Friday, March 12, 2010

Diario de Bordo XX: Pandas, os mais belos lagos e, acreditem ou nao, mais uma viagem em pe num trem chines






Dia de visitar os pandas. E quem nao adora os pandas? Preguicosos e adoraveis (muito mais preguicosos do que adoraveis...). O centro de pesquisa e o lar de duas especies de pandas: o panda vermelho e o panda gigante. O panda gigante e o tradicional ursinho preto e branco que todos conhecemos. Eu tenho que confessar que esperava que os pandas gigantes fossem maiores, mas eles so sao gigantes em relacao a outra especia de panda que e bem pequena. Os pandas adultos chegam em media a 70 kg, o que nao e muito para um urso e nao e o suficiente para meter medo em ninguem. Os pandas adultos passam o dia comendo bambu e descansando. Pra piorar ainda mais a situacao, os chineses adoram carne de panda (assim como adoram carne de porco, de vaca, de peixe, de cachorro, ...). Juntando todas essas informacoes nao e de espantar que atualmente tenhamos algo em torno de 1500 pandas em todo mundo. Eles chegam a passar dezesseis horas por dia comendo bambu. Haja fome! Os bebes sao o ponto alto da visita, pois alem de comer e dormir, eles brincam bastante e sao bem mais ativos que os adultos.
Ja o panda vermelho nem esta tao ameacado de extincao e nem e tao adoravel. O bicho mais parece um gamba. Ele e um pouco mais ativo e no tempo em que estivemos la, vimos algumas brigas entre eles. Pra fechar o passeio, uma visita ao museu do panda que parece ter um orcamento bem baixo. Como comecamos bem cedo e nao encontramos nenhum lugar onde pudessemos tomar um cafe por la, depois do panda vermelho ja estavamos morrendo de fome, entao apressamos um pouco nosso guia chines para nos levar de volta pra almocar o quanto antes. Mas foi so sair do parque para cairmos num engarrafamento daqueles. Apos mais de uma hora de engarrafamento demos de cara com o restaurante proximo ao hostel onde eu havia comido com o Christos e la fomos nos. Meus amigos dinamarqueses queriam comprar o bilhete para seguir para Jiuzhaigou no dia seguinte e eu queria ir de volta para Xian. Fomos na estacao de onibus comprar o ticket e nao encontrei nenhum disponivel para os proximos tres dias, o que significaria tres dias em Chengdu sem ver muita coisa nova. Mas haviam diversos tickets para Jiuzhaigou, entao nao pensei duas vezes e comprei um pra mim tambem. Afinal, Jiuzhaigou e na direcao de Xian e e melhor conhecer um lugar diferente do que ficar ilhado.
A noite, Jepser e Majbritt foram assistir a uma opera chinesa, mas isso ja era demais para mim. Eu e Christos pedimos para as meninas da recepcao que nos indicassem algum mercado chines porque ele estava querendo comprar um casaco e la fomos nos. Perdemos o ponto do onibus e tivemos que nos virar para chegar. Chegando no local indicado, vimos de cara que a menina da recepcao do hostel nao tem muita nocao do que e trabalhar num hostel, pois batemos de cara com uma Louis Vitton. Olhamos por cinco minutos as lojas e acabamos no Pizza Hut onde matei minha vontade de pizza. Me despedi do meu amigo grego e me preparei para o dia seguinte.
Novo dia, de volta para a estrada. Acordamos cedo e fomos para a estacao de onibus. Eu tenho que confessar que ja tinha esquecido como e viajar de onibus na China. E tambem tenho que confessar que nao sinto saudade nenhuma dos bancos apertados e dos motoristas buzindo a cada vinte segundos. Apesar da companhia super agradavel dos meus amigos dinamarqueses, passada cinco horas com o motorista buzinando com a frequencia com que buzinava eu ja estava de saco cheio. No caminho, fiquei sabendo que a area para onde estavamos indo foi a mais afetada pelo terremoto que atingiu a provincia de Sichuan em 2005. O onibus so fazia subir e de repente, olhei pro lado e fiquei surpreso ao ver pequenas cachoeiras congeladas e neve por todo lado. A paisagem era deslumbrante. Passamos pela parte coberta de neve e descemos um pouco para chegar na cidade. Cinco minutos depois de chegarmos todo mundo que estava no onibus sumiu e so sobramos nos. A cidade totalmente deserta. Hoteis gigantes fechados sem nenhum hospede, estacionamentos vazios e dois estacionamentos abarrotados de onibus todos parados. Ficou claro que a cidade nao funciona no inverno. A Majbritt encontrou um hotel com preco muito bom onde eramos os unicos hospedes. So um detalhe que logo descobrimos e que como eles nao tinham hospedes, eles nao ligaram o boiler e nao tinhamos agua quente. E foi assim que tomei o banho mais gelado da minha vida. Eu e Majbritt fomos comer enquanto o Jesper tirava um cochilo, pois estava um pouco resfriado.
Na manha seguinte, meus amigos ja estavam comecando a se desculpar por ter me convencido a seguir viagem com eles. A cidade estava totalmente deserta, um frio de rachar e nao conseguiamos nos comunicar com ninguem para comprar o bilhete do onibus para sair de la. Chegamos na bilheteria do parque e ficamos surpresos com o valor do ingresso, mas por sorte minha carteira de motorista passa por carteira de estudante na Asia e eu paguei meia entrada. Entramos no parque sem grandes expectativas. O parque estava relativamente vazio. De repente, quando o onibus comeca a subir nos deparamos com um lago azulado transparente com belissimas montanhas ao fundo. E foi so o primeiro de varios lagos incrivelmente belos que desaguavam em cachoeiras incriveis. Sem sombra de duvida o lugar mais bonito que vi ate agora. A beleza do local e inacreditavel. Passamos por diversos lagos e justo quando achavamos que nao tinhamos mais condicoes de ser surpreendidos, chegamos a um dos pontos mais altos do parque e, entre as montanhas cobertas de neve, um gigantesco lago congelado. E la ficamos por alguns momentos admirando uma das paisagens mais belas que vi em toda minha vida. Ate o frio parou de incomodar. E claro que Jesper e Majbritt mudaram do classico "foi mal" para o "te falei que era a boa". Mas eles estavam com credito.
A visita foi sensacional, mas o dia seguinte era de pe na estrada novamente. Com a ajuda da moca do balcao de informacoes conseguimos arrumar transporte para a cidade e comprar o bilhete para Guangyuan. Por Guangyuan passa a ferrovia que leva para Xian. La tambem sao fabricadas as bombas nucleares chinesas. Mas antes de chegar a Guangyuan, tinhamos que encarar uma viagem de onibus de mais de dez horas. Como se nao bastasse, apos seis horas de viagem: BUM! Pneu furado no meio do nada. Para melhorar, e claro, nosso onibus nao tinha step. Para coroar o momento, nosso motorista e a moca que trabalhava com ele comecaram a lavar o onibus para se manter ocupados. E la ficamos nos esperando por quase uma hora ate surgir uma alma para nos ajudar. E la surgiu um mecanico numa motocicleta que consertou nosso pneu e seguimos viagem. Chegando a nosso destino, fomos direto tentar comprar um bilhete de trem para seguir na mesma hora para Xian e nada. Fomos tentar uma passagem de onibus e nada. Na verdade, por conta da neve, nenhum onibus estava indo para Xian nos proximos dois dias. Corremos de volta para a estacao de trem e conseguimos tres bilhetes para Xian para o dia seguinte... em pe... Entao se alguem perguntar quem e o idiota que enfrentou os tres chineses em pe duas vezes em menos de duas semanas, pode falar meu nome.
Nosso trem so saia a noite e tinhamos um dia inteiro pela frente em Guangyuan. Nada para fazer, a Majbritt perguntou se alguem tinha alguma ideia e como nao tinhamos ela sugeriu que cortassemos o cabelo. Passamos boa parte do dia cortando o cabelo, principalmente porque ela decidiu pintar o cabelo e levou um tempao. Terminado os cortes fomos para a estacao para encarar nossa nova odisseia. Como a cidade nao e um destino comum, tres ocidentais chamam bastante atencao no meio dos chineses. Estavamos tentando descobrir que horas saia nosso trem e nada. Eis que surge um soldado que falava algum ingles e nos pede para passar na frente de todo mundo e nos deu um sonoro "Bem vindo a China". Majbritt e Jesper ficaram todos felizes com a impressao de que "essa experiencia nao vai ser tao ruim assim". Mas eu ja sabia o que estava por vir. E foi so abrir a porta do trem e as pessoas comecarem a chutar lixo para fora que eles perceberam que a experiencia ia ser muito pior do que eles imaginavam. So que dessa vez foi muito mais tranquilo do que da vez anterior e a viagem foi mais curta. Foi uma experiencia um tanto divertida e ate fizemos alguns amigos. Passadas sete horas de viagem, eu ja nao aguentava tentar dormir e me diverti tirando fotos das pessoas amontoadas dormindo nas posicoes mais esquisitas possiveis. Chegando em Xian fomos tomar cafe no McDonalds e descansar. Apos acordarmos conhecemos Richard, um britanico muito gente boa que esta tentando arrumar um emprego dando aula de ingles em Xian. E mais tarde seguimos juntos para a noite de Xian. Tudo corria bem, ate meus amigos conhecerem dois outros dinamarqueses. Um deles dar em cima da Majbritt e todo mundo ficar irritado e acabar com a noite por ali. Mas mesmo assim foi uma noite super legal.
Novo dia, novas atracoes, fomos a Torre do Sino e a Torre do Tambor. Nada demais, mas valeu pela boa companhia.
No dia seguinte, Majbritt e Jesper foram visitar minha maior decepcao ate o momento: os guerreiros de terracota. E eu aproveitei para dormir ate mais tarde um pouco. Quando eles voltaram, fomos dar uma volta pelo Muslim Quarter que e a area dos muculmanos na cidade e onde a Majbritt aproveitou para exercitar sua feminilidade fazendo compras.
No dia seguinte, nosso trem so saia a noite e tiramos o dia para conhecer o famoso museu de Xian, mas tanto eu quanto meus amigos dinamarqueses ja estamos viajando faz tempo e os museus ja nao causam mais tanto impacto. Muito melhor que o museu foi nossa pedalada pelas muralhas de Xian.
Para fechar com chave de ouro nossa estada em Xian, fomos jantar juntos com alguns outros hospedes do hostel em um restaurantezinho local e corremos para a estacao de trem para seguir para Datong.
Datong e uma pequena cidade (so tem um milhao de habitantes...). o grande atrativo da cidade e que fica no caminho para Beijing e tem nas imediacoes algumas ruinas da Muralha da China e o Hanging Temple que e um templo que fica pendurado num penhasco.
Mais uma cidade em que ninguem fala ingles direito, mais uma luta pra conseguir um quarto de hotel, mas no final valeu a pena. Bom preco e hotel bem localizado.
Dia seguinte, dia de ver o Hanging Temple e a muralha. Procuramos pela cidade ate que encontramos um motorista de taxi chamado Wang. Ele era o unico que falava algum ingles. Depois da Majbritt praticar um de seus esportes prediletos que e barganhar por um ou dois dolares por mais de vinte minutos conseguimos chegar no preco que queriamos (claro, o preco que ela queria!) e la fomos nos. Nosso motorista era extremente zeloso com seu instrumento de trabalho a ponto de ser inconveniente. Ele queria que a gente limpasse o pe sempre que entrasse no carro. E toda vez que ele parava para nos esperar ficava o tempo todo limpando o carro. Quando o conhecemos, todos os motoristas estavam batendo papo e la estava ele limpando o carro. Me lembrou bastante do meu avo.
Enfim, quarenta e cinco minutos e chegamos ao impressionante Hanging Temple. Mais impressionante que ve-lo de longe e entrar no templo e ver a espessura das estacas de madeira que o sustentam. Foi um passeio que valeu muito a pena. No caminho, o Jesper mencionou que algumas pessoas ainda moravam em cavernas naquela area. Ouvindo isso, nosso guia, Mr Wang, nos levou para conhecer o ultimo dos moradores das cavernas da regiao. Um senhor muito simpatico de 78 anos de idade que e o ultimo remanescente de um estilo de vida extinto na regiao. Vira e mexe, ele aparece em alguma materia de jornal e adora receber os turistas para mostrar o interior de sua casa. Ficamos encantados com a simpatia e com a vitalidade de nosso anfitriao. Nos despedimos e seguimos para ver a muralha. Nos ja estavamos preparados para o que viria, pois ja haviamos lido que a muralha naquela regiao havia sido destruida pelos fazendeiros da regiao e que somente poderiamos ver a parte central da muralha que era composta de barro. Chegamos la e nosso querido guia parou a quase quinhentos metros do local falando que nao poderia seguir em frente porque seu carro nao poderia atravessar as pocas. Comecamos nossa caminhada e nem sinal de muralha. Eis que encontramos alguns senhores que viviam em casas de barro e de alguma forma descobrimos que a muralha, ou os restos dela, era exatamente onde as casas da vila estavam escoradas. Mais uma demonstracao de simpatia sem precedentes, um deles nos levou ate o topo da muralha e com o meu chines que se limita termos como "arroz", "quanto custa?", 1, 2, 3, 4, 5 e algumas outras frases nos explicou por onde a muralha passava e que aquela parte da muralha separava China e Mongolia nos tempos antigos. Ficamos ainda mais encantados com a simpatia e hospitalidade dos chineses e, apesar da decepcao com a muralha, saimos muito satisfeitos com a experiencia.
Minha experiencia chinesa tem sido muito peculiar. Na maioria dos lugares que eu fui, eu gostei ou odiei de cara, mas aqui eu cheguei e inicialmente nao me impressionei. Com o passar do tempo, ao conhecer as pessoas e passar pelas situacoes mais inusitadas, eu passei a adorar a China.
De volta a cidade, seguimos para a cidade e descansamos um pouco antes de pegarmos nosso trem e seguirmos a noite para Beijing. E adivinha so o que eu quero fazer la? Ver a muralha? De novo? Claro!

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