Saturday, March 6, 2010

Diario de Bordo XIX: Inferno no trem no caminho para conhecer uma verdadeira maravilha






Dezoito horinhas no trem, molezinha. Chego em Xian por volta das sete horas da manha e vou direto comprar meu bilhete para Pequim. Viajar na epoca do ano novo chines e o equivalente a viajar para a regiao dos lagos no carnaval, so que mil vezes pior. Para os proximos tres dias so havia um bilhete disponivel no dia 19 como eu queria as oito e meia da noite. Ate ai perfeito. O problema e que era um bilhete para viajar de pe. Como a estacao estava lotada e tinha um monte de chines gritando de tudo que e lado eu comprei o bilhete e seja o que Deus quiser. Atravessei a rua da estacao e fui direto no Mcdonalds comer panqueca de cafe da manha. Enquanto esperava na fila, surge um ingles com a cara mais amassada que a minha perguntando se alguem sabia como chegar na famosa Bell Tower que e o ponto central de Xian e foi ai que conheci Chris, um londrino que veio de trem de Londres ate Xian. Ele atravessou a Russia de trem e chegou a pegar temperaturas de menos trinta graus e viagens de mais de setenta horas direto sem sair do trem. Comi minhas panquecas e la fui eu e o Chris procurar a Bell Tower. Depois de uma hora caminhando achamos o hostel dele e em seguida o meu. Apesar do cansaco, a ansiedade para ver os guerreiros de terracota era maior e o plano era deixar as malas nos respectivos hostels e seguir para ver os guerreiros direto. Cheguei no meu hostel e conheci Aaron, um americano que trabalha dando aulas de ingles na Coreia do Sul e que se juntou a nos.
Seguimos para a estacao de onibus e meia hora depois saltamos do onibus e caminhamos uns dez minutos ate a entrada para descobrir que o local que vende o bilhete de entrada ficava proximo de onde saltamos do onibus. Na minha cabeca nao faz sentido nenhum, mas fazer o que? A China tem dessas coisas.Voltamos compramos as entradas e ainda contratamos uma chinesinha chamada Linda para ser nossa guia. Rodamos por algumas horas para ver os guerreiros e minha avaliacao da atracao e de que e extremamente decepcionante. A verdade e que eu criei uma expectativa muito grande, mas nao da pra exigir muito de um monte de boneco de barro. Pra piorar os chineses ainda gostam de falar que e a oitava maravilha do mundo. Forcacao de barra ao extremo.
Os chineses criaram um monte de coisa em torno dos guerreiros e o coroa que os encontrou enquanto escavava um poco fica la na lojinha de souvenir dando autografo. Na minha sincera opiniao e como pedir autografo para alguem que ganhou na loteria. Seguimos de la para a estacao de trem onde Chris e Aron tinham que comprar seus respectivos tickets. O Aaron conseguiu comprar o dele, mas o Chris teve que ir de aviao mesmo, pois nem assento em pe tinha disponivel. Comemos numa birosca local proxima a estacao de trem e voltamos para dormir.
Novo dia, novas atracoes. Comecamos a andar pela cidade e a ver alguns dos pontos turisticos. Vimos a Bell Tower, a Great Mosque, andamos pelas muralhas da cidade e fomos em direcao a um museu um pouco afastado da parte central da cidade. O que achamos que seria uma caminhada de trinta minutos se transformou numa longa caminhada de mais de duas horas. Quando chegamos, claro, o museu estava fechado, mas ainda vimos a grande pagoda que e outro simbolo de Xian. Na volta, todo mundo cansado de caminhar e a decisao de pegar um taxi foi unanime. Quando chegamos no hostel conhecemos Alex, um americano nascido na Russia que trabalhava na Microsoft. Ele ja esteve em tudo que e canto e acabava de voltar do Tibet. Ele correu o Mongol Rally duas vezes. O Mongol Rally e uma competicao com um objetivo muito simples: dirigir de Londres ate Ulaanbatar na Mongolia. Pra complicar um pouquinho mais (como se precisasse!!) o carro escolhido tem que ser 1.0.. Nao tem premio, nem ninguem liga pra quem vence ou perde, o objetivo e se divertir e tentar consertar o carro em lugares esquisitos pelo caminho enquanto ele vai enguicando.
A cidade de Xian e famosa pelos guerreiros de terracota e tambem por uma boate chamada 1 plus 1. A boate e realmente incrivel. O numero de ambientes e os diferentes estilos de musica surpreendem. Quando eu ja tinha passado por dois ambientes diferentes e achei que ja era demais, atravessei uma porta procurando pelo banheiro e descobri outros ambientes ainda mais cheios de gente e com estilos de musica diferente. O grande problema e que a bebida era extremamente cara para os padroes chineses. Entao la estavamos eu, Chris, Aaron e Alex olhando e pensando em passar uma noite sem beber quando conhecemos Zhangbo. Zhangbo estava sentado numa mesa sozinho com um monte de bebida. Ele nos chamou e comecou a oferecer drinks sem parar e estavamos achando tudo muito estranho. E o cara nao parava de comprar bebida e nos oferecer. E nos estavamos cada vez mais desconfortaveis com a situacao achando que ia pintar um golpe a qualquer momento quando conhecemos um americano que da aula de ingles na China e fala mandarim fluentemente. Ele me explicou que isso e costume deles e que como nos eramos um dos poucos gringos no local eramos celebridades e, portanto, nao era de graca que ele estava fazendo aquilo. E por mais que nos pedissemos para ele parar de comprar bebida, ele nao parava. E no final das contas foi uma das noites mais baratas que eu tive desde que comecei minha viagem e ainda fiz um amigo chines.
Dia de partir, mas meu trem so saia as oito e meia da noite e eu tinha um dia inteiro pela frente. Meus amigos foram embora cedo, entao me juntei a Ana e Christiana, duas alemas que conheci no hostel. Caminhamos pela cidade e fomos a um museu com umas escrituras em pedra. Claro nenhum estava traduzido e seria uma grande perda de tempo se eu nao tivesse batido de frente com a traducao de alguns versos que diziam algo como: "E dificil ser inteligente, mas mais dificil ser simples. Ser inteligente e se tornar simples e ainda mais dificil. De um passo para tras e relaxe e voce encontrara paz no seu coracao, ao inves de recompensa no seu futuro." Como estava na minha hora de seguir para o hostel e acertar tudo para minha ida para Pequim, me despedi de minhas amigas alemas e fui caminhando para o hostel para pegar minhas coisas e seguir para a estacao de trem.
Peguei minhas coisas e parti para a pior experiencia que eu tive em toda minha vida. Desde sempre, eu lembro de escutar as pessoas falando do ano novo chines. E como o nosso natal em que todo mundo tenta estar em casa, proximo a familia. So que na China tem muito, mas muito mais gente. E gente que nao acaba mais. E eu bem que podia ter esperado dois dias e todo mundo ia estar de volta pra casa e eu poderia viajar sossegado, mas eu cismei que tinha que ir no dia tal e pronto. Como eu ja havia pego todo tipo de onibus e trem, eu imaginei que doze horas era bem tranquilo. Por mais que fosse em pe, eventualmente eu conseguiria sentar no chao e as doze horinhas iam passar voando. Mas para minha surpresa, a volta do ano novo chines nao e como eu imaginava, e infinitamente pior! A quantidade de pessoas tentando entrar na estacao ja foi um choque e eu levei mais de uma hora pra conseguir entrar. Chegando no hall de espera do trem, me senti num formigueiro. Mas o pior ainda estava por vir. Quando o bilhete diz em pe, e porque e em pe mesmo. Simplesmente nao ha espaco para nada. Eu nao consegui passar da entrada do vagao e fiquei proximo ao banheiro que tambem e a area de fumantes. E como os chineses fumam... E como eu sou um gigante aqui, eles fumam, a fumaca sobe e fica na altura da minha cabeca que passa bem perto do teto do vagao. Logo, enquanto cada um deles fuma um cigarro, eu fumo passivamente todos os cigaros do vagao. Teve gente que fumou durante as doze horas de viagem, logo eu tambem fumei. No comeco da viagem um atendente queria abrir a porta que liga dois vagoes, mas nao havia espaco e quando ele comecou a empurrar bateu a porta numa garota e o namorado dela comecou a brigar com o cara, a gritaria comecou, veio policia, um cara tirou uma foto, o policial ficou transtornado com a foto, foi pegar a camera do cara, nao tinha espaco pra ele passar, empurrou mais gente, um monte de gente mais a frente reclamou ainda mais. Isso foi so a primeira hora da viagem, depois chega a hora da musica. Musica e uma forma facil de passar o tempo. E aqui como e barato, todo mundo tem um tocador de mp3 qualquer. Mas a diferenca e que (e eu nao sei qual e a razao disso?), eles aqui simplesmente nao tem o habito de usar os fones de ouvido. Entao por um bom tempo da viagem convivemos com tres ou quatro musicas diferentes tocando ao mesmo tempo. Todas insuportaveis porque se tem uma coisa que os chineses sao pessimos e em musica. Pra se ter uma nocao, os Backstreet Boys ainda estao na moda aqui e vao dar um show em Pequim em marco. E eles ainda gostam de karaoke!
Eventualmente, chegou um ponto da viagem em que eu nao conseguia mais ficar em pe, especialmente com a quantidade de gente que tinha encostada em mim dormindo em pe. Entao simplesmente sentei na minha mochila, mas o trem era tao apertado que nao dava pra ficar sentado por muito tempo. Por sorte, eu escolhi o trem direto porque, se ele parasse em alguma estacao (qualquer estacao), eu ia pular fora com certeza. O banheiro foi logo ocupado por alguns caras e, independente do quanto batessem na porta, eles nao acordavam, entao acabou que eu nao fui no banheiro nenhuma vez. Pode parecer ruim o suficiente, mas ainda tem mais, afinal nao seria a China se nao tivesse a tradicional limpada de garganta, seguida pela escarrada. Para explicar melhor, eu preciso ilustrar a situacao. Estou eu andando na rua quando escuto aquela sonora pigarreada para limpar a gargante que mais parece alguem dando descarga numa privada seguida de uma sonora cusparada. Me viro pra olhar quem e o artista e e uma senhora relativamente bem vestida, ou uma adolescente com uniforme da escola, ou um homem bem vestido de terno e gravata. Aqui isso e costume e ao caminhar pelas ruas nos deparamos com essa situacao diversas vezes ao dia. Claro, que nao e porque eles estao no trem que eles vao deixar de cuspir, entao, por diversas vezes, as pessoas no trem davam aquelas escarrada caprichada no chao do vagao sem fazer a menor cerimonia.
Eu acho que um dos melhores momentos da minha vida foi quando o trem chegou a Pequim. Foram doze horas e trinta e dois minutos para nunca mais serem repetidos. Achar o hostel foi relativamente facil e logo entrei em contato com Chris, o canadense que conheci em Yangshuo e mora em Pequim. Fomos almocar juntos num lugar que ele escolheu. Um restaurante italiano que por acaso era muito bom, mas passei por mais uma situacao curiosa. Pedi uma pizza de mozzarela. Cinco minutos depois, me vem um garcom falar que nao tem pizza de mozzarela. Eu olhei o cardapio e tinha pizza de peperoni. Entao, na maior inocencia, perguntei se eu nao poderia pedir uma pizza de peperoni sem peperoni. Mais cinco minutos e me vem outro garcom dizer que nao. Fiquei com a pizza de peperoni, mas enjuriado com a falta de flexibilidade dos chineses. Essa e uma das situacoes que acontecem algumas vezes aqui que mais me frustram. Nao ha flexibilidade nenhuma. Eu nem tento mais.
Voltei para o hostel, dei uma cochilada e encontrei com o Chris para sair pela noite de Pequim. Como ele e local e boemio me levou para uns bares e boates muito bons. Conhecemos um monte de gente legal, nos divertimos bastante e fomos parar numa boate latina chamada Salud, mas no meio da noite eu ja nao me aguentava mais em pe e tive que partir para dormir.
No meu primeiro dia descansado em Pequim, acordei e de cara o Chris me mandou uma mensagem dizendo que estava sem condicoes e precisaria descansar, pois voltava a trabalhar no dia seguinte. Eis que na cama abaixo da minha, havia uma pessoa que eu ate cheguei a verificar para ver se estava respirando. Meu amigo mexicano Manoel Chig. Eu acho que ele e uma das pessoas mais impressionantes que eu conheci viajando. Manoel tem vinte anos de idade, quando tinha dezoito deixou o Mexico em busca de um sonho, aprender Kung Fu Shaolin. E la foi ele com a cara e com a coragem pro templo Shaolin. Falando apenas espanhol, ele comeu o pao que o diabo amassou e aprendeu ingles e chines. Hoje, ele estuda comercio internacional na China, em chines e claro. Pelas distancia entre os idiomas e dificil imaginar alguem fazendo isso, mas e bem possivel, mas o mais incrivel nao e isso. E quando andavamos na rua e ele trocava duas ou tres frases com alguem e eu percebia que era diferente do mandarim que estou acostumado a ouvir e perguntava qual idioma ele estava falando e ele me contava que teve um colega de quarto da Coreia do Sul e aprendeu algumas frases em coreano. Ele tambem consegue se comunicar com vietnamitas, aparentemente pelo mesmo motivo. Sabe um pouco de tailandes. Japones ele se vira, pois afinal namorou uma japonesa. Estavamos andando no parque um dia e ele me perguntou se eu sabia o que um cara tinha falado e eu falei que nao e ele me disse o que era, quando eu perguntei qual idioma que era aquele, ele me disse que era russo (!!!). Nem preciso dizer que depois de uns dois dias andando comigo ele ja estava solto no portugues. Nao so isso ele me ensinou bastante espanhol de modo que meu espanhol passou de pessimo para ruim em pouquissimo tempo. Uma evolucao notavel. Ele e uma maquina com idiomas, nao para de perguntar como se diz isso e aquilo e depois fica repetindo aleatoriamente durante o dia.
Meu primeiro passeio com o Manoel foi para ver a Cidade Pproibida e Tianamen Square. No coracao de Pequim, a cidade proibida e grandiosa e incrivel, uma sucessao de pracas com os aposentos do imperador e algumas salas e altares expostos a visita. Melhor do que visitar a Cidade Proibida e poder ve-la do alto Jingshan Park no meio dos predios modernos de Pequim. Diferente de Shanghai, Pequim e uma cidade cheia de parques e monumentos historicos, o que faz dela um destino infinitamente melhor para turismo. Seguimos de la para o Palacio de Inverno e tanto eu como o Manoel eramos as unicas pessoas encantadas com o lago congelado no meio do parque que cerca o palacio. De la partimos para o hostel e caminhando pelos arredores procurando por algo para comer achamos um restaurante muito bom que servia um frango com gengibre e amendoim sensacional.
Como estava chegando ao fim do meu visto eu tinha que procurar uma forma de extender meu visto e, com a ajuda do Manoel, nos bem que tentamos, mas sem sucesso. Fomos visitar um amigo do Manoel que faz universidade de kung fu em Pequim e depois seguimos para ver o Palacio de Verao. Ainda mais belo que o Palacio de Inverno, o Palacio de Verao esta situado num parque belissimo um pouco distante do centro de Pequim.Depois o Manoel foi encontrar alguns amigos mexicanos que moram em Pequim para tomar uma cerveja e eu parti pro hostel sem antes parar no meu restaurante preferido de Pequim. O termo restaurante no caso nao se aplica, pois e so uma portinha com tres mesas, mas o macarrao e os dumplings sao sensacionais. Sem falar do preco, pois por dois dolares eu saia mais do que satisfeito. Mas o ponto alto desse cantinho no meio de Pequim e sem duvida a simpatia do casal de donos que toma conta do lugar. Mesmo sem se falar o mesmo idioma, nos conseguiamos no comunicar com algumas frases simples, gestos e muito boa vontade.
Dormi cedo e fui acordado as seis da manha com um telefonema especial. Meu pai me ligou dizendo que meu amado e sofrido Botafogo acabara de vencer o Vasco e conquistar a Taca Guanabara. O que fez do meu dia ainda mais especial, pois esse era o dia que eu e Manoel escolhemos para visitar a Muralha da China.
Como o Manoel fala chines e tem amigos que moram em Pequim ao inves de nos juntarmos a um tour, resolvemos fazer nosso proprio tour. Pegamos dois onibus e chegamos ate a entrada da muralha. Desde a decepcao com os guerreiros de terracota que estava tentando baixar minhas expectativas para nao me decepcionar com a Muralha tambem, mas nao consegui. E por maior que fossem as expectativas, a Muralha as superou com sobras. Indescritivel, grandiosa, incrivel, ainda estou procurando um termo para definir com precisao minha opiniao. Chegamos na Muralha e comecamos a andar na direcao oposta a que todos os turistas vao e, sempre que olhavamos para o horizonte, la estava ela. Andamos por mais ou menos uma hora ate chegar num ponto fechado para visita. Como nao tinha ninguem la aproveitamos para driblar o aviso e continuar nossa caminhada por uma area que nao tinha ninguem alem de nos. Tiramos um monte de fotos, caminhamos bastante e acabei maravilhado por conhecer mais esta maravilha da humanidade. E tenho que dizer que essa sim merece o titulo. A noite conhecemos nossa nova companheira de quarto. Rona e uma alema que estava a seis meses dando aulas de ingles na China. Ela estava passando os seus ultimos dias na China em Pequim fazendo compras pra levar presentes para todo mundo na Alemanha. Entao, de dez em dez minutos ela arrumava alguma coisa para deixar pra tras pra comprar mais porcaria. Uma hora era desodorante, a outra era meias, livros, enfim, qualquer coisa que ela julgasse nao precisar, ela deixou pra tras na briga por espaco para comprar mais porcaria.
Como comprar na China e parte do passeio aproveitei meu ultimo dia em Beijing para acompanhar Rona em sua furia consumista. E bem divertido ver como o preco comeca em 500 e acaba em 50 na maioria das vezes. E nao tem como comprar bem sem tirar algum tempo para barganhar. No final das contas, depois de discussao e pelo menos meia hora de negociacao, todo mundo acaba amigo. Dei um pulo na estacao de trem para tentar tickets para os outros destinos que eu queria visitar na China, mas nao consegui. Pensei um pouco e decidi que o dia seguinte, era o dia de seguir em frente. Me despedi de meus amigos a noite no hostel e no dia seguinte acordei cedo para tentar ir a Hong Kong para renovar meu visto. Fui pro aeroporto e, depois de ver o preco abusivo da passagem para Hong Kong, decidi voar para Shenzhen, uma cidade proxima a fronteira para cruzar a fronteira por terra. Muito facil. Cheguei no aeroporto e um onibus levava direto para Hong Kong. Cruzar a fronteira foi outra moleza. No final da tarde, cheguei ao meu destino. Ao saltar do onibus fiquei espantado com a quantidade de indiano tentando vender terno e relogio falsificado. Infinitamente pior do que Bangkok. Mas o pior e que, como eu estava andando com a mochila nas costas, todos os indianos donos de hostels e guesthouses nao paravam de encher o saco querendo me arrastar para um ou outro buraco me prometendo todo tipo de desconto. E a surpresa maior foi quando eu cheguei no local que eu pretendia me hospedar. Nao existem palavras para descrever o buraco em que me hospedei (pelo menos, nao palavras que eu possa mencionar aqui). E o pior de tudo foi o preco, pois no Cambodia eu paguei menos de tres dolares por noite onde eu estava hospedado, mas em Hong Kong para ficar num buraco mais ou menos seguro eu paguei em torno de vinte dolares por noite. Ajustando o preco pro local, foi sem duvida o lugar mais caro em que fiquei ate agora, pois os lugares onde eu paguei um pouco mais na Europa eram infinitamente melhores.
A verdade e que para dormir eu tinha que dormir atravessado porque eu nao cabia no quarto que era basicamente a cama e um banheirinho que eu mal cabia dentro. Os arredores do hostel eram piores do que o local em si. Depois de deixar minha mochila no hostel, desci para comer alguma coisa e vi dois ingleses tentando se desvencilhar dos indianos que os cercavam. Eu ri e falei que tinha acabado de passar pela mesma situacao e um deles virou e me pediu ajuda. Entao os levei para o mesmo lugar em que eu estava que, por pior que fosse, era indicado na internet como um lugar seguro. E conheci Connor e Adam, dois londrinos que estavam aproveitando os ultimos dias de sua viagem de cinco meses para conhecer Hong Kong.
No dia seguinte, acordei cedo e fui resolver o visto. Cheguei no escritorio de um chinesinho que dizia se chamar Mister Fred e ele me prometeu que resolveria em cinco horas meu visto. Fui me encontrar com Connor e Adam e fomos conhecer um pouco de Hong Kong. Hong Kong e formado pela ilha Lantau, um pedaco da China continental e a ilha Hong Kong propriamente dita. Fomos para a ilha Hong Kong e demos um pulo no Stanley Market. Nada demais, especialmente pra quem veio da China no dia anterior. Andamos um pouco pela cidade e tiramos uma foto com os predios e ainda tentamos subir no VIctoria Peak que e o monte mais alto do territorio de Hong Kong, mas a longa fila nao permitiu. Passei no Mister Fred e peguei meu passaporte com o visto e tudo mais sem problemas e segui para o hostel. A noite, marquei de encontrar com Simon, amigo do australiano mais brasileiro que ja existiu, meu amigo Colin Olivieri. Simon mora em Hong Kong faz algum tempo e foi super legal em mostrar um pouco da noite de Hong Kong e dos diversos bares. Depois de alguns drinks tive que voltar antes de meia noite e meia ou perdia o ultimo metro e la fui eu de volta pro buraco onde eu estava hospedado. Acordei no dia seguinte, decidido a ir embora de Hong Kong e nao pensei duas vezes. Acordei arrumei tudo, tomei cafe e parti em direcao a estacao de trem. De la peguei um trem para Guangzhou, ja em territorio chines. Duas horinhas depois cheguei em Guangzhou. Comecei a procurar um onibus pra me levar pro aeroporto e tentei pedir ajuda para um cara que trabalhava na estacao de trem e ele ao inves de me ajudar so queria tirar foto comigo. No final das contas, apareceu uma menina que falava um pouquinho de ingles e me indicou o local onde pegar o onibus. Comprei um ticket pra Chengdu, terra dos pandas. Meu aviao atrasou quatro horas e quando cheguei na cidade ja eram quase meia-noite. Nem preciso falar que se eu tivesse vinte centimetros a menos de estatura o aviao ja ia ser apertado, mas no meu caso simplesmente nao cabia. Gracas a um comissario de bordo super gente boa, sentei proximo a saida de emergencia e tive o voo mais confortavel da minha vida.
Ao chegar em Chengdu, peguei o primeiro onibus para a cidade e ao chegar no ponto final me senti de volta a Tailandia. Uma quantidade imensa de taxis e tuk-tuks esperavam os onibus pararem para abordar os turistas em busca de passageiros. Uma vez que eu tinha passado o dia sem me preocupar muito com mapa e direcao, achei que estava na hora de me perder um pouco pela cidade e resolvi ir andando. Uma hora depois, cheguei no hostel. Entrei no quarto e lembrei que era sabado a noite depois que entrei no quarto e vi que apesar de todas as camas estarem ocupadas, nao havia ninguem dentro. Ja estava me preparando para dormir quando meus companheiros de quarto chegaram. Lucky, Wig e Brisk. Esses eram os nomes ocidentais dos meus tres novos amigos chineses. Com eles conheci Christos, um grego que tambem esta viajando pela China. Conversamos um pouco e fomos dormir.
Acordamos no dia seguinte e fomos todos juntos ao Wen Shu Temple. Coincidentemente, o dia era de festa e o templo estava lotado, pois era o ultimo dia das celebracoes do ano novo chines. Sem duvida foram os chineses mais divertidos que conheci ate entao, mas infelizmente, eles estavam todos indo embora. Do nosso grupo, so Christos e eu ficamos em Chengdu. Eu e Christos ficamos sabendo que era dia de hot pot no hostel. E la conhecemos Jesper e Majbritt, um casal dinamarques que esta viajando faz cinco meses. Eles comecaram a viagem deles pela America do Sul e, ate agora, o lugar preferido deles de todos pelos quais passaram e o Rio de Janeiro. Fomos juntos ver a celebracao incendiaria do fim do festival que marca as comemoracoes do ano novo chines. Como ultimo ritual do ano novo chines, todo mundo vai pra rua e solta um balao e faz um pedido. Entao fizemos nossa parte para incendiar a China (como se eles precisassem de ajuda com mais de 1,3 bilhoes de pessoas) e cada um soltou um balao e fez seu respectivo pedido. Em seguida, convenci meus novos amigos a comer cana de acucar, explicando para eles que nao era bambu por mais que parecesse e voltamos para o hostel. Fim do passeio, marquei de no dia seguinte ir conhecer o centro de pesquisa dos ursos pandas que fica proximo a Chengdu. Mas isso e estoria pra outro momento...

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