Thursday, January 21, 2010

Diario de Bordo XV: Momento Vietcongue






E la estava eu, feliz e contente por voltar a estrada. Eu tinha duas certezas dessa vez, uma e que eu precisava voltar a meu ritmo pre-Tailandia e outra e que eu precisava de uma folga de amigos ingleses. Sem duvida, os ingleses sao, junto com os australianos, as melhores companhias de viagem dentre todas as nacionalidades. So que a primeira coisa que eles fazem em qualquer lugar e procurar pelo bar Entao depois de meu ultimo dia em Siem Reap com nada menos que doze ingleses, eu tive que "fugir" um pouco pra me dar um tempo para viajar um pouco. Alguns dos ingleses com quem eu conversei se contentam em fazer um tour pelos pubs do mundo porque eles chegam na cidade, vao beber em algum pub, acordam tarde no outro dia de ressaca, nao veem nada na cidade, comem alguma coisa e vao de volta pro pub.
Entao depois de Phnom Penh, troquei de onibus e me preparei para mais uma jornada de pelo menos mais sete horas em direcao ao Vietnam. Cruzar a fronteira foi mais uma vez um exercicio burocratico, mas valeu a pena porque enquanto esperava comecei a conversar com um casal de amigos dinamarqueses chamados Maja e Niklas. Eles tem somente dezenove anos e e a primeira viagem deles sem os pais. Conversamos bastante durante a infindavel viagem e chegando em Ho Chi Min fomos procurar algum lugar pra ficar todos juntos.
Poucas pessoas conhecem Ho Chi Min City, mas todo mundo ja ouviu falar pelo menos uma vez da famosa Saigon ser renomeada apos se fundir a provincia a uma provincia adjacente. A cidade tem uma populacao de aproximadamente sete milhoes de habitantes e, segundo alguns locais, entre tres e quatro milhoes de motocicletas. Por motocicleta, leia-se quase sempre scooter. O transito nao para um segundo. A maior parte das vezes ninguem para no sinal, a nao ser em grandes cruzamentos e, para o europeu tradicional, e praticamente impossivel atravessar a rua. O trafego de motos nao para, em todas as direcoes, o barulho e ensurdecedor e de alguma forma eu nao presenciei nenhum acidente. Uma das causas provaveis e que todos dirigem bem devagar e sempre dao um jeito de desviar na ultima hora. O mais curioso e ver as pessoas atravessando a rua. A maior parte das vezes, os vietnamitas simplesmente atravessam a rua sem olhar e as scooters, os onibus e os carros dao um jeito de desviar. E inacreitavel. E ate pra quem vem do Rio de Janeiro que nao tem o transito mais organizado do mundo e dificil de acreditar.
Por conta do transito, da pra entender que apesar da longa viagem nao foi facil dormir a noite, ja que meu quarto ficava de frente pra uma das avenidas da cidade.
Na manha seguinte, eu e meus amigos dinamarqueses fomos ver um pouco da cidade. Rodando pela cidade, fiquei impressionado com a quantidade de produtos falsificados. Uma das coisas interessantes no sudeste asiatico e que sempre que eu pergunto pra alguem a distancia de qualquer coisa, eu recebo duas respostas. Um quilometro quando e perto e cinco quilometros quando e longe. Entao eu perguntei a distancia, do Palacio da Independencia e tres pessoas diferentes me disseram cinco quilometros e caminhando chegamos la em menos de trinta minutos. No meio do caminho, vimos uma menina perdida virando o guia de ponta cabeca tentando se encontrar. Perguntamos se ela precisava de alguma coisa e conhecemos Lisa. Ela tinha chegado no dia anterior como nos em Ho Chi Min City, mas so que ela esta de mudanca pro Vietnam pra dar aula de ingles num curso local. Os primeiros dias dela na cidade seriam de turista como nos e, entao, ela optou por se juntar a nos para explorar os pontos turisticos. Vimos o Palacio da Independencia que nao tinha nada demais e seguimos para o Museu da Guerra. Eu confesso que os museus e monumentos do Vietnam foram uma surpresa muito positiva ate agora. A entrada era menos um dolar, tanto no Palacio da Independecia quanto no Museu da Guerra e obviamente conclue-se que o orcamento nao permite muita frescura, mas as atracoes foram tao boas quanto poderiam ser, na minha opiniao. O Museu da Guerra e muito simples. Limita-se a alguns uniformes de guerra, algumas armas e muitas fotos e textos da guerra. Mas os textos sao tao interessantes e a disposicao e otima de forma que eu li tudo que estava escrito no museu e nao foi cansativo, sendo que eu passei mais de duas horas la dentro. Uma das salas e chocante e algumas pessoas nao aguentam ver todos as fotografias e os textos expostos. Nessa sala, estao expostas as fotografias dos filhos de vietnamitas contaminados pelo agente laranja que era uma das armas quimicas usadas na guerra. As criancas que sobreviveram acabaram com deformidades e deficiencias fisicas e mentais extremas. E impossivel nao sair do museu um tanto enojado da cultura de guerra yankee. Impressionante tambem e o orgulho dos vietnamitas por terem no final do conflito saido vencedores. Eles adoram falar como os EUA tinham armas, jatos, tanques e no final eles venceram usando metralhadoras, tuneis, armadilhas e a floresta. Regressando ao hotel tive um momento muito especial ao passar por um mercado de frutas e encontrar algo que eu nao esperava ver tao cedo: fruta de conde. Foi um momento emocionante pra mim. Comprei logo um quilo e devorei em alguns minutos, mas tive cuidado pra deixar uma pra mais tarde.
Mais tarde, fomos dar uma volta, comer alguma coisa e agendar um passeio pro dia seguinte. O passeio escolhido foi uma visita aos tuneis de Cu Chi. Na epoca da guerra, o complexo de tuneis se estendia por mais de 200 quilometros. Hoje, alguns tuneis e armadilhas da epoca da guerra estao expostos para os turistas. Nosso guia, como nao poderia ser diferente, era uma figuraca. Jimmy Harrison apesar do nome e vietnamita e na epoca da guerra tocava guitarra nos bares americanos no sul do Vietnam. O ingles dele e pessimo quando fala, mas perfeito quando canta. No nosso grupo do tour, alem de nos quatro, so gente da Suecia, Noruega e norte da Inglaterra. Na cidade natal de todos a temperatura estava abaixo de zero e tinha neve por todo lado. O unico que nao estava fugindo do frio era eu. A distancia ate os tuneis era de aproximadamente 60 quilometros ou duas horas (!!!). Pela velocidade que os vietnamitas dirigem para evitar acidentes e o transito na cidade, nao conseguiamos passar de 50km/h em quase nenhum ponto dentro de Ho Chi Min City.
Chegamos e Jimmy nos mostrou algumas armadilhas usadas na epoca da guerra. Em algumas, ele apontava e falava em alto e bom tom que naquela mais de dez soldados americanos tinham morrido e naquela mais de vinte. Nos mostrou com orgulho uma foto de soldados americanos correndo dos vietcongues e partimos pra zona de tiro onde poderiamos atirar com algumas das armas usadas na guerra. Ja tava vendo a hora em que ao inves de alvos, nos iamos dar uns tiros em uns soldados americanos. Eu que nao sou muito de arma, ia deixar essa passar, mas era de fato tao barato que acabou que eu comprei umas balas e sentei o dedo numa AK-47. Foi parte da minha experiencia vietcongue. Em seguida, partimos para ver os tuneis dos vietcongues. Rastejando eu consegui atravessar a primeira parte da galeria. E pensar que os vietcongues passaram mais de dez anos vivendo ali. Muita gente voltou na logo no comeco porque a sensacao e realmente pessima, mas a maioria nao conseguia passar mesmo. E para finalizar, a comida dos vietcongues era nada mais, nada menos do que... aipim!! Ta ai uma coisa que eu nao esperava ver. A alimentacao deles era basicamente aipim que eles cultivavam durante a noite.
Apos o passeio, fomos a Chinatown. Eu nem sei porque sinceramente porque tudo que e canto no mundo tem Chinatown. Mas essa Chinatown era especial. Eu nunca vi tanta gente e tanta coisa falsificada. Os estrangeiros compram roupa por duzia e nao por peca. Vimos pouquissimos estrangeiros e foi bem interessante quando caminhamos mais pra longe da parte em que estavam os estrangeiros, mas de repente deu pra sentir que eles nao estavam confortaveis com a presenca de estrangeiros e, pelos olhares dos locais, vimos que era hora de sair dali o quanto antes. Fomos jantar a noite e, apos a refeicao, mai um adeus doloroso para meus amigos dinamarqueses.
O proximo dia era dia de seguir para a capital vietnamita, Hanoi. Das tres opcoes, o onibus levava aproximadamente dois dias e custava quase quarenta dolares, o trem levava um pouco menos por setenta dolares e o aviao duas horas custando a mesma coisa que o trem. Escolha obvia em duas horas, eu ja estava la. Entrei na van que levava pro hotel e o motorista simplesmente nao queria ir enquanto nao enchesse a van. Falei com outras tres pessoas e pelo mesmo preco da van pegamos um taxi. O motorista da van nao levou na boa e saiu da van puto da vida na minha direcao, mas ficou mais manso depois que eu sai da van e ele teve que entortar o pescoco pra falar comigo.
Em Hanoi, escolhi ficar em um dos hostels famosos do sudeste asiatico. O Hanoi Backpackers e um hostel famoso e todo mundo que vai pra Hanoi ja escutou pelo menos falar a respeito. Os donos posam de bons meninos com aquele discurso de que aqui nos nao vamos te passar a perna, mas e so no discurso porque tudo e pelo menos o dobro ou triplo do preco dos lugares ao redor. O discurso funciona bem porque um monte de gente chega la e nem olha em volta e ja sai marcando tudo que precisa sem verificar os precos na regiao. Deixei minha mochila no hostel e sai pra comer alguma coisa. Encontrei um lugar pra comer a tradicional sopa de macarrao com carne vietnamita e conheci dois finlandeses, Alexander e Paula. Eles estao vindo de trem da Finlandia ate o Vietnam. Pegaram o trans-siberiano e atravessaram toda a Russia, passando por Mongolia e China antes de chegarem ao Vietnam. O Alexander e um dos caras mais apaixonados pelo Brasil e por musica brasileira que eu ja vi. Ele ficou totalmente muito decepcionado quando eu falei que nao conhecia os compositores favoritos dele e que nao gostava da maior parte das musicas que ele mencionava. Ele e a Paula se conheceram na Mongolia e desde entao estao viajando juntos. Combinei com eles de encontra-los no dia segunte para rodarmos a cidade ja que eles tambem tinham acabado de chegar. Marquei as onze horas com eles porque tinha que tentar consertar minha camera que estava quebrada.
Acordei cedo e, conersando com duas meninas que estavam no mesmo hostel que eu, descobri que o ponto turistico principal da cidade que e o Mausoleu do Ho Chi Min fechava exatamente as onze horas. Aceleramos o passo e por vinte segundos tive uma das experiencias mais estranhas da minha vida. La estava Ho Chi Min, deitado como se estivesse dormindo. Ele morreu faz uns trinta e cinco anos, mas Deus sabe como, os vietnamitas conservaram o corpo no mausoleu. O processo de visita e bem interessante. Um misto de devocao ao antigo lider e burocracia militar socialista. Nada de cameras, bolsas, chapeus, bermudas e nada de falar proximo ao corpo.
Saindo do mausoleu tinha que encontrar meus amigos finlandeses para fazer um tour pela cidade. Entao peguei um moto-taxi com meu guia vietnamita Dohan. Ele me levou pra tudo que e canto de Hanoi. Foi uma super tour. Encontrei a Paula, mas o Alexander nao estava em condicao de seguir com a gente. Caminhando visitamos o museu da guerra que nao tinha nada demais e fomos no templo da literatura. Na volta pro hostel, tivemos a ideia de sentar em um restaurante vietnamita que nao tivesse nenhum estrangeiro. Eu fiz isso em todos os paises da Asia que visitei ate entao, mas confesso que nao tinha tido coragem de fazer isso no VIetnam. E a experiencia durou alguns minutos, pois o menu tinha duas paginas dedicadas a diversas receitas preparadas com carne de cachorro e uma dedicada a penis de boi (!!!). Sem pensar duas vezes seguimos pro proximo restaurante. A noite fui no hostel da Paula e marcamos um tour para Ha Long Bay que e considerado um dos lugares mais belos do sudeste asiatico.
O passeio pra Ha Long Bay foi um tanto diferente do que imaginavamos. Ao inves das imagens maravilhosas que viamos nos folhetos das agencias de turismo por todos os lados, so viamos neblina. O frio tambem nao estava pra brincadeira. Ao desembarcarmos da van conheci tres argentinas e um americano. O americano nao fazia a minima ideia de como tinha chegado la. Obviamente alguem colocou algo no drink dele porque ele falou que lembrava ir a um bar de karaoke e depois so um black out e mais nada. Ele acordou no onibus usando duas camisas, uma laranja e uma azul, um chapeu horroroso e algo que eu nunca tinha visto antes, dois cintos (!!!). Falando sobre gente interessante que conhecemos viajando, a historia do nosso amigo americano Curt e bem curiosa. Ele e um dos militares americanos no Iraque. Vimos um pouco da neblina e algumas das formacoes rochosas que sao realmente impressionantes e como sempre fica aquela sensacao de que um lugar como esses no verao deve ser incrivel. Na volta nos despedimos do Curt e seguimos, eu, Paula e as nossas tres novas amigas argentinas, Karen, Luli e Daniela jantar e se preparar para o dia seguinte para mais um novo pais, Laos.
Convenci nossas amigas argentinas a seguir conosco no onibus ao inves de ir de aviao e la fomos nos para uma jornada de vinte horas dentro de um onibus. Soa como algo insuportavel, mas na verdade foi uma viagem otima. Nao chegamos a dormir nem por tres horas. Foi uma viagem otima e no final do percurso tinhamos um grupo de quatro argentinas, um espanhol, um ingles, duas mexicanas, uma finlandesa e eu. Todos loucos para chegar a Vang Vien para fazer tubbing.

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