

De todos os meus equivocos desde o inicio da minha viagem, nada se compara a escolha dos ultimos dois destinos. Da Coreia do Sul para a India e sair do pais mais civilizado, organizado e agradavel que eu visitei ate o momento para o exato oposto. Claro que eu sabia que nao poderia esperar muito da India, mas eu esperava algo nao muito diferente do Brasil (nao sei porque...). A verdade e que uma das melhores coisas que aprendi ate agora e que o Brasil nao e o pior pais do mundo para se morar. Muito pelo contrario, e dificil juntar clima agradavel o ano todo, gente agradavel e bom futebol num unico lugar. Sem contar que e o pais de origem do mais grandioso clube de futebol do mundo, meu amado Botafogo.
A primeira hora e meia na India foi tranquila. Peguei minha mala e um onibus em direcao a area da cidade onde ficam os hoteis e guesthouses mais baratos. Do ponto de onibus peguei um riquixa e gracas a minha mais recente aquisicao, meu Lonely Planet India, me interei do meu primeiro trambique indiano. O riquixa para no caminho e um vagabundo sentado num canto da rua fala que e festival e que ele nao pode seguir em frente. A ideia e simples: o riquixa leva a vitima do golpe para o hotel que paga uma comissao para ele e para o vagabundo de plantao. Como eu tinha acabado de ler a respeito dessa situacao peguei minha mochila e comecei a sair do riquixa. O vagabundo comecou a me encostar e eu falei em alto e bom tom para ele parar duas vezes. Na terceira, eu me achei no direito de encostar de volta e encostei minha mao fechada no queixo do vagabundo que caiu que nem um saco de batata. Pra quem escuta, parece que eu dei um porradao no cara, mas nao foi nada disso, ate porque eu estava carregando minhas duas mochilas que pesam mais de vinte quilos. Abaixei e verifiquei que o vagabundo ainda estava respirando e segui em frente. Eu esperava ver vacas nas ruas, mas o que vi nos dois lados da rua eram vacas e pessoas dormindo nas calcadas por todos os lados. O unico lugar no qual se podia andar era no meio da rua. Comecei a andar e um monte de gente comecou a vir na minha direcao tentando me convencer a me hospedar na guesthouse onde eles trabalhavam. Ate que vi um cara que visivelmente nao era indiano e perguntei onde ele estava hospedado. O nome dele era Frederico e ele estava viajando pela India fazia mais de dois meses. Ele me levou para a guesthouse onde estava hospedado e me deu umas dicas sobre Delhi. Depois de todas as horas de voo e do comeco dificil, tudo que eu queria era dormir. Depois de uma longa noite de sono, acordei disposto a ver um pouco de Delhi. Delhi e uma cidade gigantesca e tem inumeros pontos turisticos interessantes para visitar. Acordei tomei meu cafe da manha e apos alguns passos nas ruas de Delhi comecou a amolacao. Os vagabundos comecam a aparecer de tudo que e lado e a fazer pergunta e a encher o saco tentando levar para a loja deles para empurrar tralha nos turistas. Inicialmente eu nao queria ser mau educado, mas chegou a um ponto em que depois de uma hora tentando me desvencilhar de todos os esquemas possiveis minha atitude mudou radicalmente. Se a pergunta era "Where are you from?" a resposta era "Why do you care?". Se eles me perguntavam porque eu estava sendo grosso, a resposta era porque eu posso. A situacao e tao desagradavel que eu nao conseguia andar dez metros sem ter que ser grosso com um indiano inconveniente. E quando eu parei para escutar era sempre a mesma historia com os indianos tentando me convencer de que eu deveria ir para Kashemira para um dos hoteis flutuantes que sao famosos por aprisionar turistas pelo tempo que bem entendem. Apos de ser abordado mais de trinta vezes eu virei pro proximo vagabundo e falei para ele que nao ia comprar nenhuma das porcarias, dos pacotes e de nada que ele queria me oferecer, mas que se ele parasse de tentar me enganar eu lhe daria algum dinheiro para que ele me mostrasse a cidade. Assim eu conheci Vijai, um dos pilantras de plantao em Delhi. O trato era simples e tudo que eu pedia era que nao me sacaneasse. Tudo comecou bem com ele me levando no Red Fort em Old Delhi, no Raj Ghat, local onde Mohandas Gandhi foi cremado, em um templo Sikh todo decorado com ouro e pedras preciosas e na Jama Majid, a maior mesquita da India. Apesar de impressionantes, todos os locais que visitei estavam extremamente sujos e nao possuiam quase que nenhuma semelhanca com as fotos que eu havia visto no livro. No final das contas, apos o almoco e todo a conversa que eu ja havia tido com o Vijai e pedido que ele nao me tirasse de otario, pedi que ele me levasse a alguma lugar para comprar minha passagem para Agra. Entao, ele dei uma de malandro e me levou num local onde o cara queria me cobrar cem dolares para ir ate Agra que fica a quatro horas de onibus de distancia de Delhi. O clima cordial acabou ali e eu pedi que ele me levasse de volta para a guesthouse na mesma hora. Enojado pela situacao ridicula pela qual eu havia acabado de passar e mais ainda pelas explicacoes ridiculas que meu guia insistia em me dar comprei por menos de dez dolares uma passagem para o mesmo destino para o dia seguinte. Na volta encontrei Frederico e conversamos um pouco. Delhi e sem duvida o pior inicio de viagem para quem visita a India. E a maior concentracao de vagabundos da face da terra. No final, acho que tomei a melhor decisao que era sair de Delhi antes de me aborrecer ainda mais.
Novo dia, nova dor de cabeca, duas horas de atraso para a saida do onibus que chegou em Agra tres horas atrasado. No onibus conheci uma menina da Latvia chamada Maria. Eu ate ja ouvi falar da Latvia, mas que eu nao faco ideia de onde fica. Apos meu pessimo primeiro contato com os indianos em Delhi, conheci alguns indianos muito legais no onibus. Em Delhi, a mistura de miseria e turismo nao podia dar em outra coisa, mas uma vez conhecendo as pessoas normais percebi que eles sao tao gente boa quanto as pessoas do resto do mundo (fora os parisienses!) que gostam de conversar com estrangeiros e falar sobre o que ha de melhor no seu pais.
A chegada em Agra foi tranquila. Dividi um riquixa com a Maria e procuramos por guesthouses juntos ate encontrarmos a que tinha a melhor vista do Taj Mahal do restaurante do terraco. Apos me alojar, passei algum tempo no restaurante do terraco apreciando a vista de uma dos monumentos mais belos que eu ja vi. Passei um bom tempo curtindo a vista e conversando com outras pessoas que estavam la pelo mesmo motivo. Sai para dar uma volta pela cidade. Nos arredores do Taj Mahal, um menino comecou a conversar comigo e me ofereceu uma das coisas mais dificeis de se encontrar na India: agua gelada. Devido aos cortes de luz diarios e a pessima qualidade dos freezers, agua gelada e um dos artigos mais cobicados e dificeis de encontrar. Assim conheci Salim, um menino que trabalhava no restaurante de um cara chamado Raj. O Raj tem diversos restaurantes, lojas e guesthouses pela India e sempre que comeca um negocio novo escolhe um menino da regiao para tomar conta para ele. Jantei com eles e, ao voltar para o hotel, fui abordado por um senhor que estava procurando um local para comer nos arredores da guesthouse onde eu estava. Eu o recomendei o restaurante da minha guesthouse e me juntei a ele para bater um papo enquanto ele esperava para comida e conheci Brent. Norte americano que apesar dos 68 anos ainda tem o espirito de backpacker e de vez em quando bota a mochila nas costas para viajar.
Novo dia, eu, Maria e Brent fomos juntos a Fathpur Sikri, uma pequena cidade nos arredores de Agra. La visitamos o forte e a mesquita que sao belissimos e gigantescos, mas a quantidade de criancas pedindo esmola e inacreditavel. E o pior e que nao se pode ajudar ninguem porque se voce da esmola para um, e uma enxurrada de gente que vem atras. Outra coisa que me chamou a atencao, tanto em Agra quanto em Fathpur Sikri foram os arredores dos monumentos. As areas ao redor dos monumentos sao extremamente pobres. Essa e uma das caracteristicas de Utar Pradesh, um dos estados centrais da India, a superpopulacao (Utar Pradesh se fosse um pais, seria o quinto mais populoso do mundo) e a pobreza. Na volta, o calor fez com que fosse impossivel ver qualquer outra coisa. Novo dia, hora de visitar o ponto alto da India, sem duvida, um dos monumentos mais bonitos de todo o mundo. O Taj Mahal custou tao caro ao seu idealizador que ele foi desposto e aprisionado por seu filho apos terminada a construcao do monumento ao tentar aumentar os impostos para repor o dinheiro do tesouro de seu reino. Sabe se la porque cargas d'agua todo mundo fala que a melhor hora de visitar o Taj e ao amanhecer. E la fomos nos as seis horas da manha. Na minha opiniao, na ha nenhuma possivel reclamacao a respeito do Taj. A beleza e a riqueza de detalhes sao inacreditaveis. E uma daquelas coisas na vida que a gente nao esquece. Foi um verdadeiro privilegio. Todas as historias a respeito do Taj e do Forte de Agra que foi meu programa do dia seguinte sao incriveis. No forte de Agra, eu ainda tive o privilegio de ter um menino da regiao como guia. Ele me contou tantas historias que eu acabei passando o dobro do tempo que esperava passar no forte.
Apos meus dias de Agra, me despedi de Brent, Maria, Raj e Salim e ja estava meio decepcionado com o fato de nao ter conhecido ninguem que estivesse indo na mesma direcao que eu para me acompanhar na minha viagem. E foi no momento em que eu estava esperando o trem de Agra para Khajuraho que conheci Elena e L'chelle que por acaso estavam indo na mesma direcao que eu. Ela tinham pre-agendado tudo e eu nada. Logo, elas estavam indo no trem com ar condicionado e eu no trem sem ar condicionado. So que na regiao onde eu estava nao estava quente... estava muito quente. A temperatura estava em torno de quarenta e cinco graus todos os dias. Eu que estava acostumado com os trens da China, da Russia e da Coreia descobri que na India o trem sempre atrasa e se cabem 100 pessoas no vagao, significa que eles vao ter pelo menos 300 dentro. Meu ticket era para o vagao S6 que nao ficava proximo ao S5. Pelo contrario, ficava do outro lado do trem. E entrei no S5 e nao consegui chegar no S6 atravessando o trem. Tive que passar quatro horas sentado no chao esperando o trem parar para eu achar meu vagao e descobrir que haviam seis pessoas na minha cama, sendo um deles um bebe de seis meses que eu nao tive coragem de pedir para sair. Resultado, acabei ficando acordado a maior parte da noite ate chegar em Khajuraho.
O trem chegou algumas horas atrasado e eu estava com tanta sede que na hora que comecaram a chegar os indianos oferecendo guesthouse eu virei pro primeiro e falei que se ele me arrumasse uma garrafa gelada eu me hospedaria com ele. E assim arrumei agua gelada e lugar pra ficar num golpe so. Acabei numa guesthouse chamada Green House a cinco minutos de caminhada dos principais templos da cidade. Ja Elena e L'chelle que haviam pre agendado tudo ficaram num hostel longe pra caramba.
Depois de umas duas horas vimos tudo que havia pra ser visto e ficamos um tanto decepcionados com os templos do kama sutra. Sentamos em um bar e arrumamos algo pra fazer no dia seguinte. Ir ate um rio nos arredores para dar uma refrescada que nao estava dando para aguentar o calor. Durante a noite, eu levantava chegava no banheiro e pegava o balde que eu deixava cheio de agua e entornava na minha cabeca e seguia pra cama sem enxugar nem nada. Essa tecnica dava uma refrescada, mas nao resolvia. A cada duas horas eu tinha que fazer a mesma coisa. Nunca passei tanto calor na minha vida.
Novo dia em Khajuraho, fomos de riquixa ate o rio da regiao que nao tinha nada de especial a nao ser o fato de que a agua nao estava fervendo como a das torneiras e chuveiros da regiao. A noite, pegamos o trem para Varanasi. Varanasi e a cidade sagrada onde os hindus sao queimados quando morrem as beiras do Rio Ganges. E uma das cidades mais antigas do mundo e dizem que o fogo eterno que queima a beira do Ganges esta aceso ha tres mil anos. As ruas e becos da cidade formam estreitos labirintos capazes de confundir qualquer turista. Na chegada na cidade, eu, L'chelle e Elena conhecemos Sarah, uma inglesa que planejava passar seis meses na India. Como L'chelle e Elena mais uma vez haviam pre-agendado tudo, foram parar num hotel longe para caramba da area de interesse turistico da cidade e eu e Sarah ficamos no centro da cidade. L'chelle teve que descansar pois nao estava aguentando o calor, mas Elena foi nos encontrar para caminharmos por Varanasi. Fomos ao crematorio da cidade e pudemos observar as pessoas entrando no rio e nadando no Ganges, na mesma agua em que as cinzas das pessoas que sao cremadas e todo o esgoto da cidade. Para piorar, em algumas situacoes, a religiao nao permite a cremacao. A solucao encontrada e amarrar o corpo numa pedra e despejar no meio do rio. Por isso, nao e incomum ver na margem oposta as cremacoes no rio alguns cadaveres flutuando.
Eu, Elena e Sarah fomos ver uma cerimonia que acontecia toda a noite no rio que nao foi nada demais. E combinamos de realizar no dia seguinte o passeio de barco pelo Ganges.
De manha cedo, fomos para o nosso passeio de barco que foi tao interessante quanto um passeio de barco por um rio extremamente poluido que milhoes de pessoas consideram sagrado pode ser. Ao terminar nosso passeio que foi um show de horrores em que vimos centenas de pessoas se banhando e ate bochechando a agua extremamente poluida do Ganges ja estava extremamente quente e nao eram nem nove horas da manha. Sentado num barzinho totalmente desolado estava um australiano chamado Justin. Ele nos contou que havia acabado de ser "assaltado". Nos aproximamos para ouvi-lo contar as circunstancias do assalto e ficamos sem entender exatamente o que havia acontecido. Aparentemente, um indiano de 1,60m virou para ele pediu uma "doacao de 100 rupias (que nao chega a ser US$2,50)" quando ele falou que nao tinha dinheiro o indiano falou que ele poderia machuca-lo pelo que ele nos contou. So que o Justin tem 1,90m e nao esbocou reacao. Uma situacao um tanto curiosa.
Apos essa historia pitoresca, fomos todos matar a saudade de comida de verdade e acabamos no meu querido e amado Pizza Hut. Apos acabar a refeicao, acredito que todos entendemos porque nao e comum para os indianos comer pizza. O calor fazia eu me sentir como se tivesse engolido uma das vacas que fica zanzando pela cidade viva. Apos a pizza fomos visitar uma das famosas fabricas de seda de Varanasi. A trabalheira para fazer um simples lenco e algo inimaginavel. Mas o calor estava muito intenso e a pizza estava dando sinal de vida e assim, encurtamos a visita e o dia acabou ali.
Ultimo dia em Varanasi, nada para fazer a nao ser esperar o dia seguinte para pegar o trem. Zanzamos pela cidade sem muito para fazer. A noite, Sarah pegou seu trem e no dia seguinte eu e Elena seguiriamos para Bodhgaya e L'chelle seguiria na direcao oposta. Como estava acabando tudo que a Elena havia pre-agendado ela acabou comigo no vagao sem ar-condicionado. Como estavamos pensando em conhecer mais ou menos os mesmos lugares, eu e Elena decidimos viajar juntos um pouco, especialmente porque ela estava com medo de viajar sozinha. Bodhgaya e relativamente proximo a Varanasi, entao por mais que atrasasse por horas o trem nao tirou nosso bom humor. Chegamos nos alojamos e fomos ver a cidade. Bodhgaya e a famosa cidade onde ha 2600 anos atras o principe Siddharta Gautama se tornou Buddha. O ponto central da cidade e o templo Mahabodi construido no seculo VI no mesmo local onde o imperador Ashoka ergueu um templo 800 anos antes. Ao lado do templo encontramos o local onde Buddha alcancou sua iluminacao. A cidade de Bodhgaya possui uma atmosfera um tanto unica. Diversos paises onde o budismo e praticado ergueram templos na cidade com caracteristicas dos templos de seus respectivos paises. E muito interessante ver os monges de diferentes nacionalidades se esbarrando pela cidade.
Novo dia, fomos a caverna onde Siddharta Gautama passou seis anos isolado antes de seguir para a cidade de Bodhgaya. Vimos a caverna, subimos a montanha e na hora do almoco ja estavamos de volta a Bodhgaya para ver os diferentes templos. As variacoes sao incriveis. O templo do Japao possui um visual extremamente sobrio com cores escuras e madeira, enquanto que o de Butao e o do Nepal sao extremamente coloridos e o tailandes e um espetaculo a parte bem no estilo dos templos tailandeses.
Mais um dia em Bodhgaya e andando pela cidade, encontramos um centro de meditacao mantido por um monge vietnamita na cidade e do topo do predio vimos um pequeno jardim proximo ao local. Quando fomos visitar o jardim, descobrimos uma pequena escola que faz parte de um projeto sensacional mantido por um senhor indiano, Murari, e um rapaz alemao, Michael. Inicialmente, ao entrarmos a convite do senhor Murari ficamos surpresos com a reacao das criancas que correram para apertar nossas maos e eu ate comentei com a Elena o quanto eu havia achado aquilo incomum, mas depois de nos explicarem o ideal por tras do projeto compreendemos na hora o que havia acontecido. Bowl of Compassion e o principio que eles seguem e de dar educacao e alimentar as criancas da casta dos intocaveis que vivem na regiao. Aquelas criancas nao teriam oportunidade e estariam condenadas a miseria extrema pelo sistema de castas nao fosse por essa iniciativa. Acho que se for possivel vale a pena dar uma checada na internet. O projeto tem menos de seis meses e ja cuida de sessenta criancas, alem de alimentar pessoas miseraveis da regiao.
Ultimo dia em Bodhgaya, fomos mais uma vez ao Bowl of Compassion e nos preparamos para seguir viagem. Pegamos um riquixa para a cidade de Gaya onde pegariamos um trem para Delhi e depois tentariamos um onibus para Rishikesh. O trem saiu de Gaya com cinco horas de atraso e chegou em Delhi no dia seguinte oito horas atrasado. Os atrasos na India fazem os atrasos no Brasil parecerem brincadeira de crianca.
Chegamos a Delhi muito mais tarde do que imaginavamos que iriamos chegar e corremos para a estacao de onibus onde pegamos um onibus para Rishikesh que chegou, adivinha so... duas horas atrasado. Assim uma viagem que comecou no dia anterior e deveria acabar proxima a hora do almoco do dia seguinte acabou as onze da noite do dia seguinte. Uma maravilha. Chegamos tarde da noite sem saber nada da cidade e para nossa sorte um coroa passou por nos na rua e nos ofereceu um quarto que foi por acaso o melhor que encontramos. Ainda chegamos a olhar no dia seguinte as outras guesthouses, mas nenhuma chegou perto dessa. A guesthouse era numa area bem tranquila com uma bela vista para o rio Ganges. Rishikesh e a ultima cidade onde o rio Ganges ainda e limpo e proprio para banho. Depois de Rishikesh, a cidade de Haridwar despeja grande parte de seus dejetos no rio.
Rishikesh e famosa por ter sido a cidade onde os Beattles se exilaram na decada de 60 e escreveram a maior parte das cancoes para o White Album. Rishikesh tambem e conhecida como a capital mundial da yoga. Ou seja, e um daqueles lugares em que todo mundo paga de mistico, o que para alguns e algo extremamente interessante para mim nao passa de uma extrema forcacao de barra. Tudo que e buraco tem um guru. Ate o cara que vendia agua soltava as perolas dele do tipo "tudo e possivel" para responder qualquer pergunta que o faziamos e quando eu virei para um cara que estava na beira do rio para perguntar como voltava para a cidade ao inves de apontar e falar por ali, o mane fez questao de comentar que nao era facil encontrar o caminho, "mas, enfim, o que e facil na vida..."
O primeiro dia foi um dia de descanso da longa viagem e andar pela cidade. Como estava sofrendo com o calor, resolvi adotar um novo visual. Maquina zero para refrescar a careca. A cidade nao me impressionou nem um pouco pelo contrario, eu achei uma grande porcaria, mas uma coisa chamou muito minha atencao: o rio que cruzava na frente do hotel com os botes das pessoas fazendo rafting. E foi isso que decidimos fazer no segundo dia na cidade. Essa parte do Ganges e sensacional, pois alem de ter varias partes com correnteza bem intensa os intervalos sao pequenos. O problema do rafting foi o grupo que foi com a gente de indianos que queriam mais cantar do que remar e toda vez que eu comecava a remar o barco comecava a virar pro outro lado, pois os caras nao botavam nenhuma forca no remo. Mas foi uma otima experiencia.
Novo dia em Rishikesh e eu e Elena decidimos que tinhamos que vivenciar um pouco da capital mundial da yoga. Marcamos uma aula de yoga e uma de meditacao para o final da tarde. De manha, passamos o tempo em uma das praias do Ganges e depois seguimos para o Ashram. O instrutor da yoga faltou e um frances que ja havia feito algumas vezes acabou tomando a frente e deu a aula. Tivemos um break e depois a meditacao foi bem interessante. O instrutor tinha uma voz super tranquila e por incrivel que pareca eu nao dormi na sessao. Muito pelo contrario, ate achei legal. Mas e muito mais provavel de eu voltar pro river rafting do que para a meditacao, especialmente depois de ele me explicar que eles faziam toda manha sessoes de "limpeza" em que as pessoas enfiavam um fio pelo nariz e tiravam pela boca e sessoes de vomito para limpar o estomago. Eu so conseguia pensar: "Ta de sacanagem, eu nao volto nem amarrado depois dessa."
Mais um dia em Rishikesh e fomos a uma das cachoeiras da regiao, o que foi uma otima opcao ja que estava um calor dos infernos. Uma das piores coisas da India na minha opiniao e a repressao das mulheres. Quando nos fomos na praia no Ganges, estava escrito em todo lado: "No bikini, holy place", mas isso nao impede os homens indianos de frequentarem os locais usando so cueca, entao quando fomos a cachoeira nao nos surpreendeu vermos somente homens indianos e algumas estrangeiras. As mulheres indianas nao dao nem as caras. A cachoeira era legal, mas nada demais. Sem duvida foi a melhor opcao para enfrentar o calor.
Novo dia, finalmente seguimos em frente em direcao a Dharamsala. Sem duvida era um dos lugares que eu mais queria visitar na India e apos mais de dezessete horas de viagem chegamos ao local que mais me decepcionou na India. Ficamos na area de Mcleod Ganj, area do "governo exilado" do Tibet, mas so se viam estrangeiros por todos os lados e alguns tibetanos. Por todos os lados haviam centros de cultura tibetana, onde se discutiam a libertacao do Tibet, mas aparentemente ninguem la tinha nenhuma argumento convincente do porque a China libertaria o Tibet. Para mim e simples, se os EUA nao vao dar o Texas de volta para o Mexico, por qual razao a China que e uma das maiores potencias militares do mundo daria uma area cinco vezes maior de graca? Simplesmente nao faz sentido. Mas pelo visto, eu era o unico na cidade que achava isso. TIbet esta tao na moda que em alguns projetos em Dharamsala havia excesso de voluntarios, o que e algo que eu nunca havia ouvido falar antes.
Enfim, no nosso primeiro dia em Dharamsala, eu e Elena rodamos pela cidade e no final do dia encontramos Nicola e Adam, dois britanicos que estavam no mesmo onibus para Dharamsala. No segundo dia, fomos visitar a area do governo tibetano e nova decepcao. O templo nao era nada demais e nao tinha nada que valesse a visita. Terceiro dia, demos uma caminhada ao redor das outras areas da cidade, Dharamkot e Bhagsu e nos preparamos para a caminhada do dia seguinte morro acima em direcao a Triund. Triund e um lugarejo localizado a 9km de Mcleod Ganj a 2900 metros de altitude. O final das quatro horas de caminhada morro acima e coroada com uma belissima vista dos Himalaias. A caminhada morro acima foi comigo tentando ir mais rapido e a Elena mais devagar o tempo todo. Ao chegar fomos privilegiados com a belissima vista dos picos nevados dos Himalaias. No alto da montanha, alguns locais alugam barraca, servem comida e ha uma pequena Guesthouse. Um dos caras falou que ia chover, mas eu queria passar a noite na barraca e forcei a barra. Mas minha forcacao de barra so durou vinte minutos da tempestade que assolou a area por toda a noite. Em vinte minutos, o que era uma barraca de camping virou uma piscina. No meio da escuridao e da tempestade, seguimos para a Guesthouse para aprender a nao ser mais teimosos.
O dia seguinte amanheceu belissimo sem nenhuma nuvem no ceu nos premiando com uma belissima vista das montanhas. Acordamos, tomamos cafe e fomos em direcao aos glaciers que existem na area. Chegamos ao cafe que fica proximo da linha em que comeca a neve e resolvemos voltar, pois o tempo havia mudado e as montanhas estavam cobertas por nuvens. Em tres horas, voltamos a Dharamsala. A Elena ainda encontrou forcas para sair para encontrar uma amiga que ela havia conhecido em Calcuta, mas eu so consegui ir dormir.
Novo dia, hora de seguir para meu ultimo destino na India: Amritsar. A viagem de onibus teoricamente era para ser uma molezinha comparada as outras pelas quais eu havia passado ate entao em territorio indiano: somente sete horas. E realmente comecou muito bem ate um garotinho que estava no onibus vomitar todo o cafe da manha na minha perna e na minha mochila. Um comeco maravilhoso, mas fora isso foi super tranquilo.
Amritsar e o local onde esta situado o Golden Temple dos sikhs. Os sikhs sao famosos por estarem sempre usando turbante e nao cortarem nunca a barba nem o cabelo. Basicamente, o sikhismo surgiu do hinduismo e nao faz distincao entre seus fieis em castas como os hindus. Sem sombra de duvida, os sikhs sao as melhores pessoas que conheci na India. O Golden Temple possui uma cozinha que alimenta entre 60000 e 80000 pessoas por dia. Alem disso, eles possuem dormitorios para quem deseja dormir no templo. Tudo de graca. E impressionante. A estrutura e sensacional e os enche de orgulho explicar sobre sua religiao e sobre o templo. Foi sem sombra de duvida, o melhor lugar que eu visitei na India. A cozinha funciona 24 horas. E os voluntarios ajudam a limpar o tempo 24 horas. Eu nao esperava ver o local mais limpo que eu vi na minha vida na India, mas foi exatamente o que aconteceu. Os dormitorios para turistas eram otimos com ar condicionado e diversas camas.
Caminhar pelo templo era super agradavel. Todas as vezes algum sikh vinha conversar conosco e perguntar de onde eramos e o que estavamos achando do templo e nos explicar sobre sua religiao. Uma das curiosidades e que os sikhs estao sempre carregando uma arma. Nao uma arma de fogo, mas uma arma branca. E tradicao da religiao. Entao e comum caminhar pela cidade e especialmente pelo templo e ver uns coroas de barca branca carregando espadas e lancas. Super interessante. Nos tres dias em que estive no templo, eu comi por diversas vezes na cozinha comunitaria, visitei algumas lojas de espada e caminhei pelo templo sempre que nao tinha nada para fazer. Eu sempre acabava conhecendo algum novo sikh que me ensinava algo novo sobre a religiao.
No segundo dia em que estava em Amritsar, conheci um coreano que eu nao consegui aprender a pronunciar o nome e o convidei para se juntar a mim e a Elena no nosso passeio do dia. Nesse dia, fomos a fronteira com o Paquistao ver a famosa cerimonia que ocorre todo fim de tarde no fechamento dos portoes. Comeca com um pouco de musica e danca e acaba com uma cena meio infantil do soldados dos dois lados fazendo pose. Parece que alguns levam na brincadeira, mas a meu ver e somente uma cerimonia de celebracao da divisao de dois paises que deveriam ser um so.
No meu ultimo dia em Amritsar, me despedi de minha companheira de viagem espanhola que estava indo de volta a Dharamsala. Ela queria voltar e ficar mais tempo na cidade enquanto eu queria seguir em frente. Acordei no dia seguinte, dividi um riquixa com um casal que estava no mesmo quarto que eu no templo e comecei minha odisseia. Nas minha contas eu deveria levar umas trinta horas para chegar no Nepal. Peguei um onibus para Delhi, onde tive que pegar outro onibus para mudar de estacao. Mais um onibus para Lucknow que enguicou cinco vezes no meio da noite e acabou nao chegando no destino, me obrigando a pegar outro onibus local para Lucknow, dois riquixas, mais um onibus para Gorakhpur, outro onibus para Sunauli, cruzei a fronteira andando, peguei outro riquixa e mais um onibus e 55 horas depois cheguei a Lumbini. UFA! Hora de conhecer o Nepal.
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