do povo de Madri. A visita foi um show e descobrimos que, no dia seguinte, haveria uma pelada no estadio, um tal de Milan ia a Madri pra jogar pela Champions League. Esse dois clubes sao os que mais ganharam essa competicao, a mais importante competicao de clubes do mundo e juntos detem 16 titulos. Como a bilheteria so abria a tarde, fui almocar com meu novo amigo argentino (nao sei porque, mas amigo e argentino na mesma frase nao combinam...) que e outro pao duro de marca maior e me levou num lugar de kebab. Eu, com minha capacidade criativa inigualavel, criei ate um tema pra campanha publicitaria do restaurante: 'Kebab, porque a fome e o melhor tempero!'.
Infelizmente depois imaginei que,como levamos dez minutos de metro ate o Santiago Bernabeu, conseguiria refazer o caminho a pe pra comprar o ingresso e ate consegui, so que o estadio ficava a dez quilometros de onde eu estava e estava chuviscando. Cheguei todo molhado e cansado. Pra minha surpresa ainda tinha ingresso. Em seguida, fui ao Museu do Prado que e simplesmente deslumbrante. Eu nunca tinha visto nada igual. Na volta ja dava pra sentir o clima do jogo em Madri. Estava cheio de gente com camisa dos dois times e os italianos se faziam notar pela algazarra que faziam em todo canto. A cidade tambem foi invadida por brasileiros que estavam de passagem e resolveram assistir o jogo.
Comprei uma camisa do Real Madri pra usar no jogo, um modelo azul muito bonito. So depois que eu me liguei que a camisa azul nao ia ficar legal com meu casaco verde.
No dia seguinte fui no Palacio Real que e muito bonito e fiquei na concentracao pro jogo. Chegando no jogo, subi uns noventa lances de escada pra chegar ao meu lugar. Tava um frio do cacete, ai foram ligados aquecedores pra parte superior da arquibancada, tudo muito legal. Nisso, nao e que me chega um cara e senta da cadeira do meu lado, tira o casaco e esta usando por baixo uma camisa com os dizeres: 'O Vasco nao pode parar.' .Me mijei de rir! Ele se chamava Mario e estava com a noiva de ferias na Espanha. FIcamos comentando sobre a baixa qualidade tecnica do jogo que foi um lixo. Fazia tempo que eu nao via um jogo ruim assim e olha que eu torco pro Botafogo... A vitoria do Milan foi decepionante pros fas do Real, mas foi muito legal ver os torcedores lado a lado.
Passei por uma confusao digna de Maracana pra pegar o metro de volta pro hostel e aconteceu uma coisa muito interessante. Tava todo mundo esperando fazia uns cinco minutos pra reabrirem a estacao porque estava cheio pra cacete, ai eu que nao queria tirar o casaco porque estava com a camisa do Real Madri no meio da torcida do Milan fiquei meio de saco cheio e mandei um 'Vambora, mermao' e um dos caras do Milan que estava do meu lado gritou 'Avante Milan' e ai comecaram a cantar, gritar e pular. Senti como se tivesse comecado a baderna. Ai comecou um empurra, empurra do cacete e eles deixaram todo mundo passar. Levou duas horas pra fazer o percurso que eu havia feito em quinze minutos na ida.
No dia seguinte acordei pra chegar na estacao de trem as 10h so que o trem das 10:30 ja estava lotado e o de 12:30 tambem, o que me obrigou a ficar 4h esperando o trem seguinte. Pra fazer hora, fui tomar um cafezinho e depois de mais uma grosseria de uma das atendentes com um cliente, percebi que uma outra moca tambem tinha ficado com uma cara de susto enquanto que as outras pessoas continuaram como se nada tivesse acontecido. Eu virei pra ela e perguntei se ela era espanhola e ela riu e falou que era colombiana. Ela estava tentando comprar uma passagem para ela ir com o marido e o filho que estavam no hotel pra Barcelona, mas ficou assustada com as coisas que viu que nem eu. Ela morou dez anos em Nova York e largou tudo pra ser fotografa que era o sonho dela e agora trabalha com o marido que e reporter esportivo, o emprego dos sonhos de qualquer garoto.
Agora estou escrevendo de dentro do trem no caminho pra Barcelona a 300km por hora. Deixa eu ir la que eu quero tirar um cochilo...