Wednesday, July 21, 2010

Diario de Bordo XXVII: Nepal, a caminho do ceu.






Nada como cruzar a fronteira entre India e Nepal. Para comecar a
bagunca e tamanha que eu passei a fronteira sem visto nem nada so para
ver se alguem ia falar alguma coisa e nada. Entao eu voltei, peguei o
carimbo dos detestaveis guardas da fronteira indiana e tive a
satisfacao de bater um papo com os dois senhores que estavam tomando
conta da fronteira no lado nepales. Eles foram super agradaveis e
simpaticos e batemos um papo sobre Copa do Mundo e futebol. No Nepal,
futebol e muito mais famoso que o cricket, o que ja e um bom comeco.
Depois de um bom papo, decidi que iria a Lumbini que fica a trinta
minutos da fronteira ao inves de encarar mais sete a oito horas de
onibus ate Kathmandu ou Pokhara. Em Lumbini, me hospedei no monasterio
coreano que alem de um lugar para dormir fornece cafe, almoco e janta.
Sensacional para o preco se o cafe, almoco e janta nao fossem o mesmo
menu: dalbat. Dalbat e o prato tradicional do Nepal e e nada menos do
que arroz com lentilha. Apos duas refeicoes eu nao conseguia mais
olhar para dalbat, mas de nada adiantava porque Lumbini e uma cidade
muito pequena e a unica alternativa que eu achei foi chowmein que nao
e nada demais, mas pelo menos serve para variar um pouco o cardapio.
Eu esperava que Lumbini fosse um pouco como Bodhgaya, mas nao chegou
nem perto. O parque esta em construcao e o que ha de construido esta
em pessimo estado de conservacao. Se eu nao estivesse tao cansado,
teria ido para Kathmandu no dia seguinte, mas estava sem condicoes.
Acordei no dia seguinte e perdi o cafe da manha, o que nao era nada de
ruim, pois depois de almoco e janta nao dava mais para ver dalbat. Sai
para caminhar pelo parque e para ver o local de nascimento do budha
que ficava bem proximo do templo onde eu estava. No caminho, decidi
sentar para tomar um cha e conheci Andrea, uma americana da California
que foi a unica pessoa nao oriental que conheci em Lumbini. Ela estava
la para fazer o curso de meditacao vipassana. Sao dez dias sem falar,
o que no meu entender inviabiliza o curso para todas as mulheres do
mundo. Dez dias sem falar? Sai fora...
Enfim, rodamos pela cidade de Lumbini e vimos o local de nascimento do
budha, o pilar comemorativo construido pelo imperador Ashoka proximo
do local, enfim, mas nada que impressionasse. Ainda caminhamos pela
cidade, nos entupimos de manga e no fim mais uma refeicao de dalbat
para dormir cedo e seguir para Kathmandu no dia seguinte.
No templo coreano, havia uma holandesa chamada Helga que tambem estava
seguindo para Kathmandu no dia seguinte. Helga, assim como dezenas de
holandeses estao fazendo trabalho voluntario no Nepal. No caminho, ela
me deu varias dicas e ainda me recomendou um lugar para ficar bom,
bonito e barato. Ainda me recomendou uma agencia de turismo para
organizar qualquer tipo de passeio no Nepal. Aproveitei que a Copa do
Mundo estava rolando para assistir um pouco dos jogos e fui no dia
seguinte conhecer o tal cara que a Helga me recomendou. Para minha
surpresa, Nil Hari, o dono da empresa de turismo foi super gente boa e
me ajudou a matar dois coelhos com uma porrada so. Claro que estando
no Nepal eu teria que dar um passeio pelos Himalaias, mas apos tentar
duas vezes, parecia que seria possivel ir pro Tibet via Nepal. So que
ficaria muito caro. Entao Nil Hari me propos fazer um passeio basico
pela regiao do Anapurna, ver algumas das montanhas por conta propria o
que faria o passeio muito mais barato e seguir para o Tibet com a
ajuda dele.
Entao fiquei mais dois dias em Kathmandu e aproveitei no primeiro dia
para ver o Monkey Temple, o templo dos macacos, e o jogo do Brasil
contra a Coreia do Norte que foi uma piada. No segundo dia, fui
resolver os detalhes das permissoes que sao necessarias para entrar na
area de protecao dos Himalaias e, em seguida, peguei o onibus para
visitar uma area chamada Boudha que e famosa pela presenca massiva de
tibetanos e do budismo tibetano em Kathmandu. No onibus, conheci um
rapaz chamado Bishnu e pude ver a diferenca gritante entre Nepal e
India. Na India, todo mundo tentava tirar dinheiro de tudo que e
turista enquanto Bishnu estava satisfeito em fazer um novo amigo.
Nepal 10, India 0.
Novo dia, dia de seguir para Pokhara e ver os Himalaias.
Inacreditaveis sete horas e meia para percorrer algo em torno de 250
km. Por causa das montanhas, as estradas sao pessimas e super
perigosas. Cheguei, me alojei e me preparei para o dia seguinte seguir
para as montanhas. Por estar fora de temporada e por nao ter conhecido
ninguem em Kathmandu que tivesse planos similares aos meus, me
preparei para seguir sozinho. O plano era seguir uma rota simples que
deveria levar entre cinco e seis noites e fazer em no maximo quatro,
pois afinal estavamos no meio da Copa do Mundo. Acordei cedo e fui
pegar o onibus que deveria me levar ate Nayapul que e o local de
inicio da trilha. Claro que o onibus estava abarrotado e eu nao
conseguia entrar e acabei tendo uma experiencia que poucos
estrangeiros tem o "privilegio" de vivenciar. Eu, mais dez nepaleses e
duas cabras fomos no topo do onibus. Era um daqueles onibus que de vez
em quando vemos fotos na internet abarrotado de gente e bicho com
gente pendurada para tudo que e lado. No inicio, o cobrador nao me
deixou ir no teto, mas ai conheci mais um nepales chamado Karma gente
boa que e do exercito nepales e falou que nao tinha problema nenhum e
tudo se resolveu. Chegando em Nayapul comecou minha jornada. Eu estava
me planejando para ir sozinho, mas o comeco ja estava meio chato, foi
ai que depois de algumas horas de caminhada alcancei duas lituanas
perdidas no meio do caminho que estavam planejando seguir o mesmo
itinerario que eu so que em mais alguns dias. Depois de conversarmos
um pouco, decidimos unir forcas para seguir em frente, eu porque nao
queria seguir sozinho e elas porque nao tinham um plano exato e
estavam um pouco perdidas. Ruta e Audra, estavam viajando juntas ha
mais ou menos cinco meses e chegaram no Nepal via Tibet, caminho
oposto do que eu pretendia fazer. Mais incrivel do que todos os
lugares pelo que passamos juntos, foi ver as condicoes em que o povo
das montanhas vive no Nepal. Em quatro dias que passamos nas
montanhas, nada de estradas e somente um posto medico.
No segundo dia, chegamos a Ghorepani, o vilarejo de acesso a Poon
Hill, ponto mais alto pelo qual passariamos com 3200 m de altitude e
local perfeito para observar a regiao do Anapurna e algumas das
montanhas mais altas do mundo. Essa epoca do ano e offseason porque e
epoca de monsao e chove grande parte do tempo. Logo ficamos sabendo
que Poon Hill estava nublado fazia duas semanas a maior parte do
tempo. Durante a noite, caiu uma tempestade daquelas e pensavamos que
nao veriamos nada quando chegassemos em Poon Hill que ficava a
quarenta e cinco minutos de caminhada de Ghorepani. Acordamos de manha
e estava chovendo, tomamos cafe e comecamos a subida. A chegada no
topo foi sublime. O ceu estava claro o suficiente para que pudessemos
ver todos os picos e a danca das nuvens que estavam proximas faziam da
vista ainda mais espetacular. Passamos umas duas horas em Poon Hill,
tempo suficiente para que pudessemos ver tudo o que queriamos e para o
tempo ficar completamente nublado novamente como havia ficado nas
ultimas semanas. Foi muita sorte. Apos vermos Poon Hill, voltamos a
Ghorepani, pegamos nossas mochilas tomamos cafe da manha e nos
preparamos para voltar. Ainda passamos uma noite em Tadapani e ate
atingirmos Nayapul novamente e voltarmos para Pokhara.
Na volta a civilizacao, comemorei a chegada em Pokhara comendo um
churrasco coreano sensacional. Passamos mais um dia em Pokhara. De la,
minhas amigas lituanas foram para um safari pelo Chitwan National Park
e eu me encaminhei para Kathmandu para assistir um pouco da Copa e
organizar os detalhes da minha viagem para o Tibet.
Mais uma longa viagem que demorou ainda mais porque ao chegar em
Kathmandu pegamos duas horas de transito dentro da cidade. Voltei para
a mesma guesthouse e assiti um pouco da Copa ate minhas amigas
lituanas chegarem na cidade. No dia em que elas chegaram conheci mais
uma holandesa chamada Eline que tambem estava viajando pela Asia.
Andamos bastante por Kathmandu e visitamos a famosa Durbar Square e,
claro, assistir a todos os jogos possiveis da Copa do Mundo. E apos
tres meses e duas tentativas frustradas, eu finalmente me preparava
para ir a um dos destinos mais complicados e sagrados do mundo: Tibet,
o teto do mundo.

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