Wednesday, March 31, 2010

Diario de Bordo XXII: Goodbye China.






Me despedir de Majbritt e Jesper nao foi nada facil. Nao so eu estava sem meus amigos com quem viajei por vinte dias, eu tambem nao tinha previsao de quando eu teria condicoes de seguir rumo ao Tibet. No hostel, comecei a bater papo com um cara super simpatico, meu amigo Shouli. Nascido em Bangladesh, ele conhece algo em torno de cinquenta paises. So na China, ele ja foi mais de vinte vezes. Jogamos um pouco de sinuca e almocamos juntos. Por conhecer todas as alternativas mais baratas de Beijing, o Shouli e otima companhia para rodar pela cidade. A noite, sai com dois ingleses e um suico que estavam hospedados no hostel, mas a ausencia de Majbritt e Jesper pesou e logo regressei para o hostel.
Novo dia, mais alguns jogos de sinuca com meu amigo Shouli ainda na espera da reabertura do escritorio que concede as permissoes para o Tibet e nada. Jogando sinuca no hostel conheci um grupo de quatro dinamarqueses que tinha chegado no dia anterior a China. Eles pegaram o transiberiano e pararam por alguns dias na Mongolia ate chegarem a Beijing. Eles me convidaram para celebrar o aniversario de um deles a noite. Quando comecamos a conversar sobre o lugar por onde eles passaram os comentarios eram sempre muito parecidos. Eles sempre seguiam a mesma linha de pensamento: "Russia: muito legal e descobrimos uma vodka baratinha." "Mongolia: interessante e a vodka era muito boa." Tres suecos se juntaram a nos e la fomos para a Bar Street. Um dos suecos queria fazer o estilo durao, falando pouco e fazendo cara de serio, mas os dinamarqueses acabaram com a mascara quando o apelidaram Mister Cage, por sua semelhanca com o ator Nicolas Cage. Paramos por uma hora num bar e depois seguimos para uma boate chamada White Rabbit. E foi la que conheci Nicole, uma romena nascida na Transilvania. Curiosamente, enquanto a maioria das pessoas quando fala de Leste Europeu lembra de Republica Tcheca e Hungria, eu sempre lembro da Transilvania, pois tenho muito mais vontade conhecer o Castelo do Conde Dracula. Me parece mais interessante do que ver mais igreja e mais museu. Eu nao sabia nem qual era a capital da Romenia, mas nao tem problema porque ninguem sabe que a capital do Brasil e Brasilia mesmo. O idioma tambem e bem curioso, pois e o unico pais da regiao que possui idioma originado no latim. A Nicole esta morando em Beijing estudando chines desde agosto de 2009, o que, teoricamente, lhe deu tempo suficiente para ver todos os pontos turisticos da cidade pelo menos duas vezes, mas ela esta presa na rotina da faculdade. E aquele negocio de que sempre que a gente mora no lugar, acaba deixando para ver os pontos turisticos depois, quando ve. Eu mesmo, nao lembro quando foi a ultima vez que fui ao Pao de Acucar. Apesar de eu ja ter ido ao Temple of Heaven antes, eu tinha vontade de ver como seria aos domingos e la fui eu direto com minha nova amiga romena. Na volta ao hostel, mais uma resposta negativa quando perguntei sobre a possibilidade de ir ao Tibet. Ja me sentindo muito frustrado e de saco cheio de esperar, olhei um mapa subindo as escadas do hostel e ali decidi que minha nova parada seria nada mais, nada menos que a Mongolia. Nao e muito longe de Beijing, nem e um pais caro, entao, por que nao? Eu ja havia pensado nessa possibilidade antes, mas dado que estava no meio do inverno, desconsiderei na hora. Mas como ja estamos no fim do inverno e ate Beijing ja estava tendo alguns dias mais quentes, resolvi que essa seria a proximo parada.
Aprovitei a ajuda do meu amigo Shouli que me levou ate o consulado da Mongolia e dei entrada no pedido do visto. Caminhamos de volta ao hostel e ao ligar o computador decidi dar uma olhada para ver o que esperar do clima de Ulaanbatar. Uma rapida olhada me tranquilizou quando vi que a temperatura estava muito proxima a de Beijing: em torno de 11C. No entanto, uma olhada mais minuciosa indicou que os 11C de Ulaanbatar vinham acompanhados de um sinal de menos na frente. Hora de me preparar para mais frio. A noite, por falta de coisas para ver em Beijing, fui ao cinema. No dia seguinte, Shouli estava de partida para seguir suas viagens. Dei um abraco no meu amigo de Bangladesh e depois de tanto jogar sinuca com ele eu ja estava ganhando praticamente todos os jogos. Aprendi cedo que sinuca e um jogo de estrategia e ajuda muito de seu oponente e um cara de Bangladesh de 1,60m. E so fazer o possivel para que a bola branca pare no meio da mesa. Para ele ja era dificuldade suficiente acertar a bola de forma decente. Mais uma despedida. Fui encontrar minha amiga Nicole e eu nao sei exatamente porque achei que a ideia dela de ir patinar no gelo seria uma boa. Ao chegar, caiu a ficha que patinar no gelo nao e tao simples quando parece e ia ser muito mais divertido para todos os chineses me olhando cair do que para mim. Mas como eu ja estava la, ainda havia a esperanca de nao terem patins para o meu pe e eu mandar o tradicional "Aaaahhh, que pena! Eu queria tanto tentar, mas ja que eles nao tem meu numero..." com a cara mais lavada do mundo. E foi exatamente o que aconteceu no primeiro momento, mas ai um chinesinho fala com o outro chinesinho que fala com o outro chinesinho e surge um patins gigante cheio de teia de aranha e poeira e, para o meu desespero, serve perfeitamente no meu pe. Essa e uma experiencia que antes de comecar ja e frustrante, pois enquanto eu nao conseguia ficar em pe nos patins fora do gelo, os chinesinhos faziam piruetas no gelo com uma naturalidade fora do normal. Mas ate que eu nao fui tao mal. Eu nao cai nenhuma vez em todo o tempo que estive no gelo e meu segredo para isso e uma estrategia muito simples: sempre que eu perdia o equilibrio me agarrava a qualquer coisa que eu alcancasse. Azar o da Nicole que acabou o dia com o braco roxo.
Novo dia, fui comprar meu bilhete de trem para Ulaanbatar. Resolvi pegar o primeiro trecho do transiberiano ate Ulaanbatar e de la decidir o que fazer. So tinham trens disponiveis para a semana seguinte. Com isso acabei ficando quase mais uma semana inteira em Beijing. Aproveitei a companhia de minha amoga romena e conheci mais alguns romenos que estao estudando na China e alguns outros estrangeiros que estavam na mesma faculdade que ela. O campus da faculdade e sensacional e fiquei surpreso com a quantidade de quadras de basquete, todas sempre ocupadas por milhares de chineses. Eu bem que pretendia bater uma bola, mas o frio nao me permitia. Fui mais uma vez no Jingshan Park com a Nicole que nao conhecia o local, em alguns mercados tradicionais, saimos com diversos estrangeiros que estudam chines na mesma faculdade que ela e com isso os dias foram passando e minha viagem se aproximando. Nesse periodo de espera, cortei meu cabelo na China pela terceira vez o que demonstra o quanto de tempo que eu passei na China. Mas uma coisa me incomodava em Beijing que era o fato de eu nao ter tido a sensacao de que era hora de ir, apesar da proximidade da viagem. E foi na minha penultima noite na cidade, quando fomos a um bar cheio de estrangeiros que senti que era hora de seguir em frente. Como sempre e uma mistura de tristeza por deixar amigos que fizeram parte de muitos momentos especiais para tras e alegria por comecar de novo.
No meu ultimo dia em Beijing, Eu e Nicole fomos no Silk Market comprar algumas coisas e jantamos com alguns amigos romenos dela.
No dia seguinte, acordei cedo e parti para a estacao. E hora de seguir viagem mais uma vez.

Tuesday, March 23, 2010

Diario de Bordo XXI: O melhor de todos os momentos






O trem para Beijing foi molezinha. Entramos no trem dormimos por umas seis horas e la estavamos nos em Beijing... as cinco horas da manha. Os onibus nao estavam circulando e o metro estava fechado, entao esperamos ate as seis da manha quando passou o primeiro onibus e la fomos nos enlatados com mais milhares de chineses no onibus totalmente abarrotado de gente. Chegamos no hostel e tivemos que botar o sono em dia. Dormimos por algumas horas e fomos conhecer o Olympic Green, area de competicoes das olimpiadas 2008. O estadio e bem bonito e o famoso cubo d'agua, area das competicoes de natacao tambem e legal, mas nada demais para quem esta acostumado com o belissimo, moderno e imponente Estadio Joao Havelange, vulgo Engenhao. Quem liga se o Usain Bolt quebrou o recorde mundial naquela pista? Pode ser bonito, mas nunca teve o privilegio de sediar um jogo com o Loco Abreu, Herrera e Caio jogando pelo Fogao.
Saimos do estadio e levei meus amigos para fazer umas comprinhas e deixar a Majbritt feliz e o Jesper desesperado.
No dia seguinte, sugeri que visitassemos o Summer Palace. Apesar de eu ja ter ido ao Summer Palace com meu amigo Manuel Chig, gostei muito do local e achei que valia mais uma visita. Realmente o dia estava muito bonito e foi uma otima ideia. A noite aproveitamos para nos juntar a alguns outros hospedes do hostel e fomos para uma boate. Otimo astral como sempre, mais uma noite bem divertida.
Eis que acordo no dia seguinte e ao abrir a janela para ver como estava o tempo como sempre e para minha surpresa vejo uma nevasca como eu nunca vi na minha vida. Claro que quem me conhece bem sabe que nao tenho muita experiencia com neve, mas era neve que nao acabava mais. Acordei meus amigos dinamarqueses e fomos logo para a rua, pois nao queria perder um espetaculo daqueles. Fomos direto para Tianamen Square e depois para a Cidade Proibida. E foi na Cidade Proibida que fiz meu primeiro boneco de neve. Quem pode dizer que fez um boneco de neve na Cidade Proibida? Eu! E depois de alguns minutos estava pronto meu primeiro boneco de neve prontamente batizado de Loco Abreu. Seguimos atraves da Cidade Proibida ate chegarmos ao Jingshan Park de onde tivemos a oportunidade de ver a bela vista da Cidade Proibida sob neve. Algumas bolas de neve depois, ja estavamos morrendo de frio. Tivemos que fugir para o hostel para esquentar e descansar.
Em Beijing eu ja havia visto tudo que eu queria ver pelo menos uma vez, so faltava o Temple of Heaven. E foi esse o programa escolhido para o dia anterior ao aniversario da Majbritt. Fomos pela manha para o Temple of Heaven que e um belissimo templo com um lindo parque ao redor. O melhor do parque e a vida social dos chineses que se amontoam no parque. Tem uma area com um monte de gente dancando, outra parte com o pessoal que gosta de cantar, nao podia faltar a turma do tai chi, alem das atividades tradicionais da China que nos dificilmente conseguimos imaginar ate vermos com nossos proprios olhos como uma roda de senhores e senhoras de mais de sessenta anos jogando altinha com uma peteca, badminton e o mais inexplicavel, algumas pessoas simplesmente esfregando as costas em arvores. Parece esquisito, mas e muito pior. E uma daquelas coisas que nao da para entender mesmo, entao nao vale nem a pena tentar. E interessante ver o quanto os chineses da terceira idade sao sociaveis e ativos. E como estao sempre alegres e sorrindo. Saimos do Temple of Heaven e fomos para o Silk Market para encontrar com Marie, uma francesa que estava vindo da Mongolia e estava no mesmo quarto que nos no hostel. Claro que a Majbritt ficou super animada com a possibilidade de ter uma outra representante do sexo feminino para acompanha-la na arte das compras. Mas, infelizmente, a Marie era pior que eu e Jesper e nao comprou nada. Nem olhar as coisas, ela olhava. A Majbritt comprou todas as tralhas dela e voltamos para o hostel. Mais tarde, fomos fazer compras de novo em uma rua que a Marie recomendou e ficou mais do que claro que ela nao segue o estilo classico do tradicional exemplar do sexo feminino, pois o lugar era pessimo para comprar qualquer coisa. Tanto que a Majbritt nao comprou nada. Eu e Jesper nos perdemos intencionalmente porque eu queria comprar uma lembranca para a Majbritt e ele acabou me contando a surpresa que estava planejando para o aniversario dela.
Acabadas as compras, nos depedimos de Marie que estava pegando o voo no dia seguinte para Bangkok e nos encontramos com Megan, uma americana que conheci em Shanghai. Ela estava acabando os estudos de medicina chinesa em uma cidade proxima a Chengdu e tinha ido junto com seus outros colegas de classe para Beijing para poder pegar o voo de volta para casa, mas nao sem antes ver a Cidade Proibida, a Muralha, alem dos outros pontos turisticos de Beijing, e claro.
O novo dia amanheceu com um tempo maravilhoso sem nenhuma nuvem no ceu. Demos os parabens para Majbritt e dei para ela de presente um panda de pelucia que ela adorou. Alem do panda ser um animal simbolo da China, foi na cidade onde fica o centro de pesquisa dos pandas que nos conhecemos e a visita ao centro foi um dos nossos primeiros passeios juntos. Tomamos cafe no hostel e decidimos que apesar de estarmos saindo um pouco tarde do hostel decidimos que fariamos a caminhada de dez quilometros na muralha entre Jishanling e Simatai. Direto para a estacao de onibus para pegar um onibus que levou em torno de uma hora e meia ate uma cidade chamada Miyun onde pegamos um taxi que nos levaria ate a Muralha. Chegamos na muralha e ficamos meio receosos com relacao ao tempo, pois talvez nao tivessemos tempo para voltar para Beijing no mesmo dia, mas decidimos seguir ate Simatai de qualquer forma. E foi ali que realizei mais um sonho: ver a muralha com neve.
Comecamos a caminhada e chegamos a encontrar alguns turistas, mas nao muitos. Depois de uma hora de caminhada, as unicas pessoas que encontramos foram tres vendedores de bebidas e souvenirs. Quanto mais subiamos mais bonita ficava a paisagem. Quando a aniversariante do dia, achava que nao podia ficar melhor, eis que atingimos o ponto mais alto daquela parte da muralha e meu amigo Jesper ajoelhou e pediu a mao dela em casamento. E la estava eu como a unica testemunha do momento mais importante da vida de meus dois amigos. O sim que veio como resposta coroou o momento mais incrivel da minha viagem. Dificil de imaginar o que pode ser mais sensacional do que isso. Continuamos nossa caminhada em direcao a Simataia e quando chegamos no final da muralha, o certo seria que pagassemos outro ticket, mas estava tao vazio que nao tinha ninguem para cobrar. Encontramos nosso motorista e fomos pegar nosso onibus de volta para Beijing. Deu tudo tao certo no dia que, ao chegarmos na estacao, o ultimo onibus estava saindo. Jantamos no Pizza Hut a pedido da aniversariante e depois fomos dar uma volta para beber alguma coisa e nos despedir da Megan, pois no dia seguinte ela ia voltar pros EUA. Para nao ser o dia perfeito, fui avisado no hostel que minha viagem para o Tibet havia sido cancelada, pois o governo chines cancelou todas as permissoes para estrangeiros para acessar a area ate segunda ordem.
Como o dia anterior tinha sido longo e intenso, acordamos com a intencao de dar mais uma volta na cidade e fazer as compras de tudo que Jesper e Majbritt pretendiam levar para casa, mas estavamos tao cansados que depois de algumas horas desistimos e voltamos para o hostel para dormir um pouco.
Mas o dia seguinte era o ultimo de Jesper e Majbritt na China, entao era a ultima oportunidade de comprar toda a tralha que eles queriam. E como compraram!! Sapato, calca jeans, camiseta, kimono, cha, souvernir e todo tipo de porcaria que e feito na China e custa pelo menos dez vezes mais na Dinamarca. Foram oito horas de compras e negociacoes totalmente irracionais. Parece piada, mas na maior parte dos casos nos acabamos pagando 10% do preco inicial pedido pelo vendedor. Basta tirar o tempo necessario e manter o bom humor e tudo e possivel. Acabamos o dia exaustos e carregando mais de dez quilos de compras. Era coisa que nao acabava mais.
E entao chegou o dia mais triste da minha viagem, o dia de dar adeus a Majbritt e Jesper. Por vinte dias nos fizemos tudo juntos e eu fui a unica testemunha de um dos momentos mais importantes da vida dos dois. Nos aproximamos tanto que parecia que estavamos viajando juntos por meses. Nesse periodo, desenvolvemos habitos que passaram a fazer parte de nosso dia-a-dia. Coisas como quando o Jesper que sempre tomava conta dos bilhetes de trem e onibus se perdia nos bolsos do casaco e eu e Majbritt desatavamos a rir, ou quando a Majbritt tomava a frente e conseguia o quarto de hotel mais barato da cidade (algumas vezes sem agua quente), ou quando eu ja estava de saco cheio do onibus ou trem e virava para atormentar eles dois. Por essas e por outras que eu acho que viajar junto com alguem e uma das experiencias mais dificeis que existem. E e por isso que, na maior parte das vezes, eu segui em frente deixando pessoas que eu gostava para tras. Mas com esses dois foi totalmente diferente. Tanto foi diferente que na noite anterior a despedida, eles foram dormir e eu passei horas de frente pro computador olhando para uma passagem de ida para Dinamarca. Pensei por horas e no final das contas e conclui que nao era a melhor decisao por mais que eu quisesse muito acompanhar os dois, pois eles estavam cansados e prontos para voltar para casa. Eu ainda tenho lugares para conhecer. Eu tenho certeza que vou reecontra-los, mas ainda vai demorar um pouco. Mas sem sombra de duvida, esse e um casamento que eu tenho que estar presente.
Enfim, apos acordar, caminhei com meus amigos ate a estacao do trem expresso para o aeroporto e la nos despedimos. Foi dificil, mas e hora de seguir em frente.

Friday, March 12, 2010

Diario de Bordo XX: Pandas, os mais belos lagos e, acreditem ou nao, mais uma viagem em pe num trem chines






Dia de visitar os pandas. E quem nao adora os pandas? Preguicosos e adoraveis (muito mais preguicosos do que adoraveis...). O centro de pesquisa e o lar de duas especies de pandas: o panda vermelho e o panda gigante. O panda gigante e o tradicional ursinho preto e branco que todos conhecemos. Eu tenho que confessar que esperava que os pandas gigantes fossem maiores, mas eles so sao gigantes em relacao a outra especia de panda que e bem pequena. Os pandas adultos chegam em media a 70 kg, o que nao e muito para um urso e nao e o suficiente para meter medo em ninguem. Os pandas adultos passam o dia comendo bambu e descansando. Pra piorar ainda mais a situacao, os chineses adoram carne de panda (assim como adoram carne de porco, de vaca, de peixe, de cachorro, ...). Juntando todas essas informacoes nao e de espantar que atualmente tenhamos algo em torno de 1500 pandas em todo mundo. Eles chegam a passar dezesseis horas por dia comendo bambu. Haja fome! Os bebes sao o ponto alto da visita, pois alem de comer e dormir, eles brincam bastante e sao bem mais ativos que os adultos.
Ja o panda vermelho nem esta tao ameacado de extincao e nem e tao adoravel. O bicho mais parece um gamba. Ele e um pouco mais ativo e no tempo em que estivemos la, vimos algumas brigas entre eles. Pra fechar o passeio, uma visita ao museu do panda que parece ter um orcamento bem baixo. Como comecamos bem cedo e nao encontramos nenhum lugar onde pudessemos tomar um cafe por la, depois do panda vermelho ja estavamos morrendo de fome, entao apressamos um pouco nosso guia chines para nos levar de volta pra almocar o quanto antes. Mas foi so sair do parque para cairmos num engarrafamento daqueles. Apos mais de uma hora de engarrafamento demos de cara com o restaurante proximo ao hostel onde eu havia comido com o Christos e la fomos nos. Meus amigos dinamarqueses queriam comprar o bilhete para seguir para Jiuzhaigou no dia seguinte e eu queria ir de volta para Xian. Fomos na estacao de onibus comprar o ticket e nao encontrei nenhum disponivel para os proximos tres dias, o que significaria tres dias em Chengdu sem ver muita coisa nova. Mas haviam diversos tickets para Jiuzhaigou, entao nao pensei duas vezes e comprei um pra mim tambem. Afinal, Jiuzhaigou e na direcao de Xian e e melhor conhecer um lugar diferente do que ficar ilhado.
A noite, Jepser e Majbritt foram assistir a uma opera chinesa, mas isso ja era demais para mim. Eu e Christos pedimos para as meninas da recepcao que nos indicassem algum mercado chines porque ele estava querendo comprar um casaco e la fomos nos. Perdemos o ponto do onibus e tivemos que nos virar para chegar. Chegando no local indicado, vimos de cara que a menina da recepcao do hostel nao tem muita nocao do que e trabalhar num hostel, pois batemos de cara com uma Louis Vitton. Olhamos por cinco minutos as lojas e acabamos no Pizza Hut onde matei minha vontade de pizza. Me despedi do meu amigo grego e me preparei para o dia seguinte.
Novo dia, de volta para a estrada. Acordamos cedo e fomos para a estacao de onibus. Eu tenho que confessar que ja tinha esquecido como e viajar de onibus na China. E tambem tenho que confessar que nao sinto saudade nenhuma dos bancos apertados e dos motoristas buzindo a cada vinte segundos. Apesar da companhia super agradavel dos meus amigos dinamarqueses, passada cinco horas com o motorista buzinando com a frequencia com que buzinava eu ja estava de saco cheio. No caminho, fiquei sabendo que a area para onde estavamos indo foi a mais afetada pelo terremoto que atingiu a provincia de Sichuan em 2005. O onibus so fazia subir e de repente, olhei pro lado e fiquei surpreso ao ver pequenas cachoeiras congeladas e neve por todo lado. A paisagem era deslumbrante. Passamos pela parte coberta de neve e descemos um pouco para chegar na cidade. Cinco minutos depois de chegarmos todo mundo que estava no onibus sumiu e so sobramos nos. A cidade totalmente deserta. Hoteis gigantes fechados sem nenhum hospede, estacionamentos vazios e dois estacionamentos abarrotados de onibus todos parados. Ficou claro que a cidade nao funciona no inverno. A Majbritt encontrou um hotel com preco muito bom onde eramos os unicos hospedes. So um detalhe que logo descobrimos e que como eles nao tinham hospedes, eles nao ligaram o boiler e nao tinhamos agua quente. E foi assim que tomei o banho mais gelado da minha vida. Eu e Majbritt fomos comer enquanto o Jesper tirava um cochilo, pois estava um pouco resfriado.
Na manha seguinte, meus amigos ja estavam comecando a se desculpar por ter me convencido a seguir viagem com eles. A cidade estava totalmente deserta, um frio de rachar e nao conseguiamos nos comunicar com ninguem para comprar o bilhete do onibus para sair de la. Chegamos na bilheteria do parque e ficamos surpresos com o valor do ingresso, mas por sorte minha carteira de motorista passa por carteira de estudante na Asia e eu paguei meia entrada. Entramos no parque sem grandes expectativas. O parque estava relativamente vazio. De repente, quando o onibus comeca a subir nos deparamos com um lago azulado transparente com belissimas montanhas ao fundo. E foi so o primeiro de varios lagos incrivelmente belos que desaguavam em cachoeiras incriveis. Sem sombra de duvida o lugar mais bonito que vi ate agora. A beleza do local e inacreditavel. Passamos por diversos lagos e justo quando achavamos que nao tinhamos mais condicoes de ser surpreendidos, chegamos a um dos pontos mais altos do parque e, entre as montanhas cobertas de neve, um gigantesco lago congelado. E la ficamos por alguns momentos admirando uma das paisagens mais belas que vi em toda minha vida. Ate o frio parou de incomodar. E claro que Jesper e Majbritt mudaram do classico "foi mal" para o "te falei que era a boa". Mas eles estavam com credito.
A visita foi sensacional, mas o dia seguinte era de pe na estrada novamente. Com a ajuda da moca do balcao de informacoes conseguimos arrumar transporte para a cidade e comprar o bilhete para Guangyuan. Por Guangyuan passa a ferrovia que leva para Xian. La tambem sao fabricadas as bombas nucleares chinesas. Mas antes de chegar a Guangyuan, tinhamos que encarar uma viagem de onibus de mais de dez horas. Como se nao bastasse, apos seis horas de viagem: BUM! Pneu furado no meio do nada. Para melhorar, e claro, nosso onibus nao tinha step. Para coroar o momento, nosso motorista e a moca que trabalhava com ele comecaram a lavar o onibus para se manter ocupados. E la ficamos nos esperando por quase uma hora ate surgir uma alma para nos ajudar. E la surgiu um mecanico numa motocicleta que consertou nosso pneu e seguimos viagem. Chegando a nosso destino, fomos direto tentar comprar um bilhete de trem para seguir na mesma hora para Xian e nada. Fomos tentar uma passagem de onibus e nada. Na verdade, por conta da neve, nenhum onibus estava indo para Xian nos proximos dois dias. Corremos de volta para a estacao de trem e conseguimos tres bilhetes para Xian para o dia seguinte... em pe... Entao se alguem perguntar quem e o idiota que enfrentou os tres chineses em pe duas vezes em menos de duas semanas, pode falar meu nome.
Nosso trem so saia a noite e tinhamos um dia inteiro pela frente em Guangyuan. Nada para fazer, a Majbritt perguntou se alguem tinha alguma ideia e como nao tinhamos ela sugeriu que cortassemos o cabelo. Passamos boa parte do dia cortando o cabelo, principalmente porque ela decidiu pintar o cabelo e levou um tempao. Terminado os cortes fomos para a estacao para encarar nossa nova odisseia. Como a cidade nao e um destino comum, tres ocidentais chamam bastante atencao no meio dos chineses. Estavamos tentando descobrir que horas saia nosso trem e nada. Eis que surge um soldado que falava algum ingles e nos pede para passar na frente de todo mundo e nos deu um sonoro "Bem vindo a China". Majbritt e Jesper ficaram todos felizes com a impressao de que "essa experiencia nao vai ser tao ruim assim". Mas eu ja sabia o que estava por vir. E foi so abrir a porta do trem e as pessoas comecarem a chutar lixo para fora que eles perceberam que a experiencia ia ser muito pior do que eles imaginavam. So que dessa vez foi muito mais tranquilo do que da vez anterior e a viagem foi mais curta. Foi uma experiencia um tanto divertida e ate fizemos alguns amigos. Passadas sete horas de viagem, eu ja nao aguentava tentar dormir e me diverti tirando fotos das pessoas amontoadas dormindo nas posicoes mais esquisitas possiveis. Chegando em Xian fomos tomar cafe no McDonalds e descansar. Apos acordarmos conhecemos Richard, um britanico muito gente boa que esta tentando arrumar um emprego dando aula de ingles em Xian. E mais tarde seguimos juntos para a noite de Xian. Tudo corria bem, ate meus amigos conhecerem dois outros dinamarqueses. Um deles dar em cima da Majbritt e todo mundo ficar irritado e acabar com a noite por ali. Mas mesmo assim foi uma noite super legal.
Novo dia, novas atracoes, fomos a Torre do Sino e a Torre do Tambor. Nada demais, mas valeu pela boa companhia.
No dia seguinte, Majbritt e Jesper foram visitar minha maior decepcao ate o momento: os guerreiros de terracota. E eu aproveitei para dormir ate mais tarde um pouco. Quando eles voltaram, fomos dar uma volta pelo Muslim Quarter que e a area dos muculmanos na cidade e onde a Majbritt aproveitou para exercitar sua feminilidade fazendo compras.
No dia seguinte, nosso trem so saia a noite e tiramos o dia para conhecer o famoso museu de Xian, mas tanto eu quanto meus amigos dinamarqueses ja estamos viajando faz tempo e os museus ja nao causam mais tanto impacto. Muito melhor que o museu foi nossa pedalada pelas muralhas de Xian.
Para fechar com chave de ouro nossa estada em Xian, fomos jantar juntos com alguns outros hospedes do hostel em um restaurantezinho local e corremos para a estacao de trem para seguir para Datong.
Datong e uma pequena cidade (so tem um milhao de habitantes...). o grande atrativo da cidade e que fica no caminho para Beijing e tem nas imediacoes algumas ruinas da Muralha da China e o Hanging Temple que e um templo que fica pendurado num penhasco.
Mais uma cidade em que ninguem fala ingles direito, mais uma luta pra conseguir um quarto de hotel, mas no final valeu a pena. Bom preco e hotel bem localizado.
Dia seguinte, dia de ver o Hanging Temple e a muralha. Procuramos pela cidade ate que encontramos um motorista de taxi chamado Wang. Ele era o unico que falava algum ingles. Depois da Majbritt praticar um de seus esportes prediletos que e barganhar por um ou dois dolares por mais de vinte minutos conseguimos chegar no preco que queriamos (claro, o preco que ela queria!) e la fomos nos. Nosso motorista era extremente zeloso com seu instrumento de trabalho a ponto de ser inconveniente. Ele queria que a gente limpasse o pe sempre que entrasse no carro. E toda vez que ele parava para nos esperar ficava o tempo todo limpando o carro. Quando o conhecemos, todos os motoristas estavam batendo papo e la estava ele limpando o carro. Me lembrou bastante do meu avo.
Enfim, quarenta e cinco minutos e chegamos ao impressionante Hanging Temple. Mais impressionante que ve-lo de longe e entrar no templo e ver a espessura das estacas de madeira que o sustentam. Foi um passeio que valeu muito a pena. No caminho, o Jesper mencionou que algumas pessoas ainda moravam em cavernas naquela area. Ouvindo isso, nosso guia, Mr Wang, nos levou para conhecer o ultimo dos moradores das cavernas da regiao. Um senhor muito simpatico de 78 anos de idade que e o ultimo remanescente de um estilo de vida extinto na regiao. Vira e mexe, ele aparece em alguma materia de jornal e adora receber os turistas para mostrar o interior de sua casa. Ficamos encantados com a simpatia e com a vitalidade de nosso anfitriao. Nos despedimos e seguimos para ver a muralha. Nos ja estavamos preparados para o que viria, pois ja haviamos lido que a muralha naquela regiao havia sido destruida pelos fazendeiros da regiao e que somente poderiamos ver a parte central da muralha que era composta de barro. Chegamos la e nosso querido guia parou a quase quinhentos metros do local falando que nao poderia seguir em frente porque seu carro nao poderia atravessar as pocas. Comecamos nossa caminhada e nem sinal de muralha. Eis que encontramos alguns senhores que viviam em casas de barro e de alguma forma descobrimos que a muralha, ou os restos dela, era exatamente onde as casas da vila estavam escoradas. Mais uma demonstracao de simpatia sem precedentes, um deles nos levou ate o topo da muralha e com o meu chines que se limita termos como "arroz", "quanto custa?", 1, 2, 3, 4, 5 e algumas outras frases nos explicou por onde a muralha passava e que aquela parte da muralha separava China e Mongolia nos tempos antigos. Ficamos ainda mais encantados com a simpatia e hospitalidade dos chineses e, apesar da decepcao com a muralha, saimos muito satisfeitos com a experiencia.
Minha experiencia chinesa tem sido muito peculiar. Na maioria dos lugares que eu fui, eu gostei ou odiei de cara, mas aqui eu cheguei e inicialmente nao me impressionei. Com o passar do tempo, ao conhecer as pessoas e passar pelas situacoes mais inusitadas, eu passei a adorar a China.
De volta a cidade, seguimos para a cidade e descansamos um pouco antes de pegarmos nosso trem e seguirmos a noite para Beijing. E adivinha so o que eu quero fazer la? Ver a muralha? De novo? Claro!

Saturday, March 6, 2010

Diario de Bordo XIX: Inferno no trem no caminho para conhecer uma verdadeira maravilha






Dezoito horinhas no trem, molezinha. Chego em Xian por volta das sete horas da manha e vou direto comprar meu bilhete para Pequim. Viajar na epoca do ano novo chines e o equivalente a viajar para a regiao dos lagos no carnaval, so que mil vezes pior. Para os proximos tres dias so havia um bilhete disponivel no dia 19 como eu queria as oito e meia da noite. Ate ai perfeito. O problema e que era um bilhete para viajar de pe. Como a estacao estava lotada e tinha um monte de chines gritando de tudo que e lado eu comprei o bilhete e seja o que Deus quiser. Atravessei a rua da estacao e fui direto no Mcdonalds comer panqueca de cafe da manha. Enquanto esperava na fila, surge um ingles com a cara mais amassada que a minha perguntando se alguem sabia como chegar na famosa Bell Tower que e o ponto central de Xian e foi ai que conheci Chris, um londrino que veio de trem de Londres ate Xian. Ele atravessou a Russia de trem e chegou a pegar temperaturas de menos trinta graus e viagens de mais de setenta horas direto sem sair do trem. Comi minhas panquecas e la fui eu e o Chris procurar a Bell Tower. Depois de uma hora caminhando achamos o hostel dele e em seguida o meu. Apesar do cansaco, a ansiedade para ver os guerreiros de terracota era maior e o plano era deixar as malas nos respectivos hostels e seguir para ver os guerreiros direto. Cheguei no meu hostel e conheci Aaron, um americano que trabalha dando aulas de ingles na Coreia do Sul e que se juntou a nos.
Seguimos para a estacao de onibus e meia hora depois saltamos do onibus e caminhamos uns dez minutos ate a entrada para descobrir que o local que vende o bilhete de entrada ficava proximo de onde saltamos do onibus. Na minha cabeca nao faz sentido nenhum, mas fazer o que? A China tem dessas coisas.Voltamos compramos as entradas e ainda contratamos uma chinesinha chamada Linda para ser nossa guia. Rodamos por algumas horas para ver os guerreiros e minha avaliacao da atracao e de que e extremamente decepcionante. A verdade e que eu criei uma expectativa muito grande, mas nao da pra exigir muito de um monte de boneco de barro. Pra piorar os chineses ainda gostam de falar que e a oitava maravilha do mundo. Forcacao de barra ao extremo.
Os chineses criaram um monte de coisa em torno dos guerreiros e o coroa que os encontrou enquanto escavava um poco fica la na lojinha de souvenir dando autografo. Na minha sincera opiniao e como pedir autografo para alguem que ganhou na loteria. Seguimos de la para a estacao de trem onde Chris e Aron tinham que comprar seus respectivos tickets. O Aaron conseguiu comprar o dele, mas o Chris teve que ir de aviao mesmo, pois nem assento em pe tinha disponivel. Comemos numa birosca local proxima a estacao de trem e voltamos para dormir.
Novo dia, novas atracoes. Comecamos a andar pela cidade e a ver alguns dos pontos turisticos. Vimos a Bell Tower, a Great Mosque, andamos pelas muralhas da cidade e fomos em direcao a um museu um pouco afastado da parte central da cidade. O que achamos que seria uma caminhada de trinta minutos se transformou numa longa caminhada de mais de duas horas. Quando chegamos, claro, o museu estava fechado, mas ainda vimos a grande pagoda que e outro simbolo de Xian. Na volta, todo mundo cansado de caminhar e a decisao de pegar um taxi foi unanime. Quando chegamos no hostel conhecemos Alex, um americano nascido na Russia que trabalhava na Microsoft. Ele ja esteve em tudo que e canto e acabava de voltar do Tibet. Ele correu o Mongol Rally duas vezes. O Mongol Rally e uma competicao com um objetivo muito simples: dirigir de Londres ate Ulaanbatar na Mongolia. Pra complicar um pouquinho mais (como se precisasse!!) o carro escolhido tem que ser 1.0.. Nao tem premio, nem ninguem liga pra quem vence ou perde, o objetivo e se divertir e tentar consertar o carro em lugares esquisitos pelo caminho enquanto ele vai enguicando.
A cidade de Xian e famosa pelos guerreiros de terracota e tambem por uma boate chamada 1 plus 1. A boate e realmente incrivel. O numero de ambientes e os diferentes estilos de musica surpreendem. Quando eu ja tinha passado por dois ambientes diferentes e achei que ja era demais, atravessei uma porta procurando pelo banheiro e descobri outros ambientes ainda mais cheios de gente e com estilos de musica diferente. O grande problema e que a bebida era extremamente cara para os padroes chineses. Entao la estavamos eu, Chris, Aaron e Alex olhando e pensando em passar uma noite sem beber quando conhecemos Zhangbo. Zhangbo estava sentado numa mesa sozinho com um monte de bebida. Ele nos chamou e comecou a oferecer drinks sem parar e estavamos achando tudo muito estranho. E o cara nao parava de comprar bebida e nos oferecer. E nos estavamos cada vez mais desconfortaveis com a situacao achando que ia pintar um golpe a qualquer momento quando conhecemos um americano que da aula de ingles na China e fala mandarim fluentemente. Ele me explicou que isso e costume deles e que como nos eramos um dos poucos gringos no local eramos celebridades e, portanto, nao era de graca que ele estava fazendo aquilo. E por mais que nos pedissemos para ele parar de comprar bebida, ele nao parava. E no final das contas foi uma das noites mais baratas que eu tive desde que comecei minha viagem e ainda fiz um amigo chines.
Dia de partir, mas meu trem so saia as oito e meia da noite e eu tinha um dia inteiro pela frente. Meus amigos foram embora cedo, entao me juntei a Ana e Christiana, duas alemas que conheci no hostel. Caminhamos pela cidade e fomos a um museu com umas escrituras em pedra. Claro nenhum estava traduzido e seria uma grande perda de tempo se eu nao tivesse batido de frente com a traducao de alguns versos que diziam algo como: "E dificil ser inteligente, mas mais dificil ser simples. Ser inteligente e se tornar simples e ainda mais dificil. De um passo para tras e relaxe e voce encontrara paz no seu coracao, ao inves de recompensa no seu futuro." Como estava na minha hora de seguir para o hostel e acertar tudo para minha ida para Pequim, me despedi de minhas amigas alemas e fui caminhando para o hostel para pegar minhas coisas e seguir para a estacao de trem.
Peguei minhas coisas e parti para a pior experiencia que eu tive em toda minha vida. Desde sempre, eu lembro de escutar as pessoas falando do ano novo chines. E como o nosso natal em que todo mundo tenta estar em casa, proximo a familia. So que na China tem muito, mas muito mais gente. E gente que nao acaba mais. E eu bem que podia ter esperado dois dias e todo mundo ia estar de volta pra casa e eu poderia viajar sossegado, mas eu cismei que tinha que ir no dia tal e pronto. Como eu ja havia pego todo tipo de onibus e trem, eu imaginei que doze horas era bem tranquilo. Por mais que fosse em pe, eventualmente eu conseguiria sentar no chao e as doze horinhas iam passar voando. Mas para minha surpresa, a volta do ano novo chines nao e como eu imaginava, e infinitamente pior! A quantidade de pessoas tentando entrar na estacao ja foi um choque e eu levei mais de uma hora pra conseguir entrar. Chegando no hall de espera do trem, me senti num formigueiro. Mas o pior ainda estava por vir. Quando o bilhete diz em pe, e porque e em pe mesmo. Simplesmente nao ha espaco para nada. Eu nao consegui passar da entrada do vagao e fiquei proximo ao banheiro que tambem e a area de fumantes. E como os chineses fumam... E como eu sou um gigante aqui, eles fumam, a fumaca sobe e fica na altura da minha cabeca que passa bem perto do teto do vagao. Logo, enquanto cada um deles fuma um cigarro, eu fumo passivamente todos os cigaros do vagao. Teve gente que fumou durante as doze horas de viagem, logo eu tambem fumei. No comeco da viagem um atendente queria abrir a porta que liga dois vagoes, mas nao havia espaco e quando ele comecou a empurrar bateu a porta numa garota e o namorado dela comecou a brigar com o cara, a gritaria comecou, veio policia, um cara tirou uma foto, o policial ficou transtornado com a foto, foi pegar a camera do cara, nao tinha espaco pra ele passar, empurrou mais gente, um monte de gente mais a frente reclamou ainda mais. Isso foi so a primeira hora da viagem, depois chega a hora da musica. Musica e uma forma facil de passar o tempo. E aqui como e barato, todo mundo tem um tocador de mp3 qualquer. Mas a diferenca e que (e eu nao sei qual e a razao disso?), eles aqui simplesmente nao tem o habito de usar os fones de ouvido. Entao por um bom tempo da viagem convivemos com tres ou quatro musicas diferentes tocando ao mesmo tempo. Todas insuportaveis porque se tem uma coisa que os chineses sao pessimos e em musica. Pra se ter uma nocao, os Backstreet Boys ainda estao na moda aqui e vao dar um show em Pequim em marco. E eles ainda gostam de karaoke!
Eventualmente, chegou um ponto da viagem em que eu nao conseguia mais ficar em pe, especialmente com a quantidade de gente que tinha encostada em mim dormindo em pe. Entao simplesmente sentei na minha mochila, mas o trem era tao apertado que nao dava pra ficar sentado por muito tempo. Por sorte, eu escolhi o trem direto porque, se ele parasse em alguma estacao (qualquer estacao), eu ia pular fora com certeza. O banheiro foi logo ocupado por alguns caras e, independente do quanto batessem na porta, eles nao acordavam, entao acabou que eu nao fui no banheiro nenhuma vez. Pode parecer ruim o suficiente, mas ainda tem mais, afinal nao seria a China se nao tivesse a tradicional limpada de garganta, seguida pela escarrada. Para explicar melhor, eu preciso ilustrar a situacao. Estou eu andando na rua quando escuto aquela sonora pigarreada para limpar a gargante que mais parece alguem dando descarga numa privada seguida de uma sonora cusparada. Me viro pra olhar quem e o artista e e uma senhora relativamente bem vestida, ou uma adolescente com uniforme da escola, ou um homem bem vestido de terno e gravata. Aqui isso e costume e ao caminhar pelas ruas nos deparamos com essa situacao diversas vezes ao dia. Claro, que nao e porque eles estao no trem que eles vao deixar de cuspir, entao, por diversas vezes, as pessoas no trem davam aquelas escarrada caprichada no chao do vagao sem fazer a menor cerimonia.
Eu acho que um dos melhores momentos da minha vida foi quando o trem chegou a Pequim. Foram doze horas e trinta e dois minutos para nunca mais serem repetidos. Achar o hostel foi relativamente facil e logo entrei em contato com Chris, o canadense que conheci em Yangshuo e mora em Pequim. Fomos almocar juntos num lugar que ele escolheu. Um restaurante italiano que por acaso era muito bom, mas passei por mais uma situacao curiosa. Pedi uma pizza de mozzarela. Cinco minutos depois, me vem um garcom falar que nao tem pizza de mozzarela. Eu olhei o cardapio e tinha pizza de peperoni. Entao, na maior inocencia, perguntei se eu nao poderia pedir uma pizza de peperoni sem peperoni. Mais cinco minutos e me vem outro garcom dizer que nao. Fiquei com a pizza de peperoni, mas enjuriado com a falta de flexibilidade dos chineses. Essa e uma das situacoes que acontecem algumas vezes aqui que mais me frustram. Nao ha flexibilidade nenhuma. Eu nem tento mais.
Voltei para o hostel, dei uma cochilada e encontrei com o Chris para sair pela noite de Pequim. Como ele e local e boemio me levou para uns bares e boates muito bons. Conhecemos um monte de gente legal, nos divertimos bastante e fomos parar numa boate latina chamada Salud, mas no meio da noite eu ja nao me aguentava mais em pe e tive que partir para dormir.
No meu primeiro dia descansado em Pequim, acordei e de cara o Chris me mandou uma mensagem dizendo que estava sem condicoes e precisaria descansar, pois voltava a trabalhar no dia seguinte. Eis que na cama abaixo da minha, havia uma pessoa que eu ate cheguei a verificar para ver se estava respirando. Meu amigo mexicano Manoel Chig. Eu acho que ele e uma das pessoas mais impressionantes que eu conheci viajando. Manoel tem vinte anos de idade, quando tinha dezoito deixou o Mexico em busca de um sonho, aprender Kung Fu Shaolin. E la foi ele com a cara e com a coragem pro templo Shaolin. Falando apenas espanhol, ele comeu o pao que o diabo amassou e aprendeu ingles e chines. Hoje, ele estuda comercio internacional na China, em chines e claro. Pelas distancia entre os idiomas e dificil imaginar alguem fazendo isso, mas e bem possivel, mas o mais incrivel nao e isso. E quando andavamos na rua e ele trocava duas ou tres frases com alguem e eu percebia que era diferente do mandarim que estou acostumado a ouvir e perguntava qual idioma ele estava falando e ele me contava que teve um colega de quarto da Coreia do Sul e aprendeu algumas frases em coreano. Ele tambem consegue se comunicar com vietnamitas, aparentemente pelo mesmo motivo. Sabe um pouco de tailandes. Japones ele se vira, pois afinal namorou uma japonesa. Estavamos andando no parque um dia e ele me perguntou se eu sabia o que um cara tinha falado e eu falei que nao e ele me disse o que era, quando eu perguntei qual idioma que era aquele, ele me disse que era russo (!!!). Nem preciso dizer que depois de uns dois dias andando comigo ele ja estava solto no portugues. Nao so isso ele me ensinou bastante espanhol de modo que meu espanhol passou de pessimo para ruim em pouquissimo tempo. Uma evolucao notavel. Ele e uma maquina com idiomas, nao para de perguntar como se diz isso e aquilo e depois fica repetindo aleatoriamente durante o dia.
Meu primeiro passeio com o Manoel foi para ver a Cidade Pproibida e Tianamen Square. No coracao de Pequim, a cidade proibida e grandiosa e incrivel, uma sucessao de pracas com os aposentos do imperador e algumas salas e altares expostos a visita. Melhor do que visitar a Cidade Proibida e poder ve-la do alto Jingshan Park no meio dos predios modernos de Pequim. Diferente de Shanghai, Pequim e uma cidade cheia de parques e monumentos historicos, o que faz dela um destino infinitamente melhor para turismo. Seguimos de la para o Palacio de Inverno e tanto eu como o Manoel eramos as unicas pessoas encantadas com o lago congelado no meio do parque que cerca o palacio. De la partimos para o hostel e caminhando pelos arredores procurando por algo para comer achamos um restaurante muito bom que servia um frango com gengibre e amendoim sensacional.
Como estava chegando ao fim do meu visto eu tinha que procurar uma forma de extender meu visto e, com a ajuda do Manoel, nos bem que tentamos, mas sem sucesso. Fomos visitar um amigo do Manoel que faz universidade de kung fu em Pequim e depois seguimos para ver o Palacio de Verao. Ainda mais belo que o Palacio de Inverno, o Palacio de Verao esta situado num parque belissimo um pouco distante do centro de Pequim.Depois o Manoel foi encontrar alguns amigos mexicanos que moram em Pequim para tomar uma cerveja e eu parti pro hostel sem antes parar no meu restaurante preferido de Pequim. O termo restaurante no caso nao se aplica, pois e so uma portinha com tres mesas, mas o macarrao e os dumplings sao sensacionais. Sem falar do preco, pois por dois dolares eu saia mais do que satisfeito. Mas o ponto alto desse cantinho no meio de Pequim e sem duvida a simpatia do casal de donos que toma conta do lugar. Mesmo sem se falar o mesmo idioma, nos conseguiamos no comunicar com algumas frases simples, gestos e muito boa vontade.
Dormi cedo e fui acordado as seis da manha com um telefonema especial. Meu pai me ligou dizendo que meu amado e sofrido Botafogo acabara de vencer o Vasco e conquistar a Taca Guanabara. O que fez do meu dia ainda mais especial, pois esse era o dia que eu e Manoel escolhemos para visitar a Muralha da China.
Como o Manoel fala chines e tem amigos que moram em Pequim ao inves de nos juntarmos a um tour, resolvemos fazer nosso proprio tour. Pegamos dois onibus e chegamos ate a entrada da muralha. Desde a decepcao com os guerreiros de terracota que estava tentando baixar minhas expectativas para nao me decepcionar com a Muralha tambem, mas nao consegui. E por maior que fossem as expectativas, a Muralha as superou com sobras. Indescritivel, grandiosa, incrivel, ainda estou procurando um termo para definir com precisao minha opiniao. Chegamos na Muralha e comecamos a andar na direcao oposta a que todos os turistas vao e, sempre que olhavamos para o horizonte, la estava ela. Andamos por mais ou menos uma hora ate chegar num ponto fechado para visita. Como nao tinha ninguem la aproveitamos para driblar o aviso e continuar nossa caminhada por uma area que nao tinha ninguem alem de nos. Tiramos um monte de fotos, caminhamos bastante e acabei maravilhado por conhecer mais esta maravilha da humanidade. E tenho que dizer que essa sim merece o titulo. A noite conhecemos nossa nova companheira de quarto. Rona e uma alema que estava a seis meses dando aulas de ingles na China. Ela estava passando os seus ultimos dias na China em Pequim fazendo compras pra levar presentes para todo mundo na Alemanha. Entao, de dez em dez minutos ela arrumava alguma coisa para deixar pra tras pra comprar mais porcaria. Uma hora era desodorante, a outra era meias, livros, enfim, qualquer coisa que ela julgasse nao precisar, ela deixou pra tras na briga por espaco para comprar mais porcaria.
Como comprar na China e parte do passeio aproveitei meu ultimo dia em Beijing para acompanhar Rona em sua furia consumista. E bem divertido ver como o preco comeca em 500 e acaba em 50 na maioria das vezes. E nao tem como comprar bem sem tirar algum tempo para barganhar. No final das contas, depois de discussao e pelo menos meia hora de negociacao, todo mundo acaba amigo. Dei um pulo na estacao de trem para tentar tickets para os outros destinos que eu queria visitar na China, mas nao consegui. Pensei um pouco e decidi que o dia seguinte, era o dia de seguir em frente. Me despedi de meus amigos a noite no hostel e no dia seguinte acordei cedo para tentar ir a Hong Kong para renovar meu visto. Fui pro aeroporto e, depois de ver o preco abusivo da passagem para Hong Kong, decidi voar para Shenzhen, uma cidade proxima a fronteira para cruzar a fronteira por terra. Muito facil. Cheguei no aeroporto e um onibus levava direto para Hong Kong. Cruzar a fronteira foi outra moleza. No final da tarde, cheguei ao meu destino. Ao saltar do onibus fiquei espantado com a quantidade de indiano tentando vender terno e relogio falsificado. Infinitamente pior do que Bangkok. Mas o pior e que, como eu estava andando com a mochila nas costas, todos os indianos donos de hostels e guesthouses nao paravam de encher o saco querendo me arrastar para um ou outro buraco me prometendo todo tipo de desconto. E a surpresa maior foi quando eu cheguei no local que eu pretendia me hospedar. Nao existem palavras para descrever o buraco em que me hospedei (pelo menos, nao palavras que eu possa mencionar aqui). E o pior de tudo foi o preco, pois no Cambodia eu paguei menos de tres dolares por noite onde eu estava hospedado, mas em Hong Kong para ficar num buraco mais ou menos seguro eu paguei em torno de vinte dolares por noite. Ajustando o preco pro local, foi sem duvida o lugar mais caro em que fiquei ate agora, pois os lugares onde eu paguei um pouco mais na Europa eram infinitamente melhores.
A verdade e que para dormir eu tinha que dormir atravessado porque eu nao cabia no quarto que era basicamente a cama e um banheirinho que eu mal cabia dentro. Os arredores do hostel eram piores do que o local em si. Depois de deixar minha mochila no hostel, desci para comer alguma coisa e vi dois ingleses tentando se desvencilhar dos indianos que os cercavam. Eu ri e falei que tinha acabado de passar pela mesma situacao e um deles virou e me pediu ajuda. Entao os levei para o mesmo lugar em que eu estava que, por pior que fosse, era indicado na internet como um lugar seguro. E conheci Connor e Adam, dois londrinos que estavam aproveitando os ultimos dias de sua viagem de cinco meses para conhecer Hong Kong.
No dia seguinte, acordei cedo e fui resolver o visto. Cheguei no escritorio de um chinesinho que dizia se chamar Mister Fred e ele me prometeu que resolveria em cinco horas meu visto. Fui me encontrar com Connor e Adam e fomos conhecer um pouco de Hong Kong. Hong Kong e formado pela ilha Lantau, um pedaco da China continental e a ilha Hong Kong propriamente dita. Fomos para a ilha Hong Kong e demos um pulo no Stanley Market. Nada demais, especialmente pra quem veio da China no dia anterior. Andamos um pouco pela cidade e tiramos uma foto com os predios e ainda tentamos subir no VIctoria Peak que e o monte mais alto do territorio de Hong Kong, mas a longa fila nao permitiu. Passei no Mister Fred e peguei meu passaporte com o visto e tudo mais sem problemas e segui para o hostel. A noite, marquei de encontrar com Simon, amigo do australiano mais brasileiro que ja existiu, meu amigo Colin Olivieri. Simon mora em Hong Kong faz algum tempo e foi super legal em mostrar um pouco da noite de Hong Kong e dos diversos bares. Depois de alguns drinks tive que voltar antes de meia noite e meia ou perdia o ultimo metro e la fui eu de volta pro buraco onde eu estava hospedado. Acordei no dia seguinte, decidido a ir embora de Hong Kong e nao pensei duas vezes. Acordei arrumei tudo, tomei cafe e parti em direcao a estacao de trem. De la peguei um trem para Guangzhou, ja em territorio chines. Duas horinhas depois cheguei em Guangzhou. Comecei a procurar um onibus pra me levar pro aeroporto e tentei pedir ajuda para um cara que trabalhava na estacao de trem e ele ao inves de me ajudar so queria tirar foto comigo. No final das contas, apareceu uma menina que falava um pouquinho de ingles e me indicou o local onde pegar o onibus. Comprei um ticket pra Chengdu, terra dos pandas. Meu aviao atrasou quatro horas e quando cheguei na cidade ja eram quase meia-noite. Nem preciso falar que se eu tivesse vinte centimetros a menos de estatura o aviao ja ia ser apertado, mas no meu caso simplesmente nao cabia. Gracas a um comissario de bordo super gente boa, sentei proximo a saida de emergencia e tive o voo mais confortavel da minha vida.
Ao chegar em Chengdu, peguei o primeiro onibus para a cidade e ao chegar no ponto final me senti de volta a Tailandia. Uma quantidade imensa de taxis e tuk-tuks esperavam os onibus pararem para abordar os turistas em busca de passageiros. Uma vez que eu tinha passado o dia sem me preocupar muito com mapa e direcao, achei que estava na hora de me perder um pouco pela cidade e resolvi ir andando. Uma hora depois, cheguei no hostel. Entrei no quarto e lembrei que era sabado a noite depois que entrei no quarto e vi que apesar de todas as camas estarem ocupadas, nao havia ninguem dentro. Ja estava me preparando para dormir quando meus companheiros de quarto chegaram. Lucky, Wig e Brisk. Esses eram os nomes ocidentais dos meus tres novos amigos chineses. Com eles conheci Christos, um grego que tambem esta viajando pela China. Conversamos um pouco e fomos dormir.
Acordamos no dia seguinte e fomos todos juntos ao Wen Shu Temple. Coincidentemente, o dia era de festa e o templo estava lotado, pois era o ultimo dia das celebracoes do ano novo chines. Sem duvida foram os chineses mais divertidos que conheci ate entao, mas infelizmente, eles estavam todos indo embora. Do nosso grupo, so Christos e eu ficamos em Chengdu. Eu e Christos ficamos sabendo que era dia de hot pot no hostel. E la conhecemos Jesper e Majbritt, um casal dinamarques que esta viajando faz cinco meses. Eles comecaram a viagem deles pela America do Sul e, ate agora, o lugar preferido deles de todos pelos quais passaram e o Rio de Janeiro. Fomos juntos ver a celebracao incendiaria do fim do festival que marca as comemoracoes do ano novo chines. Como ultimo ritual do ano novo chines, todo mundo vai pra rua e solta um balao e faz um pedido. Entao fizemos nossa parte para incendiar a China (como se eles precisassem de ajuda com mais de 1,3 bilhoes de pessoas) e cada um soltou um balao e fez seu respectivo pedido. Em seguida, convenci meus novos amigos a comer cana de acucar, explicando para eles que nao era bambu por mais que parecesse e voltamos para o hostel. Fim do passeio, marquei de no dia seguinte ir conhecer o centro de pesquisa dos ursos pandas que fica proximo a Chengdu. Mas isso e estoria pra outro momento...

Diario de Bordo XVIII: Feliz Ano Novo Chines!!






Diferente de inha viagem de trem anterior, as trinta horas entre Guilin e Hangzhou foram insuportaveis. O trem estava vazio. Nao era a toa que era o unico trem que tinha assento disponivel. A era longa porque o trem parava em todas as cidades no caminho. O vagao estava vazio e nao tinha ninguem com cara de que queria conversa. Fiquei la comendo os dois quilos de porcaria que eu comprei pra viagem e ouvindo ipod, mexendo no computador e tentando dormir. No final das contas, cheguei numa cidade do lado de Hangzhou e ainda tive que encarar uma hora de onibus. Uma menina estava tentando me ajudar, mas enfrentei duas barreiras nessa situacao. Uma e que o ingles dela nao era nada bom e outra que os chineses levam um seculo para se encontrar num mapa, quando se encontram. Pulei fora do onibus assim que vi um nome que pudesse reconhecer como referencia para chegar no hostel. Andei dez minutos, entrei num restaurante local e comi cinco pratos diferentes. Mais uns bons trinta minutos perdido e encontrei o hostel. Mais um otimo lugar, proximo do ponto turistico principal da cidade, o West Lake que e um lago gigantesco no coracao da cidade. Na China existem 36 lagos com o nome West Lake, mas esse e o original.
De cara deu pra ver que a cidade nao e pra qualquer um. Em um mesmo quarteirao vi uma concessionaria da Lamborghuini, Rolls Royce e Porsche. E um desfile de carrao pra todo lado. Me alojei e fui ver o que aconteceu com meu time na internet. Aconteceu que o Louco Abreu fez tanto gol que quando eu acabei de assistir todos, a cozinha do hostel ja estava fechada. Resultado, tive que sair pra comer. Tudo fechado ou fechando e nao eram nem onze horas da noite. Eis que perdendo as esperancas encontrei um Pizza Hut aberto. Comprei uma pizza gigante e sai comendo no meio da rua.
Eu sempre fico satisfeito de ver as camas do hostel lotadas no meu quarto porque normalmente eu acabo fazendo um amigo pra me fazer companhia na cidade. Mas dessa vez o quarto estava cheio de chineses, um nao falava ingles, um nao queria nem tentar e o outro eu so vi dormindo. Nenhum estrangeiro em vista.
Fazer o que? Acordei de manha e fui conhecer a cidade. Fiquei surpreso com a mudanca no clima. Passou do frio insuportavel da noite anterior para um clima temperado agradavel de vinte e poucos graus. A cidade e realmente muito bonita e organizada, mas, no final das contas, o lago e so um lago. Na minha opiniao, Hangzhou e uma Sao Lourenco um pouco mais arrumada com chines por tudo que e lado.
Eu resolvi que ia dar uma volta no lago que tem uma circunferencia de mais de 10km. Estava andando e tirando umas fotos quando vi uma cabeca amarela passando e meio que no susto falei: "Ei, voce nao e chinesa?" e conheci Laura, australiana nascida e criada na Tasmania. De cara ela acabou com tudo que eu sabia da Tasmania que se limitava a achar que o Diabo da Tasmania era um bicho grande, agressivo que ficava correndo atras do proprio rabo. Por isso, quando nos vimos uns esquilos, eu pedi pra ela nao destruir tudo que eu sabia do Tico e Teco tambem e mudei de assunto.
A Laura esta viajando faz pouco mais de um mes e estava vindo do Japao. Demos a volta completa no lago e rodamos por uma area no centro da cidade que se fosse em qualquer lugar do mundo seria chamada Chinatown, mas como e na China e so uma rua chamada Qinghefang Old Street com um monte de lojas vendendo todo tipo de porcaria e alguns centros de medicina chinesa. No caminho foi curioso ver como aparentemente ninguem na cidade tem maquina de secar, pois todos os apartamentos tinham roupa secando do lado de fora e alguns tem roupa pendurada junto com comida. E camisa, calca, pato, peixe, uma bagunca danada.
A Laura queria porque queria beber um cha local e eu sei que a cidade e cara e tudo mais, mas foi demais o cara querer cobrar dez dolares por um copo de cha. Nao adianta me falar que e especial, eu nao sou conhecedor. Resultado, acabamos tomando um cha "tradicional" num lugar que mais parecia um Mcdonals, mas vendia cha ao inves de hamburguer. Jantamos um monte de porcarias locais no Wushan Lu Nightmarket e ainda assistimos um pouco da coroada da cidade dancando na praca antes de me despedir de minha nova amiga.
Direto pro hostel, para seguir no dia seguinte para Shanghai encontrar minha amiga Johanna. E no dia seguinte, o bom tempo ja tinha ido pro brejo. Frio com chuva. Almocei no hostel e esperei dar a hora pra chamar um taxi. Por conta da chuva simplesmente nenhum taxi estava disponivel. Esperei ate o limite do possivel e enquanto esperava conheci uma chinesa que me ajudou bastante chamada Elsie. Eu sai correndo pela cidade tentando chegar na hora na estacao de trem, mas seria impossivel e nenhum taxi parava quando me via. Por sorte, minha amiga chamou um taxi quando eu estava virado pro outro lado e quando o motorista me viu eu ja estava dentro do carro. Peguei meu trem e segui pra Shaghai.
Foi minha primeira experiencia no trem bala e a 200km/h cheguei em mais ou menos uma hora no meu destino. A Johanna como toda mulher alem de chegar atrasada ainda marcou comigo no Mcdonalds, sendo que tinha uma duzia de Mcdonalds em volta estacao. Resultado, depois de quase duas horas nos encontramos numa estacao de metro chamada People's Square. Para o jantar, ela e dois de seus amigos, Mike e Kate, me levaram num restaurante chamado Brasil Steak House, Churrasco rodizio que me matou um pouco as saudades de comida brasileira. No restaurante, so brasileiro trabalha com carne. Alem da carne, arroz com feijao, molho a campanha, pudim, enfim, algumas das coisas que qualquer brasileiro ficaria feliz de encontrar depois de viajar tanto tempo.
A Johanna aluga um apartamento num lugar super legal e o apartamento e otimo. Foi sem duvida o melhor lugar em que fiquei alojado ate agora. No dia seguinte, minha experiencia cultural chinesa mais divertida: fomos a estacao de trem dirigindo a scooter dela. O problema e que a scooter e eletrica e e boa o suficiente para ela que mede 1,50m. Quando eu subi na motinho parecia que ia desmontar. As motos na China em geral seguem a mesma regra: nao ha regras. Contramao, calcada, dentro de ruas comerciais, qualquer lugar e possivel ver uma scooter.
Na volta, fomos comer em alguns restaurantes chineses e ver o Centro de Planejamento Urbano de Shaghai. Surpreendente como uma cidade pode mudar tanto em tao pouco tempo. Shanghai em 1990 era so mais uma cidade, mas a partir de entao iniciaram um plano de fazer a cidade o centro financeiro da China e dai pra frente a cidade nao para de crescer e melhorar. A quantidade de novas linhas de metro que inauguram a cada momento faz com que qualquer mapa com mais de seis meses esteja desatualizado. Em maio de 2010, Shanghai sera a cidade sede da World Expo 2010 e a quantidade de predios que estao sendo construidos e incrivel. Fora outros absurdos, do tipo mover um predio para o terreno do lado, ou reformar toda a avenida localizada as margens do rio que corta a cidade. Tudo isso esta acontecendo em Shanghai ao mesmo tempo.
Em seguida, fomos ver as livrarias na West Nanjing Road. Como minha amiga tinha que resolver algumas coisas e eu queria dar uma volta maior, fui passear pela East Nanjing Road, a rua com as lojas mais caras da cidade e onde as pessoas chiques vao fazer compras. Ja estava de saco cheio quando surgiu a oportunidade de eu me divertir um pouco. Existe um golpe classico que muitos viajantes caem especialmente no Vietnam, mas que tambem e praticado em alguns paises do leste europeu e em tudo que e canto na Asia. E simples, uma menina que fala ingles muito bem aborda a vitima na rua, conversa um pouco e convida a vitima para beber alguma coisa. So o que muda e a bebida. Na Europa, e alcool, no Vietnam e cafe e na China e cha. As pistoleiras ganham dinheiro em cima da conta do quanto ela extorque do gringo. E la veio, a chinesinha de graca pra cima de mim e na hora que ela falou em tomar um cha eu fiz que cai e la fui eu. Deu pra ver o sorriso na cara de todo mundo que trabalhava no bar quando ela entrou com o otario da vez. E ela comecou a pedir um monte de coisa e eu pedi um cafe caro pra cacete e la estava eu bebendo cafe num dos pontos mais caros de Shanghai. E quando veio a conta a surpresa que ela fingiu foi tao fraca que eu quase ri, mas tambem tinha que armar meu show. Quando eu vi cento e vinte dolares de conta, comecei a me fazer de nervoso, falar portugues e sai sem pagar nada. E a diversao valeu pelo dia inteiro. Alem do cafe na conta da pistoleira.
Mais tarde conheci alguns amigos da Johanna e combinamos no dia seguinte de sair todos juntos. Quando decidimos ir embora tivemos que correr pelas frias ruas de Shanghai para pegar o ultimo trem do metro.
Depois de dias nublados e frio insuportavel, acho que nem preciso falar como fiquei feliz de acordar e olhar ver o ceu limpo e o sol brilhando. Felicidade que durou ate eu abrir a porta da varanda e ver que o frio continuava, mas, como o dia estava muito bonito, essa era a oportunidade de ver a as atracoes turisticas de Shanghai.
Comecamos o dia em um mercado chines que vendia todo tipo de hortalica e carne. O conceito de carne fresca na China e um tanto exagerado, os peixes sao vendidos vivos e e so apontar pra uma das galinhas dentro da gaiola e em alguns minutos ela esta pronta pra levar dentro de um saco plastico. Os tipos de macarrao que eles tem sao incriveis. Todos os tipos e cores possiveis. Apos o cafe da manha que fizemos com as coisas que compramos no mercado, fomos ver a cidade. Shanghai nao tem nenhum ponto turistico que vale a pena ver. So predios gigantescos e obras e mais obras. Vimos os predios simbolo da cidade, um dos famosos jardins e demos mais uma volta em Nanjing Road. A noite, a Johanna juntou alguns de seus amigos e fomos sair para conhecer as boates da cidade. Os americanos nao aguentaram muito tempo e o nosso de seis pessoas foi reduzido a duas muito rapidamente, eu e Ryan, um canadense que tambem da aula de ingles em Shanghai. Fomos a uns quatro ou cinco boates diferentes e nossa noite acabou quando meu mais novo amigo falou que achava que estava na hora de irmos embora. Quando eu perguntei o porque, a resposta dele foi dele nao precisava de explicacao: "Porque sao quase nove da manha..."
Acordei atrasado, me despedi voando de minha amiga e voei para a estacao de trem e por dois minutos perdi o trem... Trocar o bilhete foi super facil, o unico problema e que eu teria que ir de pe ate Wuxi. La fui eu. Uma horinha de pe e cheguei em Wuxi para a comemoracao do ano novo chines com meus amigos que conheci em Kunming, Audrey e Keith.
Reecontra-los foi super legal. E sem sombra de duvida um dos casais mais divertidos que eu ja vi. Eles me receberam no apartamento deles que tem um quarto extra e um aquecedor que funciona super bem, o que e fundamental nessa epoca do ano em Wuxi. A primeira coisa que eu vi em cima da mesa da sala foi uma colecao de caixas vermelhas de fogos de artificio. Diversao garantida pro ano novo. O problema e que o frio e tanto que nem meus amigos que moravam em Denver aguentavam ficar muito tempo do lado de fora. O Keith chegou a perguntar para alguns dos professores chineses da escola como os chineses soltam fogos de artificio com esse frio e aparentemente lhe responderam que de dentro de casa. E la fomos nos no meio do frio explodir fogos de artificio. Passamos na loja de fogos de artificio e o vendedor cercado de caixas de fogos de artificio fumava seu cigarrinho. Tiramos umas fotos fingindo que estavamos acendendo os fogos de artificio com cigarro e isqueiro e ninguem deu a minima. Seguranca e realmente um conceito inexistente na China. Qualquer crianca pode comprar.
Na hora do ano novo, vimos que os chineses realmente explodem fogos de artificio de dentro de casa e a grande surpresa que valeu meu ano novo chines, comecou a nevar um pouco antes da meia noite. Foi sensacional.
O dia seguinte veio com ainda mais frio e aproveitamos para fazer uma pequena guerra de bolas de neve, explodir mais fogos de artificio e jogar Guitar Hero no Wii da Audrey. O dia passou e o proximo dia foi um pouco mais quente, mas nao muito. Na verdade, foi bom o suficiente para irmos a um mercadao chines no centro da cidade e ver um pouco de Wuxi. A noite fomos no restaurante favorito de meus amigos para nos despedirmos. Comi o tradicional chao fan que e o arroz frito chines e seguimos para mais Wii, sempre fugindo do frio. Fizemos um pouco de "guerra de fotos" que eu ganhei na maior parte das vezes especialmente com minhas fotos da Turquia e da Tailandia, mas era bem dificil competir com o Keith porque por onde ele anda, ele carrega a camera e aparece com umas fotos incriveis como a de um chines carregando uma janela de vidro gigante numa scooter falando no celular, ou a de um chines gordo pra cacete com a camisa levantada mostrando a barriga num dia de calor.
Entao chegou o dia da despedida. Acordei, arrumei as malas, e segui para a estacao para ir para Xian ver os famosos guerreiros de terracota. So dezoito horinhas no trem. Moleza pra mim.