Quer um comeco ruim para uma viagem?Basta marcar para sair as seis horas da manha. A fronteira do Nepal com a China fica relativamente proxima a Kathmandu, entao fica dificil entender porque estavamos comecando nossa viagem tao cedo. Mas menos de uma hora depois do inicio percebemos o porque. A estrada do Nepal em direcao ao Tibet e pessima e e conhecida como friendship highway. Vai ser amigo assim la na Asia. Passamos por pelo menos tres deslizamentos de encosta que nos atrasaram mais de duas horas para chegar na fronteira. Na fronteira, os soldados chineses revistam tudo, ligam computador e procuram por documentos relativos a situacao politica no Tibet e qualquer motivo para negar a entrada dos gringos no pais. Sempre tem aquela historia do malandro que eles nao deixaram entrar e, coincidentemente, todo mundo conhece a historia, mas ninguem conhece o malandro. Depois de toda a burocracia, cruzamos a fronteira e fomos almocar no lado tibetano da fronteira. Apos o almoco, seguimos dirigindo por algum tempo por uma paisagem que a chuva havia transformado em um festival de montanhas verdes e pequenas cachoeiras por todos os lados. Nao e preciso dizer que nenhuma foto faz jus ao que estavamos vendo. No grupo em que eu estava viajando haviam dez pessoas. Tres poloneses vegans, tres americanos nerds para cacete, um grego porra louca, uma militar australiana e um moleque nascido no Peru que cresceu no Havai, alem de mim. De cara, eu, o grego, a australiana e o peruano nos demos muito bem e dali para frente fizemos nosso pequeno grupo.
A primeira parada foi em uma pequena cidade chamada Nyalam, no caminho dos indianos que seguem para o monte Kailash. A cidade fica abarrotada de indianos que seguem para visitar o Kailash que aparentemente e uma das montanhas sagradas para os hindus. Aparentemente, tudo e sagrado para os hindus, o que enche um pouco o saco, especialmente quando temos a oportunidade de presenciar a forma como eles tratam os individuos de castas inferiores, mas eu ja deixei de tentar entender.
A cidade era muito pequena e na primeira guesthouse, como era de se esperar, nao tinha chuveiro. Tava um frio do cacete, apesar de estarmos no verao por conta da altitude. Quando abre o sol e quente para cacete, mas quando nubla e um frio de rachar. Ja nesse dia, testemunhamos uma mudanca drastica na paisagem. Do lado nepales, o clima e tropical e umido, mas depois de passar o primeiro high pass pelos Himalaias, toda a umidade fica para tras. A motivo das chuvas da epoca das monsoes ficava mais do que clara quando viamos que as nuvens do lado nepales ficavam presas nos Himalaias e a chuva e humidade so caiam do lado de la porque do lado tibetano a sensacao era de estar de volta a Mongolia. Uma secura e nada crescendo, so montanhas e pedras.
No segundo dia, dirigimos de Nyalam ate Lha Tse. No caminho, vimos muitos campos agricolas verdes e amarelos que transformavam a paisagem cinze num espetaculo de cores. O ceu e outro espetaculo. Talvez seja a altitude, mas eu nunca vi azul tao intenso.
Passamos por alguns high passes de quase cinco mil metros de altitude e a falta de oxigenio alem de deixar algumas pessoas com dor de cabeca, fez com que alguns ipods parassem de funcionar temporariamente. Paramos em alguns lugares no caminho e a sensacao nesses momentos era sempre a mesma. Nos lugares de parada comum de turistas, as criancas e os adultos adotavam a mesma tatica de abordagem dos indianos que se davam ao trabalho de aprender duas palavras em ingles: "Hello-money, hello-money!" Isso me tirava do serio porque se tinha uma coisa que eu gostava da China e que eu nunca tinha ouvido isso antes em nenhuma das cidades chinesas pelas quais passei. Mas nos locais onde turistas normalmente nao paravam era sempre uma grande bagunca quando paravamos e conheciamos pessoas super agradaveis e a criancada se amarrava. Foi nesse dia em que passamos por um dos pontos em que e possivel avistar o Monte Everest. Infelizmente, ele estava bem coberto e por mais que conseguissemos ter uma nocao da dimensao da montanha pela sombra por tras das nuvens, nenhuma das fotos ficou boa. Pelo menos deu para ter uma nocao do que seria uma montanha de 8848m de altitude. Chegando a Lha Tse, ficamos surpresos com a guesthouse que era ainda pior que a anterior e alem de nao ter chuveiro, nao tinha vaso sanitario, somente um buraco no chao.
Novo dia, hora de seguir de Lha Tse para Shiga Tse. Hora de comecar a visitar monasterios. A cidade era bem arrumadinha e o monasterio muito bonito. A grande decepcao ficou por conta da condicao de que alem de termos que pagar para entrar ainda tinhamos que pagar se quisessemos tirar fotografia do interior do monasterio. E era um valor para cada sala do interior do monasterio. Os monges ficavam fiscalizando para ver quando algum malandro tentasse dar um calote. Depois de visitar templos, igrejas e mesquitas sensacionais em que nao me cobraram um centavo para entrar tenho que confessar que a decepcao foi grande. Isso aconteceu em todos os templos em que visitamos no Tibet. Transformaram o budismo tibetano em um negocio da China.
Seguindo Tibet adentro, fomos de Shiga Tse para Gyan Tse no proximo dia. Nesse dia, nosso querido motorista tomou uma multa por excesso de velocidade e tivemos que esperar um tempao pro guarda chines liberar nosso onibus. No caminho, uma das atracoes do dia foi a visita a um moinho. Ninguem demonstrou o minimo interesse e essa visita durou bem pouco. E la seguimos para Gyan Tse para ver mais um monasterio. Vimos o monasterio e apos como tinhamos ainda algumas horas de bobeira na cidade, ao inves de ir as compras como os outros integrantes do nosso grupo, resolvemos subir uma das pequenas montanhas no meio da cidade e curtir a vista. Apesar de ser uma pequena montanha, a altitude nos matou no caminho. Tivemos uma vista muito bonita do antigo forte da cidade e do monasterio que haviamos visitado. O tempo estava otimo e foi um dos pontos altos da viagem. Se tem uma coisa pelo qual o nosso cronograma pecava e muito e que era muito voltado para o aspecto cultural da regiao, mas a paisagem era incrivel e totalmente diferente de qualquer lugar do mundo. Como estavamos sempre indo de monasterio em monasterio, tinhamos pouquissimo tempo para apreciar a paisagem. A noite que passamos em Gyan Tse tambem foi a fatidica noite da derrota de nossa patetica selecao para o ainda mais patetico time da Holanda. Dei gracas a Deus, Buddha e Maome por estar longe do Brasil e nao ter que aturar os jornais brasileiros falando a respeito da cagada que a selecao fez na Africa.
A manha seguinte foi dificil, apos a noite acordado ate tarde vendo o jogo, mas tinhamos um longo dia dirigindo ate Lhasa, a capital da "regiao autonoma do Tibet". No caminho, passamos pelo high pass mais alto de nosso percurso. Mais de 5200m de altitude e tinhamos a vista de um glacier a alguns metros de distancia. Eu queria chegar ate o glacier, mas claro que nao tinhamos tempo mais uma vez. Nesse dia, eu fiquei bem aborrecido com a correria para ver mais monasterios e a falta de flexibilidade de nosso cronograma para ver coisas realmente unicas e voltei pro onibus dando esporro no guia, no motorista e em quem tava reclamando, nao que fosse mudar alguma coisa, mas nao da para ficar aborrecido sozinho, entao eu passei a bola. Nesse dia, vimos tambem diversos lagos de agua azul cristalina sensacionais, resultado do derretimento dos glaciers presentes a toda volta. Os lagos foram um espetaculo a parte e evidenciaram o quanto estavamos perdendo oportunidadesde apreciar belezas naturais correndo de monasterio em monasterio vendo um monte de coisa parecida e sendo fiscalizado por monges que estavam mais interessados em nos cobrar pelas fotografias que tiravamos do que em exercitar o lado espiritual.
Depois de mais de quase um dia inteiro no onibus, chegamos a Lhasa, capital do Tibet. Em Lhasa, ficamos num hotel sensacional. Muito proximo do Jokheng Temple e da area historica da cidade. Comemoramos nosa chegada indo comer uma pizza de yak sensacional em um dos restaurantes da cidade.
Finalmente em Lhasa, a primeira coisa que visitamos foi o Potala Palace. O Potala Palace teve sua contrucao iniciada no seculo VII e era a residencia oficial do Dalai Lama ate ele abandonar a regiao e se exilar em Dharamsala na India. O palacio e muito bonito e tem uma vista belissima da cidade. A quantidade de peregrinos que vao ate Lhasa, despejar manteiga de yak proximos as imagens e surpreendente. Grande parte da cultura da regiao gira em torno do yak, o animal simbolo da regiao e um parente proximo dos nossos bovinos, mas se adapta muito bem ao frio e a altitude. O cha tibetano e feito de manteiga de yak com sal. Uma verdadeira porcaria, mas que faz parte da cultura local. A tarde, visitamos o Jokheng Temple, um dos mais antigos do Tibet. Fizemos a kora que e uma das expressoes religiosas dos fieis tibetanos. E bem simples, consiste em simplesmente dar uma volta no sentido horario em volta do templo. Muitos giram as rodas de oracoes e algumas pessoas tem suas proprias pequenas rodas de oracao e vao girando enquanto dao a volta no templo. Tambem tiramos um tempo para comprar alguns souvenirs dos vendedores tibetanos e eles acabaram sendo os vendedores mais agressivos que eu vi ate agora de todos os lugares pelos quais passei. Eles agarram no braco do cliente e ficam falando "Look, Look! How much you pay on this? Come on give me your best price" Dificil de se livrar para caramba.
No ultimo dia, fomos a mais um monasterio e a tarde voltamos a rodar por Lhasa e a comprar souvenirs. Visitar o Tibet era sem duvida nenhuma um dos meus sonhos e a visita mexeu bastante com minha opiniao sobre a libertacao e autonomia da regiao. Para comeco de conversa, o Tibet e um buraco negro para o governo chines que esta investindo uma fortuna para desenvolver a infra-estrutura local sem a possibilidade de ter retorno. Por outro lado, o Tibet parece uma area de interesse pela concentracao de glaciers e por ser a area de origem de muitos rios fundamentais para a Asia. Nao so isso, a area que o Tibet ocupa e gigantesca, mas abriga somente 2,7 milhoes de habitantes. Nao parece uma regiao que teria forca para reclamar sua propria independencia, especialmente contra o governo chines. Entao, ao que tudo indica, apesar de toda a atencao da midia internacional, o destino do Tibet e de ser parte da China.
A minha saida do Tibet seria por trem. Eu peguei o sky train ate Beijing. 48 horas de viagem super confortaveis na ferrovia em maior altitude do mundo. A mudanca de paisagem do primeiro dia para o segundo dia de viagem tambem e bem interessante. Do seco e arido TIbet para o verde do verao chines.
Chegando de volta a Beijing, passei um pouco por um choque que eu achei que nao fosse acontecer. Apos viajar por algum tempo em lugares menos densos populacionalmente, o impacto de chegar em um lugar que tem gente em tudo que e canto e em grande quantidade foi meio estranho. Mas depois de algumas horas ja havia me alojado na casa de minha amiga romena Nicole e acostumado a cidade.
Passei uma semana em Beijing e foi um grande choque estar na cidade durante a onda de calor, pois em marco eu estava na cidade durante a onda de frio atrasou a primavera por mais de um mes. Em todo o periodo em que estive la, o tempo esteve pessimo. Alguns dias chuvosos e nublado direto.
No tempo em que passei em Beijing tive alguns problemas com o cartao de credito, o que atrasou um pouco meu retorno para o velho continente. Saimos para curtir a noite chinesa e ainda encontrei com Laetita, uma suica que conheci no Cambodia e estava estudando chines em Beijing. Saimos todos juntos algumas vezes e depois de resolver todos os problemas com meu cartao e conseguir comprar minha passagem, estou seguindo num longo voo de Beijing com escala em Moscou para Helsinki.
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