De todos os trens que eu peguei ate o momento nada seria o suficiente
para me preparar para os 7855 quilometros da ferrovia transiberiana
entre Beijing e Moscou. De Ulaanbatar eu e Tyler, meu amigo canadense
que conheci na fronteira entre China e Mongolia, pegamos o trem para
Irkutsk, uma das maiores cidades da Siberia e principal da ferrovia
transiberiana para os viajantes que pretendem conhecer o Lago Baikal.
O Lago Baikal e o maior lago em volume de agua doce do mundo, o mais
profundo e o mais antigo do mundo. O Lago Baikal em alguns pontos
chega a ter mais de 1600 metros de profundidade e contem mais de 20%
da agua doce do mundo.
Mas antes de chegarmos a Irkutsk tinhamos quase quarenta horas no trem
para percorrer 1151 quilometros. Nada de mais, nao fosse o pessimo
horario de saida do trem. Como o trem sai as nove da noite, chega na
fronteira antes das cinco da manha e nos somos obrigados a ficar
esperando na fronteira ate as nove horas da manha, hora em que os
guardas da fronteira da Mongolia comecam a trabalhar. O trem era muito
bom e dormi muito bem. Acordamos de manha na ultima cidade antes da
fronteira onde nosso trem foi invadido por contrabandistas de tralha
da Mongolia. Na nossa cabine entrou uma senhora com um carregamento de
meia, camisa, jaqueta de couro, sapato, enfim todo tipo de porcaria
falsificada feita na China. Ela comecou a esconder em tudo que e
buraco que podia e assim que ela acabou de esconder toda a porcaria
que ela estava levando chamou um cara gordo para caramba que estava
usando tres calcas jeans ao mesmo tempo e com fita durex amarrou cinco
calcas jeans em volta da barriga do condenado que colocou duas
jaquetas por cima para disfarcar. Chegamos a fronteira e apos alguma
enchecao de saco entramos na Russia. Na primeira parada, eles
comecaram a tirar toda a tralha que estavam contrabandeando dos seus
esconderijos e deixaram o trem. Foi um bom comeco de dia para meu
companheiro de viagem que estava fazendo aniversario. Mais um dia
inteiro que nao foi nada dificil de encarar, ja que nossas camas no
trem eram otimas, mas na noite seguinte, tinhamos um novo hospede na
cabine e o cara se entupiu de vodka e roncou a noite inteira. O teto
da cabine chegava a tremer e eu chutava a cama do cara por baixo quase
jogando ele no chao e nada. Depois de uma noite muito mal dormida,
chegamos na manha seguinte a Irkutsk. A primavera da Siberia se
mostrou tao fria quanto o inverno chines. A neve e o vento frio eram
um convite para nao fazer nada especialmente para quem havia passado
duas noites anteriores em um trem, mas tinhamos que comemorar o
aniversario do Tyler. No hostel onde ficamos, conhecemos dois
britanicos, um alemao e um canadense. Uma das meninas que trabalha no
hostel onde estavamos hospedados ficou de nos levar para uma boate.
Com tudo que escutamos sobre os russos e de se esperar que tomassemos
muito cuidado com os nativos. Estabanado como so eu posso ser, em
menos de dois minutos consegui derrubar a cerveja de um russo que
estava passando. Olhei em volta e vi o desespero no olhar de meus
colegas. Para minha surpresa, o rapaz virou para mim e simplesmente me
falou que nao tinha nenhum problema. Pelo contrario, ele ficou muito
feliz em nos conhecer e pela oportunidade de nos conhecer. E em alguns
minutos, tudo que esperavamos dos russos foi por agua abaixo. Todo
mundo foi super simpatico e agradavel. Foi uma grande comemoracao para
o aniversario do meu amigo Tyler e serviu para que ficassemos muito
mais a vontade na Russia. Toda hora que me perguntavam de onde eu era
e eu respondia Brasil, escutava a mesma resposta: "UAU!!". Nesses
momentos nao ha nada melhor do que ser brasileiro. Apos a longa noite,
descansamos no domingo enquanto a neve caia do lado de fora. Na
segunda feira, resolvemos finalmente conhecer o Lago Baikal. Nao sem
antes checar a internet e ver os gols que fizeram do Fogao campeao
carioca devolvendo tres vices ao rival de uma vez so. No hostel,
conhecemos um casal de australianos que resolveram nos acompanhar em
nosso passeio ate Listvyanka, um pequeno vilarejo as margens do lago
com menos de dois mil habitantes. Chegamos a Listvyanka e passamos
algum tempo para entender o que estavamos fazendo la. Fora o Lago
Baikal que e realmente um lago gigantesco que estava quase que
completamente congelado, nao havia mais nada na cidade. A unica coisa
que nos restava fazer era comer omul que e um peixe da familia do
salmao caracteristico do Lago Baikal. O lago e tao gigantesco que em
alguns pontos fica a impressao de que o que estamos vendo e na verdade
um oceano, pois nao da para ver a outra margem. Depois de algumas
fotos e muito omul, eu e Tyler voltamos para Irkutsk onde pegamos
nossas mochilas e seguimos para a estacao de trem para enfrentar 77
horas e 5153 quilometros ate Moscou. Chegamos na estacao e passamos um
grande perrengue burocratico para conseguir pegar nossos tickets. A
partir dai, foi entrar no trem e ver o tempo passar. Optamos por
comprar as passagens mais baratas no vagao em que nao ha cabines e
sentamos do lado da porta do banheiro onde durante toda a noite a
porta batia quando alguem ia ao banheiro, mas surpreendentemente dormi
muito bem. O trem estava indo de Vladivostok ate Moscou. Ou seja,
algumas pessoas ja estavam viajando ha tres dias quando entramos no
trem. A nossa volta, ninguem falava ingles, o que nao impedia que
fossem super legais conosco. Um senhor que sentou proximo a nos sempre
nos oferecia comida e tentava se comunicar nos ajudando a passar o
tempo. Havia tambem um casal com um menininho com quem eu brincava de
vez em quando. Em menos de trinta horas as baterias dos ipods e dos
lap tops ja tinham ido pro brejo. A paisagem tambem nao tinha nada de
interessante e nao ajudava em nada a passar o tempo. Nossa chegada em
Moscou foi um dos momentos mais felizes da viagem... ate vermos os que
nos aguardava no metro. Na minha opiniao, e o metro mais complicado do
mundo. O hostel em que planejavamos ficar nao tinha cama disponivel,
entao ficamos em um hostel menor pelos dois primeiros dias. No
primeiro dia em Moscou andamos pela cidade que encanta pelos predios
antigos em todo canto, pelas igrejas belissimas e, principalmente,
pelo Red Square e pelo Kremlin. A noite fomos a uma boate que nao
tinha nada demais e era super afrescalhada. Eu era o unico que estava
vestido de camisa e calca jeans. O resto do publico estava super
arrumado. Moscou e famosa pelo "face control" da vida noturna. So
entra na boate quem o host fala que pode entrar. Mas eles normalmente
deixam gringos entrar em tudo que e canto e e provavelmente isso que
aconteceu porque estavamos totalmente deslocados. Dia seguinte, meu
aniversario seria comemorado na gelida primavera de Moscou. Apesar de
estarmos quase em maio a temperatura ainda beirava zero e chegou a
nevar no dia do meu aniversario. Aproveitei o pessimo tempo para
comprar minha passagem para a Coreia do Sul. Comprar a passagem foi
sem duvida o retrato do quao burocratica a Russia pode ser. A empresa,
por alguma razao, nao vende o bilhete pela internet e eu teria que ir
ate algum estande de venda para poder efetuar a compra. Ate preencher
tudo e resolver todas as burocracias, levou mais de uma hora e meia,
mas no final tudo deu certo. A noite estavamos meio desanimados, mas
sair era uma obrigacao, pois era sabado e meu aniversario! Ja no novo
hostel sentado na recepcao conheci um grupo de holandeses aos quais
nos juntamos e fomos para uma boate muito mais barata e tranquila.
Conheci uma menina que mora em Moscou chamada Elena e que eu jurava
que era brasileira. Acabou que ela me mostrou um pouco da cidade nos
dias seguintes e foi super gente boa como todo mundo que conhecemos.
Tanto eu quanto o Tyler ficamos surpresos com a simpatia dos russos.
Inicialmente, andando na rua o que vemos sao caras serias de poucos
amigos, mas uma vez que comecamos a conversar todos foram super
agradaveis. No nosso hostel, por exemplo, havia um rapaz que foi a
Moscou para assistir o show do Metallica que estava acontecendo no fim
de semana. Ele falava uma meia duzia de palavras em ingles, mas ele
tentava tanto fazer com que entendessemos o que ele estava falando em
russo que acabavamos entendendo (ou achando que haviamos
entendido...). Outro rapaz que estava no mesmo quarto fez questao de
nos ajudar a marcar o hostel de Sao Petersburgo.
Novo dia, andamos seguindo o rio pelo centro de Moscou. Cruzamos o red
square e caminhamos ate a catedral de St Basil.
No dia seguinte, eu e Tyler aproveitamos para ir ao Kremlin. As
igrejas e os predios sao belissimos. Quando estavamos pensando se
iriamos embora no mesmo dia para Sao Petersburgo, eis que Opuni, nosso
amigo de Gana que conhecemos na Mongolia chega no hostel e decidimos
ficar mais uma noite. No dia seguinte, eu e Opuni fomos dar uma volta
pela cidade. Visitamos o interior da igreja de St Basil e rodamos pelo
red square quando vimos um cara com uma aguia. Aproveitamos para tirar
umas fotos e voltar para o hostel, pois na mesma noite eu e Tyler
seguiriamos para Sao Petersburgo. Mais uma confusao burocratica para
conseguir os bilhetes que haviamos comprado na internet, mas no final
com a ajuda do Opuni e de uma menina russa que falava algum ingles e
percebeu nosso desespero para pegar o trem tudo acabou dando certo.
Mais dez horas de trem e chegamos a Sao Petersburgo. E nao demorou
muito para que a cidade se tornasse minha cidade europeia favorita. A
cidade e tao bonita que nem Barcelona consegue superar na minha
opiniao. Fomos a Peter-Paul Fortress e a Igreja do Sangue Derramado,
local onde Alexandre II foi assassinado. Conhecemos um americano que
era o unico que estava no mesmo andar do hostel que nos e fomos juntos
conhecer a vida noturna de Sao Petersburgo. Acabamos num bar muito
tranquilo e agradavel chamado Fidel que seria o local onde iriamos nas
duas proximas noites. La conheci Alana e Sonja que se juntaram a nos
em nossas noites no Fidel.
Para melhorar, uma amiga minha da Suecia que conheci no Laos me deu o
contato de uma amiga dela de Sao Petersburgo. Assim conheci Julia, que
me guiou por Sao Petersburgo nos proximos tres dias e ate me arrumou
um ingresso gratuito para a Hermitage que e um dos museus mais bonitos
que eu visitei ate agora e e considerado o maior museu de arte do
mundo. Eu bem que queria ter passado mais tempo no Hermitage, mas
estava incomodando o fato de estar numa cidade tao bela sem camera.
Entao, Julia me levou para comprar um camera nova. Saimos e mais uma
vez encontramos Alana e Sonja para uma longa noite em Sao Petersburgo.
No dia seguinte, Julia nos levou ate a Catedral da Trindade e demos
uma volta pelo rio novamente. A Julia esta terminando a graduacao em
Ciencias Politicas na Universidade de Sao Petersburgo. Faz parte do
curso dela estudar a historia e os acontecimentos politicos da Russia
a fundo. Ela agregou muito valor as nossas caminhadas pela cidade nos
contando alguns acontecimentos historicos ocorridos por onde
passavamos.
Na volta ao hostel, reecontramos o terceiro membro da odisseia pela
Mongolia. Alex que viajou comigo e com o Tyler pela Mongolia havia
chegado na cidade e estava nos esperando no hostel conversando com
Phil e Kate, um casal da Australia que conhecemos em um gher na nossa
primeira noite na viagem pela Mongolia. Fomos todos juntos para o
Fidel, mais uma vez, onde encontramos Alana e Sonja para minha ultima
noite na Russia.
No sabado, acordei para meu ultimo dia em Sao Petersburgo. Eu, Tyler,
Kate, Phil, Sonja, Julia e Kate caminhamos um pouco pela cidade e eu
entrei na igreja do Sangue Derramado para ver os belissimos mosaicos e
o local onde o czar foi assassinado. Nunca vi igreja mais bonita na
minha vida. Os mosaicos sao sensacionais. Sao Petersburgo nao podia
ter um monumento simbolo mais belo. Terminada a visita, voltei ao
hostel e me despedi de meus amigos e peguei minha mochila para seguir
para o aeroporto. A Sonja me deu uma carona e me deixou no aeroporto.
O balanco da minha visita a Russia foi extremamente positivo. Tive
muita sorte e conheci pessoas sensacionais e fiquei supreso com os
russos. Sem duvida, nao foi nada do que eu ouvi dizerem de que os
russos sao antipaticos e fechados. Eu adorei a Russia e especialmente
Sao Petersburgo e gostaria muito de voltar... no verao! Mas agora e
hora de seguir de volta para a Asia. Coreia do Sul ai vou eu...
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