Thursday, January 21, 2010

Diario de Bordo XV: Momento Vietcongue






E la estava eu, feliz e contente por voltar a estrada. Eu tinha duas certezas dessa vez, uma e que eu precisava voltar a meu ritmo pre-Tailandia e outra e que eu precisava de uma folga de amigos ingleses. Sem duvida, os ingleses sao, junto com os australianos, as melhores companhias de viagem dentre todas as nacionalidades. So que a primeira coisa que eles fazem em qualquer lugar e procurar pelo bar Entao depois de meu ultimo dia em Siem Reap com nada menos que doze ingleses, eu tive que "fugir" um pouco pra me dar um tempo para viajar um pouco. Alguns dos ingleses com quem eu conversei se contentam em fazer um tour pelos pubs do mundo porque eles chegam na cidade, vao beber em algum pub, acordam tarde no outro dia de ressaca, nao veem nada na cidade, comem alguma coisa e vao de volta pro pub.
Entao depois de Phnom Penh, troquei de onibus e me preparei para mais uma jornada de pelo menos mais sete horas em direcao ao Vietnam. Cruzar a fronteira foi mais uma vez um exercicio burocratico, mas valeu a pena porque enquanto esperava comecei a conversar com um casal de amigos dinamarqueses chamados Maja e Niklas. Eles tem somente dezenove anos e e a primeira viagem deles sem os pais. Conversamos bastante durante a infindavel viagem e chegando em Ho Chi Min fomos procurar algum lugar pra ficar todos juntos.
Poucas pessoas conhecem Ho Chi Min City, mas todo mundo ja ouviu falar pelo menos uma vez da famosa Saigon ser renomeada apos se fundir a provincia a uma provincia adjacente. A cidade tem uma populacao de aproximadamente sete milhoes de habitantes e, segundo alguns locais, entre tres e quatro milhoes de motocicletas. Por motocicleta, leia-se quase sempre scooter. O transito nao para um segundo. A maior parte das vezes ninguem para no sinal, a nao ser em grandes cruzamentos e, para o europeu tradicional, e praticamente impossivel atravessar a rua. O trafego de motos nao para, em todas as direcoes, o barulho e ensurdecedor e de alguma forma eu nao presenciei nenhum acidente. Uma das causas provaveis e que todos dirigem bem devagar e sempre dao um jeito de desviar na ultima hora. O mais curioso e ver as pessoas atravessando a rua. A maior parte das vezes, os vietnamitas simplesmente atravessam a rua sem olhar e as scooters, os onibus e os carros dao um jeito de desviar. E inacreitavel. E ate pra quem vem do Rio de Janeiro que nao tem o transito mais organizado do mundo e dificil de acreditar.
Por conta do transito, da pra entender que apesar da longa viagem nao foi facil dormir a noite, ja que meu quarto ficava de frente pra uma das avenidas da cidade.
Na manha seguinte, eu e meus amigos dinamarqueses fomos ver um pouco da cidade. Rodando pela cidade, fiquei impressionado com a quantidade de produtos falsificados. Uma das coisas interessantes no sudeste asiatico e que sempre que eu pergunto pra alguem a distancia de qualquer coisa, eu recebo duas respostas. Um quilometro quando e perto e cinco quilometros quando e longe. Entao eu perguntei a distancia, do Palacio da Independencia e tres pessoas diferentes me disseram cinco quilometros e caminhando chegamos la em menos de trinta minutos. No meio do caminho, vimos uma menina perdida virando o guia de ponta cabeca tentando se encontrar. Perguntamos se ela precisava de alguma coisa e conhecemos Lisa. Ela tinha chegado no dia anterior como nos em Ho Chi Min City, mas so que ela esta de mudanca pro Vietnam pra dar aula de ingles num curso local. Os primeiros dias dela na cidade seriam de turista como nos e, entao, ela optou por se juntar a nos para explorar os pontos turisticos. Vimos o Palacio da Independencia que nao tinha nada demais e seguimos para o Museu da Guerra. Eu confesso que os museus e monumentos do Vietnam foram uma surpresa muito positiva ate agora. A entrada era menos um dolar, tanto no Palacio da Independecia quanto no Museu da Guerra e obviamente conclue-se que o orcamento nao permite muita frescura, mas as atracoes foram tao boas quanto poderiam ser, na minha opiniao. O Museu da Guerra e muito simples. Limita-se a alguns uniformes de guerra, algumas armas e muitas fotos e textos da guerra. Mas os textos sao tao interessantes e a disposicao e otima de forma que eu li tudo que estava escrito no museu e nao foi cansativo, sendo que eu passei mais de duas horas la dentro. Uma das salas e chocante e algumas pessoas nao aguentam ver todos as fotografias e os textos expostos. Nessa sala, estao expostas as fotografias dos filhos de vietnamitas contaminados pelo agente laranja que era uma das armas quimicas usadas na guerra. As criancas que sobreviveram acabaram com deformidades e deficiencias fisicas e mentais extremas. E impossivel nao sair do museu um tanto enojado da cultura de guerra yankee. Impressionante tambem e o orgulho dos vietnamitas por terem no final do conflito saido vencedores. Eles adoram falar como os EUA tinham armas, jatos, tanques e no final eles venceram usando metralhadoras, tuneis, armadilhas e a floresta. Regressando ao hotel tive um momento muito especial ao passar por um mercado de frutas e encontrar algo que eu nao esperava ver tao cedo: fruta de conde. Foi um momento emocionante pra mim. Comprei logo um quilo e devorei em alguns minutos, mas tive cuidado pra deixar uma pra mais tarde.
Mais tarde, fomos dar uma volta, comer alguma coisa e agendar um passeio pro dia seguinte. O passeio escolhido foi uma visita aos tuneis de Cu Chi. Na epoca da guerra, o complexo de tuneis se estendia por mais de 200 quilometros. Hoje, alguns tuneis e armadilhas da epoca da guerra estao expostos para os turistas. Nosso guia, como nao poderia ser diferente, era uma figuraca. Jimmy Harrison apesar do nome e vietnamita e na epoca da guerra tocava guitarra nos bares americanos no sul do Vietnam. O ingles dele e pessimo quando fala, mas perfeito quando canta. No nosso grupo do tour, alem de nos quatro, so gente da Suecia, Noruega e norte da Inglaterra. Na cidade natal de todos a temperatura estava abaixo de zero e tinha neve por todo lado. O unico que nao estava fugindo do frio era eu. A distancia ate os tuneis era de aproximadamente 60 quilometros ou duas horas (!!!). Pela velocidade que os vietnamitas dirigem para evitar acidentes e o transito na cidade, nao conseguiamos passar de 50km/h em quase nenhum ponto dentro de Ho Chi Min City.
Chegamos e Jimmy nos mostrou algumas armadilhas usadas na epoca da guerra. Em algumas, ele apontava e falava em alto e bom tom que naquela mais de dez soldados americanos tinham morrido e naquela mais de vinte. Nos mostrou com orgulho uma foto de soldados americanos correndo dos vietcongues e partimos pra zona de tiro onde poderiamos atirar com algumas das armas usadas na guerra. Ja tava vendo a hora em que ao inves de alvos, nos iamos dar uns tiros em uns soldados americanos. Eu que nao sou muito de arma, ia deixar essa passar, mas era de fato tao barato que acabou que eu comprei umas balas e sentei o dedo numa AK-47. Foi parte da minha experiencia vietcongue. Em seguida, partimos para ver os tuneis dos vietcongues. Rastejando eu consegui atravessar a primeira parte da galeria. E pensar que os vietcongues passaram mais de dez anos vivendo ali. Muita gente voltou na logo no comeco porque a sensacao e realmente pessima, mas a maioria nao conseguia passar mesmo. E para finalizar, a comida dos vietcongues era nada mais, nada menos do que... aipim!! Ta ai uma coisa que eu nao esperava ver. A alimentacao deles era basicamente aipim que eles cultivavam durante a noite.
Apos o passeio, fomos a Chinatown. Eu nem sei porque sinceramente porque tudo que e canto no mundo tem Chinatown. Mas essa Chinatown era especial. Eu nunca vi tanta gente e tanta coisa falsificada. Os estrangeiros compram roupa por duzia e nao por peca. Vimos pouquissimos estrangeiros e foi bem interessante quando caminhamos mais pra longe da parte em que estavam os estrangeiros, mas de repente deu pra sentir que eles nao estavam confortaveis com a presenca de estrangeiros e, pelos olhares dos locais, vimos que era hora de sair dali o quanto antes. Fomos jantar a noite e, apos a refeicao, mai um adeus doloroso para meus amigos dinamarqueses.
O proximo dia era dia de seguir para a capital vietnamita, Hanoi. Das tres opcoes, o onibus levava aproximadamente dois dias e custava quase quarenta dolares, o trem levava um pouco menos por setenta dolares e o aviao duas horas custando a mesma coisa que o trem. Escolha obvia em duas horas, eu ja estava la. Entrei na van que levava pro hotel e o motorista simplesmente nao queria ir enquanto nao enchesse a van. Falei com outras tres pessoas e pelo mesmo preco da van pegamos um taxi. O motorista da van nao levou na boa e saiu da van puto da vida na minha direcao, mas ficou mais manso depois que eu sai da van e ele teve que entortar o pescoco pra falar comigo.
Em Hanoi, escolhi ficar em um dos hostels famosos do sudeste asiatico. O Hanoi Backpackers e um hostel famoso e todo mundo que vai pra Hanoi ja escutou pelo menos falar a respeito. Os donos posam de bons meninos com aquele discurso de que aqui nos nao vamos te passar a perna, mas e so no discurso porque tudo e pelo menos o dobro ou triplo do preco dos lugares ao redor. O discurso funciona bem porque um monte de gente chega la e nem olha em volta e ja sai marcando tudo que precisa sem verificar os precos na regiao. Deixei minha mochila no hostel e sai pra comer alguma coisa. Encontrei um lugar pra comer a tradicional sopa de macarrao com carne vietnamita e conheci dois finlandeses, Alexander e Paula. Eles estao vindo de trem da Finlandia ate o Vietnam. Pegaram o trans-siberiano e atravessaram toda a Russia, passando por Mongolia e China antes de chegarem ao Vietnam. O Alexander e um dos caras mais apaixonados pelo Brasil e por musica brasileira que eu ja vi. Ele ficou totalmente muito decepcionado quando eu falei que nao conhecia os compositores favoritos dele e que nao gostava da maior parte das musicas que ele mencionava. Ele e a Paula se conheceram na Mongolia e desde entao estao viajando juntos. Combinei com eles de encontra-los no dia segunte para rodarmos a cidade ja que eles tambem tinham acabado de chegar. Marquei as onze horas com eles porque tinha que tentar consertar minha camera que estava quebrada.
Acordei cedo e, conersando com duas meninas que estavam no mesmo hostel que eu, descobri que o ponto turistico principal da cidade que e o Mausoleu do Ho Chi Min fechava exatamente as onze horas. Aceleramos o passo e por vinte segundos tive uma das experiencias mais estranhas da minha vida. La estava Ho Chi Min, deitado como se estivesse dormindo. Ele morreu faz uns trinta e cinco anos, mas Deus sabe como, os vietnamitas conservaram o corpo no mausoleu. O processo de visita e bem interessante. Um misto de devocao ao antigo lider e burocracia militar socialista. Nada de cameras, bolsas, chapeus, bermudas e nada de falar proximo ao corpo.
Saindo do mausoleu tinha que encontrar meus amigos finlandeses para fazer um tour pela cidade. Entao peguei um moto-taxi com meu guia vietnamita Dohan. Ele me levou pra tudo que e canto de Hanoi. Foi uma super tour. Encontrei a Paula, mas o Alexander nao estava em condicao de seguir com a gente. Caminhando visitamos o museu da guerra que nao tinha nada demais e fomos no templo da literatura. Na volta pro hostel, tivemos a ideia de sentar em um restaurante vietnamita que nao tivesse nenhum estrangeiro. Eu fiz isso em todos os paises da Asia que visitei ate entao, mas confesso que nao tinha tido coragem de fazer isso no VIetnam. E a experiencia durou alguns minutos, pois o menu tinha duas paginas dedicadas a diversas receitas preparadas com carne de cachorro e uma dedicada a penis de boi (!!!). Sem pensar duas vezes seguimos pro proximo restaurante. A noite fui no hostel da Paula e marcamos um tour para Ha Long Bay que e considerado um dos lugares mais belos do sudeste asiatico.
O passeio pra Ha Long Bay foi um tanto diferente do que imaginavamos. Ao inves das imagens maravilhosas que viamos nos folhetos das agencias de turismo por todos os lados, so viamos neblina. O frio tambem nao estava pra brincadeira. Ao desembarcarmos da van conheci tres argentinas e um americano. O americano nao fazia a minima ideia de como tinha chegado la. Obviamente alguem colocou algo no drink dele porque ele falou que lembrava ir a um bar de karaoke e depois so um black out e mais nada. Ele acordou no onibus usando duas camisas, uma laranja e uma azul, um chapeu horroroso e algo que eu nunca tinha visto antes, dois cintos (!!!). Falando sobre gente interessante que conhecemos viajando, a historia do nosso amigo americano Curt e bem curiosa. Ele e um dos militares americanos no Iraque. Vimos um pouco da neblina e algumas das formacoes rochosas que sao realmente impressionantes e como sempre fica aquela sensacao de que um lugar como esses no verao deve ser incrivel. Na volta nos despedimos do Curt e seguimos, eu, Paula e as nossas tres novas amigas argentinas, Karen, Luli e Daniela jantar e se preparar para o dia seguinte para mais um novo pais, Laos.
Convenci nossas amigas argentinas a seguir conosco no onibus ao inves de ir de aviao e la fomos nos para uma jornada de vinte horas dentro de um onibus. Soa como algo insuportavel, mas na verdade foi uma viagem otima. Nao chegamos a dormir nem por tres horas. Foi uma viagem otima e no final do percurso tinhamos um grupo de quatro argentinas, um espanhol, um ingles, duas mexicanas, uma finlandesa e eu. Todos loucos para chegar a Vang Vien para fazer tubbing.

Tuesday, January 12, 2010

Diario de Bordo XIV: Da espera pelo ano novo a Angkor Wat






E chegou o ano novo. O Phil estava esperando tres outros amigos ingleses que estavam hospedados em outra ilha para se juntarem a nos na festa. Essa festa tinha um marco especial a ser comemorado. Sao mais de vinte anos pra lua cheia coincidir com o ano novo, o que faz de uma Full Moon Party de ano novo um acontecimento e tanto na ilha.
Eu cochilei a tarde para ter energia para a festa e as dez da noite nos encontramos. Bebemos um pouco e levamos quase trinta minutos para chegar na praia, um percurso que nao deveria levar nem dez minutos, tamanho o fluxo de pessoas na ilha. Para o turista que nao da a minima, a Tailandia e um paraiso, mas para o turista minimamente consciente, a dinamica de algumas coisas as vezes assusta um pouco. Por isso, fiquei um pouco indignado quando vi a policia nas entradas da praia revistando e verificando documentos somente dos tailandeses. Uma das situacoes mais pitorescas que eu ja vi se desenhou quando um policial pediu o passaporte para uma menina japonesa pra verificar se ela era mesmo estrangeira e ela o tinha deixado em outra ilha.
Quando chegamos na praia, me lembrei um pouco do que e o reveillon em Copacabana em muito menos escala e claro. Nao se via areia em lugar nenhum, era gente que nao acabava mais.
Em cinco minutos, todo mundo se perdeu, ai depois se encontrou, ai depois se perdeu e se encontrou sucessivamente. Chegou uma hora que ninguem mais dava a minima. Eu me perdia de todo mundo, daqui a pouco encontrava e dava os cumprimentos de feliz ano novo e tudo mais, virava pro lado e me perdia de novo. Conhecemos umas meninas da Australia que tiveram uma mega surpresa quando uma delas foi comprar uma cerveja e cade o dinheiro, a camera e o bilhete do barco de volta? Roubaram tudo. Foram ver se avisavam a policia e tinha uma fila de gente que tinha passado pela mesma coisa. Um monte de gente machucada, especialmente com cortes nos pes por causa de garrafas quebradas. Ficou a sensacao de que a ilha nao tinha a minima condicao de receber tantas pessoas. Nao posso dizer que nao aproveitei a festa, pois pra nos o ano novo acabou as 20:30 do dia primeiro em outra ilha. Nada mal para comecar 2010 com o pe direito.
A noite no dia primeiro, ficou aquela sensacao de que chega de festa. Estava na hora de ir embora. Acordei no dia 2 e fui numa agencia de viagens perto do hostel para comprar uma passagem pra sair da ilha. So havia um tiquete disponivel para as 11h da manha. Eram 10:55. Eu pedi cinco minutos a mais e em dez minutos estava com tudo empacotado para sair da ilha. Foi uma surpresa pro Phil me ver esperando pela balsa ja que menos de 30 minutos antes tinhamos nos despedido e achavamos que nunca mais nos veriamos. Seguimos juntos pra Bangkok. No mesmo onibus estavam Clara e Kajsa, duas meninas suecas que conhecemos na ilha. A sensacao de que a ilha nao tinha a minima condicao de hospedar tanta gente ficou ainda mais clara na hora em que estavamos tentando entrar na balsa e tinha gente entrando por todos os lados sem o menor controle. Tres horas depois chegamos ao porto, entramos em um onibus e depois mais um onibus para chegar de volta a Bangkok. Ja pretendia seguir para o Cambodia no dia seguinte, mas meu amigo australiano Tim estava vindo de outra ilha e me encontraria em Bangkok para seguir em frente. Foi bom porque tive a oportunidade de reencontrar Sean, um ingles muito gente boa que eu conheci no meu segundo dia em Bangkok. Ele estava voltando do Cambodia e pode me dar algumas dicas pro meu proximo destino.
O Tim chegou e ficamos mais dois dias em Bangkok esperando pelo visto dele para o Vietnam. Quem tambem chegou em Bangkok foi Francesca, namorada do Phil que estava vindo da Inglaterra para viajar um pouco pelo sudeste asiatico e depois se mudar para a Australia junto com ele.
Em dois dias em Bangkok, reencontrei onze pessoas que estavam no mesmo hostel que eu em Koh Pangang. Nos encontramos para jantar, mas antes de meia noite ja estava todo mundo morto, pronto para dormir. Algumas pessoas foram embora na manha seguinte. Das pessoas que encontramos na noite anterior, sete seguiriam para o Cambodia. Siem Reap seria uma cidade um tanto familiar para todos nos.
O que posso dizer da viagem para Siam Reap e que foi pessima. As estradas do Cambodia sao muito ruins e o onibus era pior ainda. Os motoristas de onibus no Cambodia buzinam a cada trinta segundos, o que faz com que seja impossivel dormir por mais do que vinte e nove segundos consecutivos durante a viagem. A vantagem de viajar de onibus, especialmente pelo sudeste asiatico, e que todo mundo sabe que vai levar seculos pra chegar a qualquer lugar, entao vira uma oportunidade para conhecer gente nova. No onibus conhecemos dois noruegueses, duas suicas, um senhor italiano, sem contar um italiano chamado Francesco que o Tim tinha conhecido na Malasia que tambem estava no onibus. Chegamos em Siem Reap e junto com as pessoas que conhecemos no onibus fomos em busca de um lugar pra ficar. Achamos uma guest house em que eu e Tim pagamos tres dolares cada um por um quarto bem razoavel. As coisas no Cambodia sao tao baratas que algumas pessoas que conheciamos estavam ficando num hostel pagando um dolar por noite. A comida tambem e bem barata. Uma refeicao sai por algo em torno de dois dolares. Ou seja, todo turista pao duro do mundo tem obrigacao de visitar o Cambodia. Nao e a toa que la tem frances por tudo que e lado. Algo que eu descobri recentemente e que nao existe povo no mundo mais pao duro que frances. Eu nao conheci nenhum frances viajando pela Europa, mas na Tailandia e no Cambodia, eles estao por todo lado. Se alguem acha que eu sou pao duro, tem que conhecer os turistas franceses. Eles reclamam quando e caro quando e barato e se transformam quando abrem a carteira, ate a fisionomia muda. O que me leva a concluir que tenho muito que aprender com os franceses.
Enfim, estava nos planos da maior parte das pessoas no nosso grupo descansar da viagem no primeiro dia no Cambodia, mas como eu nao estava de brincadeira pilhei todo mundo pra ir ja no dia seguinte ver Angkor Wat. E como um dos baratos de Angkor Wat e ver o nascer do sol, la fomos nos. Antes das seis horas da manha ja estavamos na estrada de tuk-tuk. E a grande expectativa pelo nascer do sol foi uma grande decepcao porque estava nublado. Fora isso foi interessante ver uma das maravilhas do mundo. Angkor Wat era a capital do imperio Khmer. Pra se ter uma ideia da dimensao de Angkor Wat, a cidade tinha uma populacao de mas de um milhao enquanto Londres na mesma epoca nao tinha mais de 50.000 habitantes. Nao so isso, Angkor Wat e o maior monumento religioso do mundo. A verdade e que o complexo de templos e tao gigantesco que so da pra ver uma pequena parte. Entao escolhemos os principais templos e fomos em frente. Nosso grupo era formado por dois noruegueses, duas suicas, eu e Tim. Os italianos preguicosos ficaram pra tras e deixaram pro dia seguinte. Em meia hora os noruegueses e o Tim decidiram ir em outra direcao, mas acabou que nos perdemos e passei a manha com minhas novas amigas da Suica. Foi bem legal, mas na hora do almoco ja estavamos mortos pela visita. Entao seguimos pro hotel para descansar um pouco e voltar. A ideia era voltar para o por do sol. Dormimos algumas horas e depois quando estavamos saindo surigiram o Tim e os dois noruegueses que se perderam da gente. Eles andaram o tempo todo e estavam se arrastando, enquanto nos aproveitamos a comodidade de ter um tuk-tuk levando a gente de templo em templo. Foi realmente a melhor coisa que fizemos.
Tambem nao vimos muito do por do sol, pois o tempo continuava nublado, mas foi o suficiente pra descobrir que Angkor Wat por mais do que um dia e demais. E muito interessante e grandioso ver as ruinas do imperio Khmer, mas depois de algumas horas fica aquela sensacao de que e tudo muito parecido e estamos vendo mais do mesmo.
A noite, fomos reecontrar meus amigos de Koh Pangang. Foi otimo rever todo mundo. Nossas amigas suicas se juntaram ao grupo e foi mais uma longa noite no sudeste asiatico. Por isso, tivemos que remarcar o passeio que tinhamos marcado na manha do dia seguinte para a hora do almoco. O passeio do dia era pelo vilarejo flutuante nos arredores de Siem Reap. Fomos eu, as duas suicas e um dos noruegueses, pois o outro estava tendo um dia de rei apos provar os sabores locais e nao podia ficar a mais de dez passos do banheiro mais proximo. O TIm estava mais ou menos na mesma situacao, entao foi quem estava em condicoes. O nosso guia ainda arrumou um grupo de quatro franceses para dividir o barco com a gente pra ficar mais barato. Foi extremamente chocante ver as condicoes em que as pessoas vivem no Cambodia. Eu nunca vi nada tao extremo na minha vida. Criancas flutando em panelas, remando com pedacos de madeira pedindo esmola em volta dos barcos abarrotados de turistas. Casas flutuantes de um comodo em que vivem familias inteiras. Outro fato curioso e inimaginavel e a variacao do nivel do rio entre temporada de seca e de chuva. Para chegar no barco nos descemos pelo menos dez metros no porto em uma area extremamente vasta. Segundo os locais o rio cobre toda essa area na temporada de chuva. Nao e a toa que dizem que o Cambodia na temporada de chuva visto do alto lembra uma grande poca. Parte do passeio foi uma visita a uma fazendo de crocodilos e cobras.
Acabado o passeio, ja tinha decidido que no dia seguinte eu iria seguir em frente e meu proximo destino seria Ho Chi Min, no Vietnam. Enquanto que o Tim iria para Phnom Penh, capital do Cambodia. Nossos planos de viajar juntos ainda existem, mas vamos tentar nos reecontrar no Laos para tentar viajar pela China juntos. Por enquanto, eu volto para a estrada sozinho. A verdade e que eu ja estava sentindo falta. Mais uma noite com meus amigos de Koh Pangang. Mais uma vez muito divertido, foi um prazer reencontra-los, mas era mais do que hora de seguir em frente e recomecar sozinho num lugar diferente e conhecer pessoas novas. Mais uma vez encontrei o Phil e a Francesca no onibus. Seis horas depois me despedi de vez dos meus amigos britanicos em Phnom Penh. Entrei no onibus pra Ho Chi Min, olhei em volta e nao vi nenhum rosto conhecido. Finalmente de volta a estrada.

Saturday, January 2, 2010

Diario de Bordo XIII: Meu primeiro natal longe de casa e a espera pelo ano novo.






A volta pra Koh Pangang comecou com um atraso de tres horas no horario do onibus. Pra compensar a moca da agencia de viagem que nesse momento ja e ate minha amiga no Facebook de tanto que eu apareco la pra pechinchar o preco da passagem passou meu bilhete pro barco rapido, o que significaria sair tres horas atrasado e chegar la na mesma hora. Sendo assim tudo bem e ainda me colocou no primeiro assento do onibus. Na frente do onibus tinha um espaco pra colocar malas e mochilas que estava vazio. Resultado, virou minha cama e quando acabei a viagem estava super descansado. Chegou a hora de pegar o barco e ate ai tudo bem, mas foi so o barco comecar a andar que o bicho pegou. Em dez minutos de viagem eu contei onze pessoas vomitando. A viagem ate Koh Pangang duraria tres horas. Mais de cinquenta pessoas vomitaram, algumas desmaiaram e, por mais incrivel que pareca, eu que sempre fui um dos primeiros a vomitar nesse tipo de situacao, consegui segurar ate o final da viagem. O mais interessante dessa situacao e o efeito bocejo, pois esta todo mundo enjoado, mas basta o primeiro dar o sinal de que o jantar esta voltando que um monte de gente corre atras pra vomitar tambem.
A chegada de volta no hostel foi totalmente diferente da semana anterior em que eu cheguei a ficar um dia sozinho num quarto com vinte camas. Dessa vez, pela proximidade com o Natal e ano novo, a ilha estava bem cheia. O hostel estava relativamente cheio e na primeira noite fomos todos jantar juntos, o que foi otimo pra mim e para alguns caras que haviam acabado de chegar. Muitos ingleses, algumas suecas, um australiano, um holandes e o brasileiro que vos fala formavam o grupo. Fomos a um bar e depois pra praia onde encontrei minhas amigas de Israel que ainda estavam na ilha. E assim formamos um otimo grupo logo de cara. Com algumas figuras muito peculiares. Nosso amigo australiano, Tim, que simplesmente desaparecia num estalar de dedos. Phil, o britanico que bebe tanto que conforme o Tim falou, ninguem precisa beber pra ficar bebado perto do Phil, basta assistir ele bebendo. E a maior figura de todas, sem sombra de duvida, era o holandes chamado Wilco.
Na noite seguinte, havia uma festa na piscina de um hotel e algo no cartaz dizia algo sobre "cross dressing". Cross dressing e quando os homens se vestem de mulher e vice-versa. O Wilco nao pensou duas vezes, saiu comprou um vestido de arco iris e uma peruca loira. Vale mencionar que ele e quase do mesmo tamanho que eu. Como se nao bastasse, ele ainda arrumou vestidos pra mim, pro Phil e para um outro britanico chamado Tom.
Chegando na festa, descobrimos que o Wilco viu o dia errado e nos eramos os unicos vestidos de mulher na festa. Dois caras de dois metros de altura, um militar britanico forte pra cacete e um careca, provavelmente o grupo mais de feio de mulheres a andar na face da Terra. Foi bem divertido e acabou que fomos a atracao da festa.
E chegou o Natal. Nosso amigo britanico Aidie organizou um jantar pra todos nos com um amigo oculto. O amigo oculto foi um fracasso, mas foi um sucesso total quando eu, Phil e Wilco chegamos vestidos de Papai Noel. Na mesma noite, havia a Half Moon Party. Nos tiramos fotos com um monte de gente e nos divertimos bastante.
Dia 25, foi um tanto melancolico. Todo mundo foi ligar pra casa e dava pra ver que estar longe de casa no Natal nao e tarefa facil pra ninguem.
A noite foi tranquila. Conheci umas meninas do Peru que se tornaram as primeiras peruanas que eu conheci viajando ate agora. Elas eram super legais e infelizmente so ficariam mais uma noite na ilha, pois estavam fazendo uma viagem rapida pela Asia.
No dia seguinte, descansei e passei um tempo com minhas amigas peruanas. Mais uma noite de festa na ilha. Muito legal e divertido, mas muito igual a todos os outros dias. Todo dia na ilha e muito parecido. Praia durante o dia, futebol, frisbee e praia a noite, festa. Depois de alguns dias todo mundo cansa.
O Tim, meu amigo australiano, desapareceu como de costume, mas deixamos combinado de tentar viajar o sudeste asiatico e possivelmente ver alguns outros paises juntos.
E assim foram passando os dias, a ilha foi enchendo dia apos dia, algumas pessoas foram embora. Muita gente nova chegou e agora no dia 31, nao ha mais nenhum quarto vago na ilha, todos na espera da Full Moon Party, a festa da lua cheia que concidiu com o reveillon esse ano. A ilha tem uma populacao de dez mil habitantes e para a festa sao esperados entre trinta e sessenta mil pessoas. Feliz Ano Novo para todos!