Thursday, December 24, 2009

Diario de Bordo XII: Chegando ao paraiso







Dezesseis horas de viagem nao e moleza. De cara conheci dois meninos ingleses que estavam indo pra outra ilha do sul da Tailandia e tinham acabado de chegar da Inglaterra. Eles combinaram jet lag com cerveja e pilulas pra dormir, pois os dois tem dificuldade de dormir em onibus. Resultado, apagaram, comecaram a sonhar em voz alta e atrapalharam o sono de todo mundo. No final da viagem, ainda tinhamos que pegar uma hora e meia de barco ate Koh Pangang. Foi uma otima oportunidade para conhecer Carmella e Alexis, meus novos amigos franceses. Carmela e tatuadora e mora no sul da Franca e o Alexis trabalha com teatro e ja viajou o mundo todo. Ele conhece mais lugares no Brasil do que eu. Entao chegamos a Koh Pangang e eu resolvi seguir com eles para o norte da ilha, apesar de saber que a parte mais movimentada era no sul. Chegamos na praia que o Alexis escolheu e o cenario era simplesmente indescritivel. Agua transparente, coqueiros, resorts, areia branca, um sol maravilhoso e uma sensacao de que aquele lugar estava muito alem do meu orcamento. E assim que fomos ver os precos de alguns lugares ficou claro que era tudo extremamente caro em relacao ao que eu esperava. Entramos no primeiro lugar que vimos que era o mais caro pra tomar um suco, pois depois de dezesseis horas de viagem, precisavamos de um tempo pra respirar. Abordei um gringo que estava na recepcao do resort e comecamos a conversar e fiz um dos maiores elogios que se pode fazer a um estrangeiro: perguntei se ele era da Nova Zelandia. A Nova Zelandia possui algo de "cool" entre todos os viajantes. E algo que nao da pra explicar. Depois estrategicamente falei que eu era brasileiro e estava procurando por algo mais em conta. O mesmo papo de sempre explicando que eu nao ganho dolar nem euro, venho de pais pobre de terceiro mundo. Ele mencionou uns bungalows que eles haviam acabado de construir, mas eles ainda nao tinham tido tempo de acabar o entorno e, por isso, nao estavam nem alugando ainda. Vinte minutos depois la estavamos eu e meus amigos franceses, hospedados num resort de mergulho de frente pra praia em Koh Pangang por menos de dez euros por dia. O lugar dispensava comentarios. O primeiro dia foi de descanso. Ficamos pelo resort e aproveitamos a piscina e a praia. O Alexis acertou os detalhes do curso de mergulho e no final do dia conhecemos um casal alemao, Nick e Kathrin. Ele e piloto de aviao e ela aeromoca. A passagem deles pra Tailandia custou 150 euros, para os dois (!!!). Nao existe desculpa melhor do que essa pra viajar. Jantamos todos juntos num restaurante super legal e eu cai na besteira de experimentar o curry amarelo. Ao final da refeicao eu havia bebido cinco sucos de manga e cinco garrafas de agua mineral. Mas consegui comer tudo. Era uma questao de honra.
No segundo dia, o Alexis foi pro curso de mergulho e eu e a Carmela fomos conhecer a praia de Haad Rin, a mais movimentada da ilha e famosa por ser o local da realizacao das festas da lua cheia. Estava na hora de voltar para o ambiente de hostel e decidi que no dia seguinte iria pra la. Rodamos um pouco pela praia que nao era tao bonita quanto a outra em que eu estava, mas tinha muito mais gente e depois voltamos pro hotel. Quando encontramos o Alexis ele estava maravilhado com o que aconteceu durante o mergulho dele. Eles mergulharam com um tubarao-baleia de cinco metros e ele estava totalmente encantado.
Nesse dia, os barcos pesqueiros chegaram trazendo a pesca para o jantar. Todos os restaurantes tinham uma mesa cheia de peixes frescos na entrada para que os clientes pudessem escolher o jantar. Eu, Carmela e Alexis dividimos um atum e um vermelho. Mais um jantar maravilhoso. De barriga cheia dormi cedo mais um dia. Tirei um tempo pra arrumar minha mochila e seguir em frente na manha seguinte.
Acordei, fechei a conta no hotel e me preparei para seguir para Haad Rin. Eu ja havia visto um bungalow la por um preco bem mais em conta, mas assim que cheguei dei de cara com o Dancing Elephant Hostel que eu ja havia ouvido falar, mas nao consegui encontrar no dia anterior. Mudei meus planos na hora e decidi ficar por la mesmo. O hostel e muito simples, mas muito bem cuidado. Fiquei no dormitorio e conheci o Knox, um americano que estava de ferias por um mes na Tailandia. Fomos dar um pulo na praia e ele me apresentou a alguns amigos ingleses. Meia hora depois surgiram uns alemaes de origem marroquina e acabamos batendo uma pelada na praia. Foi muito bom, mas como os ingleses ja estavam tortos de tanta cerveja (afinal ja eram quatro da tarde e pra ingles de ferias, essa ja e hora de ressaca).
A noite, fomos na Black Moon Party que e uma das festas mais importantes de Koh Pangang. A Full Moon era a festa original e pra encher o calendario turistico da ilha surgiram a Black Moon Party e a Half Moon Party. A festa tem um visual super interessante com paineis em neon e todo mundo pintado com tintas que brilham no escuro, mas a musica e tecno do inicio ao fim e chegamos pouco antes da meia noite e ja tinha gente desmaiada. Foi um pouco demais, mas valeu pela experiencia.
No dia seguinte, alguns dos meus companheiros de hostel foram embora e ficaram os desanimados. Ficamos de bobeira na praia e a noite fomos rodar pela praia. E sem o clima de Black Moon foi muito melhor. Um dos quiosques estava fazendo uma festa da espuma e eu encontrei perdidos na ilha meus dois amigos ingleses que haviam desmaiado no onibus e conheci duas meninas de Israel, Dana e Rave. E impressionante o numero de pessoas de Israel que eu conheci na Tailandia. Outra coisa importante que descobri em Koh Pangang e o milkshake de biscoito Oreo com banana. E um icone da ilha e e simplesmente delicioso.
O proximo dia seria o de despedida de Koh Pangang porque eu teria que ir ate Bangkok pegar meu passaporte com os devidos vistos no dia seguinte, mas eu estava gostando muito da ilha e decidi que voltaria logo depois que pegasse meu passaporte, ate porque ja havia cansado de Bangkok. Passei o dia com minhas amigas de Israel e no final do dia conheci o novo hospede do hostel, um ingles chamado Oliver. Fomos todos juntos pra praia e duas meninas inglesas que o Oliver conheceu no onibus se juntaram a nos. As festas a noite na ilha sao cheias de jogos valendo drinks. Queda de braco, lance livre, danca da cadeira e um jogo em que cada participante prende um balao na perna e tem que estourar o balao alheio enquanto protege o seu. Fui o vencedor do jogo do balao e ganhei de premio um dos buckets de rum tailandes que dividi com meus amigos e tivemos uma noite muito legal.
Acordei arrumei minha mala e segui para o porto. Com destino a Bangkok. Dessa vez, ao inves de ficar em hostel ou hotel fiquei na casa de uma americana amiga de uma amiga. Jelena esta morando faz quatro meses na Tailandia e trabalha numa ONG que elabora projetos em conjunto com o departamento de habitacao da Tailandia. Como o onibus chegou super cedo tive que fazer uma hora e acabou que fiquei conversando com um escoces e um canadense que estao viajando a respectivamente doze e quatorze anos. Os caras viajam um pouco, arrumam um emprego, juntam uma grana e depois voltam a viajar. O escoces chegou a montar um hostel na Guatemala, mas nao conseguiu ficar preso por muito tempo e seguiu em frente. Ainda que eu ache o estilo de vida um pouco extremo, e muito legal dividir experiencias com eles. especialmente pela atitude e perspectiva da vida. E sempre positivo e agrega muito. Se eu nao tivesse marcado com a Jelena teria seguido viagem com eles por um tempo. A Jelena foi uma super guia e me mostrou algumas coisas que eu nao havia visto em Bangkok como Chinatown e um dos distritos comerciais da cidade. A imagem de Chinatown corresponde exatamente ao que eu esperava encontrar na Asia. Ruas com milhares de lojas vendendo todo tipo de mercadoria por precos baixissimos e infestadas de gente. Tinha uma rua so com lojas de ursos de pelucia e a rua das flores tinha um perfume tao forte e doce que enjoava. Como nao podia deixar de ser, depois de vermos todas as coisas novas, acabamos na Khao San Road para mais uma longa noite. La encontrei, um frances chamado Harold que conheci em Koh Pangang que estava com uma amiga e eles se juntaram a nos. Fomos na pereginacao tradicional de bares e ainda encontrei com dois franceses que havia conhecido em Chiang Mai.
Dessa vez, a experiencia em Bangkok foi bem diferente, pois a Jelena me ensinou algumas palavras em tailandes que me ajudaram a me guiar e ter menos pinta de turista. E muito melhor entrar num taxi falando "oi" em tailandes e falar o nome do destino com "por favor" em tailandes. Se os motoristas sentem que estao lidando com gringo nem esbocam ligar o taximetro e jogam o preco la pra cima, mas depois que eu comecei a me dirigir a eles dessa forma, eles ligam direto o taximetro sem criar problemas. Uma coisa boa dos tailandeses e que eles sempre se esforcam muito pra falar ingles, mas eles gostam muito quando os estrangeiros falam tailandes.
O dia em Bangkok foi muito legal, mas eu ja estava com vontade de voltar pra Koh Pangang. Fui almocar com a Jelena proximo ao trabalho dela e me despedir. Ela me levou a um lugar a que tailandeses comem regularmente fora do circuito turistico tradicional. Os precos eram inacreditaveis. O meu prato custou quarenta centavos de euro. Mais inacreditavel do que os precos era o quanto a comida era apimentada. Eu simplesmente nao consegui acabar o prato e o pior e que a comida estava maravilhosa, mas simplesmente nao dava pra terminar. Me despedi de minha nova amiga "tailandesa" e segui pra pegar o onibus de volta pra Koh Pangang. Agora e rapidinho. Dezesseis horas e estou de volta...

Monday, December 14, 2009

Diario de Bordo XI: Welcome to the jungle






Amassado num trem tailandes por 14 horas. Quatorze horas e tempo pra caramba. Nao existe atividade no mundo capaz de me entreter por tanto tempo. Sendo assim temos que arrumar alguma coisa pra fazer. Por isso, foi otimo quando surgiu a(o) atendente do trem. Nattalie (com dois "t"s mesmo). Um travesti tailandes no melhor estilo Vera Verao. Cheia de tiques, espalhafatosa e barulhenta nos divertiu por boa parte da viagem. Do nosso lado havia um senhor e uma menina tailandeses que tambem conversaram com a gente por um bom tempo e ajudaram a passar o tempo. E assim, chegamos a Chiang Mai.
O hostel era bom e tirando o fato de que eu estava completamente empenado estava tudo otimo. Entao, o Paul teve a melhor ideia das ultimas semanas: massagem tailandesa. Segundo ele, a massagem foi otima. Eu nao faco a minima ideia. Entrei deitei e dormi. Ele disse que a mulher me estalava de um lado pro outro e eu so roncava. No final das contas, foi otimo. Pude descansar e ainda sai novo em folha. Demos uma olhada em alguns templos e no mercado noturno de Chiang Mai e fomos dormir.
No dia seguinte, era o dia do inicio do passeio de tres dias pelas florestas da Tailandia. Ja comecou meio torto quando vimos que nosso grupo de doze pessoas era composto por doze homens, sendo que um deles era extremamente afeminado (nada contra, so que nessa situacao nao da). Portanto, um de nos estava feliz. Mas as pessoas que compunham o grupo eram otimas: tres suecos altissimo astral, um senhor belga que apesar de ter 55 anos de idade fechou com a gente em todas as atividades, dois franceses que trabalham na industria de petroleo, um americano que da aula de ingles na Coreia do Sul, o alemao feliz, eu, Paul e dois belgas que so queriam ficar chapados. Harry, um dos belgas, comecou o primeiro dia com uma cerveja as nove da manha. E estava vomitando antes da hora do almoco.
Nossos guias eram dois tailandeses oriundos de aldeias da regiao.
Fomos pra primeira atividade que era bambu rafting. Os indios fazem umas canoas de bambu e nos descemos o rio nelas. Nada demais, nenhuma grande emocao, mas ai comecamos um jogando agua no barco do outro e na metade estavamos pulando de um barco pra outro e virando os barcos a torto e a direito. Em um ponto da descida, um dos guias perguntou se queriamos pular de uma pedra no rio. Tinha pelo menos uns seis metros de altura. Primeiro um dos guias tailandeses pulou e quando levantou estava com agua pouco acima da cintura. Sendo que ele tinha menos de 1,60m. O conceito de seguranca ainda nao chegou a Tailandia. O Harry ainda pulou em um outro ponto mais fundo, mas acabou que o resto da galera desceu como subiu.
Almocamos, fomos a uma cachoeira e fizemos uma trilha ate o primeiro acampamento com uma tribo. A tribo ainda conserva alguns habitos, mas esta bem civilizada. E a caminhada nao foi nada demais, pois a selva nao era tao selva assim. No fim do dia, nosso guia ainda arrumou uma fogueira pra galera, mas como o grupo era composto por doze homens, antes das dez da noite estavam todos dormindo.
No segundo dia, fizemos somente uma caminhada pelo mato e chegamos ao segundo ponto em que passariamos a noite. O lugar era muito bonito e proximo de uma cachoeira. O problema dessas trilhas era o frio da noite. O frio era simplesmente insuportavel, mas bastava o sol da manha pra voltar o calor.
No terceiro dia, fomos andar de elefante e encerrar o passeio. Era pra ser o ponto alto do passeio, mas infelizmente foi lamentavel. Pra fazer o elefante andar os caras literalmente enfiam a porrada no bicho. E lamentavel.
No final, quando visto em perspectiva acaba que fiz novos amigos e dei boas risadas com pessoas otimas e so isso ja faz valer a pena. Nossa alimentacao foi extremamente saudavel com vegetais colhidos na hora e carne de frango criado nas aldeias. Foi bom pra dar um descansada.
A noite saimos para beber uma cerveja e acabamos num bar bem morto. Foi ai que eu conheci um brasileiro que mora em Chiang Mai e ele me indicou um lugar chamado Warm Up Club. Como a Tailandia e um lugar de miseria e turismo, boa parte da vida noturna se limita a prostituicao e como nos queremos distancia disso, perguntamos qual seria o lugar pra fugir desse sub mundo. Fomos parar numa boate gigante, cheia de tailandeses em que os unicos estrangeiros eramos eu e o Paul. Tinha uma banda tocando musica tailandesa e todos os tailandeses estavam cantando acompanhando a banda. Ai o Paul compensou todas as boas ideias que ele teve ate hoje quando pediu pra um tailandes uma dica do que ele deveria beber e o cara falou que ia resolver isso pra gente. Por menos de sete euros ele nos arrumou uma garrafa de whisky tailandes e duas de soda. E ai compensamos por todas as noites que passamos na selva dormindo cedo. Mas estava tudo muito divertido e animado ate descobrirmos que uma das meninas que estava dancando com a gente era um travesti tailandes. Ai azedou a noite e acabou que fomos embora. Esse e o problema da Tailandia. Essa cultura de travesti e prostituicao fazem com que diversos dos hoteis daqui tenham um aviso que proibe o acesso de mulheres tailandesas ao predio. E realmente uma lastima que um pais com tanta coisa incrivel e tamanha vocacao pro turismo seja um antro de charlatanismo e bandidagem, mas lembra algum outro pais que eu conheco bem e vivi a maior parte da minha vida.
Sexta-feira, era dia de despedida dos meus novos amigos e hora de voltar pra Bangkok pra depois seguir pras praias do sul. Me despedi de meus novos amigos e de meu novo grande amigo, Paul. Uma das coisas mais aprendemos viajando e como pessoas que conhecemos por tao pouco tempo e que provavelmente nunca mais veremos causam impacto na nossa vida. Muitas vezes um comentario vale por anos de convivencia. O Paul e um cara muito simples que virou um grande amigo e que causou grande impacto na minha forma de ver as coisas. E uma daquelas pessoas que tira o maximo de qualquer situacao. Vou ser pra sempre grato as pessoas que passam correndo na nossa vida e nos ajudam a crescer. E fico muito feliz quando sinto que fiz isso por alguem. E gratificante e nao ha dinheiro no mundo que pague essa sensacao. Me chateia ver o tanto de tempo que corri atras de coisas que nao me faziam feliz.
Entro no onibus pra Bangkok e chego direto na Khao San Road... dez horas depois. Arrumei um hostel com preco otimo e paguei duas noites. Fui no primeiro hostel em que eu fiquei pra ver qual a situacao dos vistos que eles estavam agilizando pra mim e conheci a Bethany, uma menina super gente boa da Nova Zelandia. Acabou que fomos juntos no MBK que e um super shopping center de Bangkok. Incrivelmente barato e gigantesco, localizado famosa por ser o distrito comercial de Bangkok, o que e um tanto impressionante numa cidade em que cada beco possui seu proprio mercado. Muito mais que um shopping center o MBK e uma atracao turistica.
Apos o MBK seguimos para Khao San Road e depois a Bethany seguiu para o hostel para dormir e eu fui passar mais uma noite em Bangkok. Dessa vez sozinho, fui para o meu bar predileto, Roof. Em alguns minutos, conheci umas meninas holandesas e comecei a beber os "buckets" de rum tailandes junto com elas. Resultado, sai de la pra uma boate, depois pra outra e por ai vai.
Entao, no dia seguinte eu percebi que minha vida em Bangkok e um tanto como o "The Hangover". Eu acordo na hora do almoco, olho na minha camera fotos de pessoas que eu nunca vi antes, eu nao lembro de ter conhecido e provavelmente nunca mais vou ver e no bolso da minha bermuda encontro um monte de papeis com contatos de facebook e email de pessoas que eu nao faco a minima ideia de quem sejam. Entao, naquele momento eu percebi que era hora de seguir em frente. Olhei as opcoes de ilhas e praias no sul e escolhi Koh Pagnang. As tres da tarde comprei uma passagem de onibus para viajar as seis da tarde. Dezesseis horas de viagem. Sem problema. O unico problema e que eu tinha pago o quarto por mais uma noite e ia morrer numa grana, mas a diaria era seis euros e nao era nada demais. Quando de repente, do meu lado escuto uma voz dizendo: "Olha, veio, nos tem que pagar barato nesse hostel ai senao ja era!" E conheci Pedro e Thiago, dois mineiros de BH que tinham acabado de chegar do Brasil n Tailandia. Estavam viajando fazia mais de um dia. Conversei com eles e, no final das contas, eles ficaram com meu quarto no hostel e me pagaram a diaria a mais que eu pagaria e ainda me convidaram para passar o ano novo com eles em Koh Pagnang que e exatamente o lugar onde eu quero passaro ano novo de qualquer jeito. Ou seja, no final das contas tudo deu certo. Dois meses e meio atras eu nunca ia conseguir me sair bem dessa, mas agora, bem agora sao dezesseis horas de viagem ate o paraiso...

Sunday, December 6, 2009

Diario de Bordo X: de turcos a tigres.






No final de semana, tive a confirmacao do o Mario havia me ensinado na semana anterior: "nunca volte a um lugar em que voce foi feliz." Eu cismei que Istambul ia ser tao legal quanto no fim de semana anterior e forcei uma barra, mas acabou que era realmente impossivel juntar tanta gente legal que nunca havia se conhecido antes. Especialmente por dois fins de semana seguidos.
E chegamos no Bahaus de novo e de cara fomos super bem recebidos pelo staff. Eles deram um descontao pra mim e pro Art e ficamos muito bem alojados. Tinha muita gente legal sim, mas de cara deu pra ver que nao seria nem de perto o que foi a semana anterior. Sexta feira ninguem saiu. Ficamos de bobeira no hostel jogando conversa fora. Foi bom pra acordar um pouco mais cedo porque eu e o Art nao tinhamos visto o Palacio de Topkapi e la fomos nos. Cajado do Abraao, cabelo de Maome e realmente e impressionante ver esse tipo de coisa, mas incrivel mesmo sao os diamantes. Um deles e maior que uma bola de golfe.Era quilate que nao acaba mais.
De volta ao hostel, conheci um mexicano que se tornou um super camarada em tempo recorde. Luiz Miguel Arrieta esta viajando faz dois meses e esta fazendo o caminho oposto do meu. Ele esta vindo da Asia pra ver a Europa. Ainda fiz amizade com uma americana super gente boa chamada Marlena que esta estudando em Moscou. Chegando a noite, a galera que estava esperando pra sair nao era nem metade da semana anterior e nao era porque o hostel nao estava cheio. As pessoas simplesmente nao estavam no mesmo ritmo. Algumas americanas que foram dormir as dez da noite, uns portugueses que nao animaram em nada, diferente do portugues da semana anterior que sozinho animou por Portugal inteira e as norueguesas que ainda que tenham saido com a gente so queriam ficar sentadas conversando. Mas fomos em frente pra primeira boate e estava morta, mas o grupo ate que animou o lugar. Brad, Britney, Reesee, Donna, Luiz Miguel, Jimmy foram super legais e o comeco da noite foi bem tranquilo. Um dos turcos bebados que estava la perdido no lugar deu meio que uma bundada de brincadeira em uma das meninas que estava com a gente e jogou ela no chao, ai o Art deu uma bundada no cara devolvendo a gentileza e ele se espatifou no chao de forma igualmente espalhafatosa, mas um pouco menos graciosa. No final das contas eu acho que os turcos perceberam que o Art era maior pros lados do que os tres caras juntos e deixaram por isso mesmo. Ate ai tudo bem, mas no caminho pro segundo local que iriamos, um dos rapazes que estava conosco esbarrou numa menina e criou-se uma confusao gigantesca. Um bando de babacas turcos cismaram de bater no cara so porque ele era pequeno e magro, mas ai chegou a cavalaria (basicamente eu...) e a porrada estancou. Eu nao sofri nem um aranhao, mas minha camisa ficou cheia de sangue e sem querer entrar em detalhes foi o suficiente para azedar a noite. Foi ai que parei pra perceber como tem gente arrumando confusao de graca nas ruas de Istambul. Os caras so querem brigar e pronto. A policia nem se mete. Os caras trocam tres ou quatro tapas, o pessoal separa e fica tudo bem. Esse acontecimento matou a noite e assim acaba o meu segundo fim de semana em Istambul. Confirmou o que eu tinha sentido na semana anterior de que era hora de seguir em frente.
E assim passei o domingo de bobeira com meu amigo Luiz Miguel, Art e Donna, uma americana super legal que se juntou a nos na noite anterior.
Donna e Art foram para Cappadoccia no domingo a noite. Donna voltava na segunda a noite, mas o Art ia depois voltar pra Arabia Saudita e nao nos veriamos mais tao cedo. Entao assim nos despedimos. Meu companheiro de road trip turca segue em frente.
Na segunda, eu tentei ver se conseguia alguns vistos, mas estava tudo fechado e percebi que se eu continuasse naquele ritmo nao ia sair de Istambul nunca. Entao decidi que terca era o limite. Eu tenho que ir a algum lugar
Pra sempre vou lembrar dos kebabs, do baklavha, do por do sol e da incrivel vista da Mesquita Azul e do Hagia Sofia um de frente pro outro. Eu acredito que em nenhum lugar do mundo, dois monumentos tao incriveis estao tao proximos. Meu amigo Luiz Miguel me sugeriu a Tailandia. Entrei na internet e vi que nao precisava de visto, pensei um pouco e, para decidir de forma responsavel, joguei uma moeda pra cima, deu cara, pronto proximo destino escolhido: Bangkok. Meu amigo Luiz Miguel estava seguindo pra Madri e fomos juntos pro aeroporto.
Sem passagem, hostel e sem saber basicamente nada da Tailandia, entrei na internet e achei um voo que ia pra Bangkok e saia as 19h. Eu e Luiz Miguel queriamos viajar juntos, mas nao fazia muito sentido, pois estavamos indo em direcoes opostas. Chegamos no aeroporto e ele quase perdeu o voo pra Madri. Se ele perdesse falou que iria seguir comigo. Bem que eu tentei atrasar ele o quanto pude, mas ele chegou a tempo e seguiu viagem. E assim dei adeus a meu novo amigo mexicano.
Consegui comprar o bilhete e esperei um pouco para embarcar para Abu Dhabi. Eu desisti de tentar entender os horarios dos voos porque qas diferencas de horarios eram tao grandes e os voos tao longos que e melhor esquecer. Mas chegando em Abu Dhabi, ficou claro que eu ia ficar no aeroporto esperando por dez horas meu proximo voo.
E embarquei para Tailandia no dia seguinte, sem ter dormido por um segundo. Chegando em Bangkok, tomei a vacina contra a febre amarela e segui pro hostel que eu marquei pela internet no aeroporto.
O hostel era muito interessante, mas parecia mais um hotel que um hostel. Dividindo o quarto comigo estava meu amigo ingles Paul Colin Mitchel que em breve se transformou em "Paulo" e adotou o meu sobrenome para falar pra todo mundo que nasceu no Brasil, mas foi criado em Londres. Para sacramentar a nova nacionalidade ele mandou fazer uma carteira de estudante falsificada com seu novo nome Paulo Goncalves por 150 bath, o equivalente a tres euros.
Na minha primeira noite em Bangkok, conheci o "Paulo" e duas inglesas, Luisa e Jess, que estavam indo para o Laos no dia seguinte. Eu nao dormia fazia mais de 20 horas, mas ja que todo mundo ia sair, por que nao? E la fomos nos. Nao existe cidade do mundo com mais esquemas para enganar turista do que Bangkok. E nos deviamos saber que nao devia ser a melhor ideia do mundo pedir dica de noitada para o taxista parado na frente do hostel. Fomos parar numa boate chamada "Spice" que inicialmente pareceu muito legal. Mas algo nao estava certo. Entao em alguns minutos percebemos o que nao estava certo na boate. Apesar da boate parecer ter mais mulher que homem a primeira vista, um olhar um pouco mais cuidadoso revelava que mais das metades das "mulheres" eram lady boys tailandeses. Era travesti que nao acabava mais. Saimos de la e pegamos um tuk-tuk que e um carrinho feito a partir de uma moto com uma carroceria bem vagabunda que serve de taxi por aqui e leva os turistas pra cima e pra baixo por toda a cidade. Fomos para um outro lugar com menos lady boys e com muito mais gente. Quando voltamos pro hostel ja estava claro. Eu e Paul dormimos por tres horas e acordamos pra visitar alguns monumentos. Pegamos a barca e fomos ate o Grande Palace. O Grand Palace difere muito de tudo que vi pelas formas, cores e principalmente porque tudo parece sempre muito novo. As cores sao sempre vibrantes, diferente do cinza desbotado de igrejas e mesquitas. Durante nossa visita, vimos que o telhado de um dos templos estava sendo reformado, paineis sendo renovados e algumas estatauas sendo retocadas. O engracado e como a todo momento tem alguem querendo passar os turistas pra tras nessa cidade. Nos chegamos no Grand Palace e um cara com um cracha simplesmente falou que estava fechado porque era aniversario do rei no dia seguinte. Eu nao entendi nada, mas o Paul falou que ja tinha ouvido essa de algum amigo dele. Algumas pessoas sao contratadas para ficar na frente de monumentos falando pros turistas que aquela atracao esta fechada e recomentdando que eles sigam para as atracoes para as quais eles trabalham. A toda hora na rua tem alguem na rua tentando passar a perna no turista. Mas pra quem esta vindo da Turquia, nao tem nem graca. Os turcos sao implacaveis em negociacoes, eles xingam, falam alto, fazem cara de mal e conseguem fazer isso por horas enquanto que os tailandeses desistem no primeiro nao. O problema e que a Tailandia e tao barata que eu fico ate com vergonha de pechinchar. No final das contas, eu pechincho so por diversao para depois pagar o preco cheio. Uma camisa custa mais menos 100 bath que equivale a, aproximadamente, dois euros. Nossas refeicoes saem por algo em torno de 30 e 60 bath, ou quinze a trinta centavos de euro. Uma cerveja custa 50 bath. A unica certeza que eu tenho e que se eu tivesse comecado minha viagem pela Asia, eu ia chegar na Europa e voltar correndo pra ca. Ia me sentir ainda mais roubado.
Quando voltamos pro hostel, conhecemos Marc, nosso novo colega de quarto espanhol de Barcelona. Estavamos conversando e ele mostrou que na cama do lado haviam seis guias do sudeste asiatico, alem de uma bandeira do Chelsea. Estavamos fazendo piada sobre que tipo de mochileiro levaria seis guias do mesmo lugar quando Sean entrou vestindo a camisa do Chelsea e se juntou a nosso grupo. O Marc ja tinha estado em Bangkok antes e sugeriu um restaurante para jantarmos. O restaurante era muito bom, bem sofisticado, todo mundo bem vestido e os unicos largados eramos nos. Comemos dois pratos cada um, bebemos a vontade, sobremesa pra todo mundo e pagamos sete euros cada um incluindo a gorjeta. O assunto do jantar nao deve ser nada dificil de adivinhar qual foi, afinal o que dois ingleses, um brasileiro e um espanhol tem em comum? Todos adoram futebol. Dali seguimos para Khao San Street. O lugar estava abarrotado de gente, boates e bares para todos os lados, uma atmosfera incrivel. Entramos num bar e no meio da bagunca que estavamos fazendo conhecemos algumas meninas holandesas, uns caras de diversas partes da Europa e ate o cantor do bar que era um tailandes que cantava pra caramba. Seguimos dali para um boate na propria Khao San Road e percebemos de cara que aquele era o melhor lugar da cidade. Alem de ser um ponto central da area turistica da cidade, temos facil acesso as carrocinhas de "pad thai". O "pad thai" e o atual substituto do kebab na minha dieta, o que significa que eu como pelo menos uns cinco pad thais por dia. E um misto de macarrao com legumes que pode ser servido com carnes diversas ou ovos. E saboroso, saudavel e barato. Um pad thai sai por algo em torno de 30 bath, uns 60 centavos de euro.
No dia seguinte, como eu e o Paul ja haviamos combinado de ficar mais dois dias em Bangkok pegamos nossas coisas e seguimos pra Khao San Road pra escolher nosso novo hostel. Acabamos num hotel com piscina pagando mais barato que no hostel que estavamos antes.

Pegamos um tuk-tuk e fomos ver alguns templos e budas famosos. Depois seguimos para o "TAT" que e a autoridade de turismo do governo tailandes e funciona como um agencia de turismo do proprio governo tailandes. E a melhor forma de evitar os golpes que os tailandeses aplicam nos turistas. Fomos atendidos por um senhor tailandes que nos recebeu com um "Good Day, mate!" Parecia montagem, mas era mesmo um taialndes falando como sotaque australiano chamado Geoffrey. Parece que alguns tailandeses tem nomes ocidentais e outros, como o Geoffrey que ja era mais coroa, simplesmente escolhem um e passam a usa-lo, alem dos travestis que simplesmente escolhem um nome de striper americana. Entao, enquanto o Geoffrey nos ajudava a montar nossa viagem pra Chiang Mai no norte da Tailandia eu nao conseguia parar de pensar porque de todos os nomes do mundo ele foi escolher o do mordomo do "Fresh Prince of Bel Air"? Ainda acabou que ele marcou para nos um passeio no dia seguinte para visitar o mercado flutuante, a ponte do rio Khwai e o templo dos tigres.
Seguimos para Khao San Road e fomos pro mesmo bar da noite anterior. A ideia era ficar numa boa pra acordar cedo e ir no passeio no dia seguinte quando o Paul teve uma ideia incrivel: "Acho que deviamos provar esse rum tailandes. Todo mundo fala muito bem." Entao, por seis euros nos recebemos simplesmente um balde de rum, Coca-Cola e Red Bul. Bebemos dois e a noite tranquila ficou por ali mesmo. Meu amigo Paul foi se engracar e falar pra uma menina que era brasileiro e ficou com uma cara de bunda gigante quando ela perguntou em portugues de onde ela era. Foi se engracar logo com a brasileira. Ela se chamava Paola e e de Bauru. Assim como nos esta viajando o mundo e tinha acabado de conhecer um grupo composto por um sueco, dois inglesas e ela de brasileira. Fomos pra mesma boate da noite anterior e acabou voltamos pro hotel as cinco da manha.
No dia seguinte, o despertador tocou mais de vinte vezes ate levantarmos. Com uma dor de cabeca insuportavel de ressaca do rum tailandes, nos aprontamos em cinco minutos e corremos pra pegar a van que nos levaria pro passeio. No caminho, eu vivia aquele momento "eu nunca mais vou beber na minha vida" enquanto o motorista me lembrava das tecnicas de direcao utilizadas pelos motoristas de onibus do Rio de Janeiro numa danca de "aceleradas e freadas" que nos deixa a certeza que o carro e da empresa e nao dele. A primeira coisa que vimos foi o mercado flutuante e ate foi interessante, mas a unica coisa que me ocorria era porque diabos nos tinhamos provado o maldito rum tailandes. Na hora de sentar no tal do barquinho eu queria sentar longe do Paul porque eu sabia que aquela porcaria ia balancar pra cacete e eu nao queria que caso o cara passasse mal vomitasse em cima de mim. Sentei no ultimo lugar do barquinho, mas a moca que pilotava pegou uma almofada e pediu pra ele sentar imediatamente atras de mim. Ainda bem que conseguimos passar sem nenhum incidente. Em seguida, fomos conhecer a ponte do Rio Khwai. A historia e muito triste. Na segunda guerra mundial, os japoneses escalaram prisioneiros de guerra pra construir tal ponte em condicoes sub-humanas. Pra piorar a ponte ainda foi bombardeada pelos proprios aliados com muitos dos prisioneiros nela. Acabou que a historia virou filme e a ponte virou celebridade. A verdade e que todo mundo que estava no tour com a gente nao tinha dado atencao pro programa e ninguem ali tinha a minima vontade de ver a ponte, mas ninguem falou nada antes e la fomos nos. De legal, so o filhote de leopardo com que eu tirei uma fotos. O nosso guia era um tailandezinho engracado pra caramba. O cara queria fazer churrasco de toda a fauna tailandesa. Ele foi nascido e criado numa aldeia que sobrevive basicamente de caca e o cultivo de alguns legumes, entao toda vez que alguem falava de tigre, elefante, iguana, cobra, macaco e qualquer outra coisa, ele sempre adicionava um comentario de que a carne era muito saborosa e se tivessemos a oportunidade deveriamos provar.
A proxima e ultima parada era, na verdade, o motivo pelo qual estavamos no passeio. Um templo budista que virou abrigo para animais e hoje abriga quase cinquenta tigres. La quem quiser pode tocar e tirar fotos com tigres. Com a caca, muitos tigres sao mortos e os filhotes ficam orfaos perdidos na mata sem a minima chance de sobrevivencia. Quando esses animais sao encontrados sao enviados para o templo, alem dos animais que sofreram maus-tratos ou sao recuperados doentes na mata e precisam de assitencia e tratamento. La os voluntarios e os monges tomam conta de todo tipo de animal que lhes sao encaminhados. Eu esperava ver um ou dois tigres de perto, mas de repente me vi no meio de uns quinze presos apenas por coleiras. Eles sao acostumados desde cedo ao contato com seres humanos, mas assusta um pouco estar tao proximo de um animal que pode literalmente arrancar a cabeca de uma pessoa com uma mordida, por isso que a visita e cercada de cuidados. Valeu muito a pena. Foi o maximo, nao e todo dia que temos a oportunidade de ver um tigre de perto, quanto mais um monte deles.
A volta me lembrou um pouco da Turquia... Mais especificamente de Troia e da Odisseia. Curiosamente, algo que eu nao tinha conhecimento ate chegar na Tailandia e que a Tailandia tem um rei. E nos escolhemos o dia do aniversario do rei para fazer nosso passeio. A noite todo os tailandeses estavam indo em direcao a Bangkok para o aniversario do rei e nos pegamos um transito dos infernos. Ao chegar proximos do hotel, um mar de gente vestida de rosa. Os tailandeses admiram e respeitam muito o rei. No momento, ele esta bem doente no hospital. O rosa seria a cor que eles usam pra demonstrar que estao todos torcendo para que o rei melhore.
Conversando com o Paul, ele me falou como era estranho que eu nao conseguia aceitar a ideia de que um pais ainda tivesse um rei, enquanto que para ele como ingles e uma situacao no minimo natural. Mas as situacoes de Tailandia e Inglaterra sao um tanto distintas. Bangkok e um dos piores lugares que ja fui. Miseria, turismo sexual em larga escala, todo tipo de esquema para enganar os turistas, muita poluicao, calor infernal, transito caotico, a sensacao e de um Rio de Janeiro muito piorado.
Com a confusao armada para o aniversario do rei e por ainda estarmos mal da noite anterior decidimos que iamos descansar um pouco para podermos seguir viagem para Chiang Mai no dia seguinte. So que no dia seguinte era aniversario do Paul e eu nao podia deixar barato. Saimos para beber um cerveja e sentamos no bar pra assistir um jogo do campeonato ingles como ele queria. Foi ai que eu derrubei um pouco de cerveja na minha camisa e tive que voltar pro hotel pra trocar. Quando voltava pro bar passei por uma barraquinha que estava vendendo insetos fritos. Parei, olhei, pensei e comprei um pratinho com um pouquinho de gafanhoto, um pouquinho de barata, vespa e alguns outros insetos e fui pro bar. De repente nossa mesa estava cheia de gente querendo nos ver experimentar as iguarias. Conhecemos Kate e Lauren, duas meninas americanas que ja tinham viajado por todo o sudeste asiatico e nos deram varias dicas de onde ir, um mexicano que mora em Barcelona muito gente boa, mas que nao teve coragem de provar os insetos e um zoologo que eu esqueci o nome que quase nos convenceu de ir pra Nova Guine direto dali. Ele falou que sem sombra de duvida e o lugar onde mais viu casos de turistas que largaram tudo pra ficar por la. Ele conhece muito bem o sudeste asiatico assim como o resto do mundo e falou que nao ha lugar mais bonito. Quem sabe nao consigo dar um pulo la? No final das contas, nossa noite tranquila acabou ali mesmo. Chegamos de volta no hotel de manha cedo e o Paul teve um aniversario muito maneiro.
Acordamos no dia seguinte, prontos pra arrumar tudo e seguir viagem pro norte da Tailandia. Encontramos novamente com Kate e Lauren que iam seguir pro sul para ver as praias e fizemos a tal da massagem em que os nos enfiamos os pes num tanque e os peixes comer pele da perna so por curticao e depois nos despedimos de Bangkok. Agora sigo num trem que leva 14 hoas para percorrer 400 quilometros bem no estilo baiano. Pra quem vem da Europa de trens a mais de 200 km/h e um baita choque, mas tambem e uma nova experiencia. O trem tem cama e seria bem confortavel se eu tivesse menos de 1,80m, mas como nao e o caso, aqui me encontro amassado numa de um trem tailandes. Feliz da vida por seguir em frente.

Monday, November 30, 2009

Diario de Bordo IX: Road Trip turca






Foi dificil deixar Istambul, mas dar adeus faz parte e assim seguimos, eu e Art pelas estradas da Turquia. Pegamos o carro no aeroporto e dirigimos ate Bursa.
Bursa foi a primeira capital do imperio turco otomano ou algo do tipo, mas nao tem nada pra ver. De positivo, a hospitalidade do povo turco foi o cartao de visita. Paramos num cafe para perguntar como chegar no hostel e um rapaz que estava travalhando no cafe deixou o trabalho e nos levou ate onde tinhamos que ir. Ele nao aceitou nada em troca e nao quis que o levassemos de volta. Dormimos, acordamos no dia seguinte e vimos a mesquita da cidade que e bem bonita. Quando ja estavamos indo embora da cidade decepcionados, eis que demos de cara com a inauguracao de um restaurante e ganhamos kebabs de graca. E dai em diante Bursa sera lembrada como uma cidade maravilhosa por nos. Mas sair de Bursa foi um pouco complicado. O transito e caotico e uns caras simplesmente estacionaram colados no nosso carro sem espaco para sair. Tivemos que literalmente levantar o carro com a ajuda de alguns senhores turcos para poder seguir em frente.
Seguimos no dia seguinte para Pamukkale. Pamukkale significa castelo de algodao em turco. A cidade tem duas atracoes turisticas: "hot springs" que sao nascentes de agua quente ricas em minerais que deixam a montanha de Pamukkale branca como neve o ano inteiro e as ruinas da cidade de Hierapolis no topo da montanha branca. Muito bonito e interessante, mas vimos tudo em duas horas e seguimos em direcao a Aphrodisias. Conseguimos chegar la faltando vinte minutos pras cinco da tarde, mas aparentemente, o pessoal la ja estava fechando e todo mundo estava indo embora. Viramos o carro estacionamos e entramos pela saida como se fosse nada estivesse acontecendo. Depois de mais de 100 km pra chegar la, nao podiamos aceitar um simples nao. Ninguem falou nada e em menos de vinte minutos de muita correria conseguimos ver tudo e tirar mais de 40 fotos do lugar. Em seguida fomos para Selcuk. La dormimos e nos preparamos para mais um dia de ruinas e historia.
No dia seguinte, vimos as ruinas da Basilica de Sao Joao que e o local onde supostamente se encontram os restos mortais de Sao Joao, o templo de Artemis que era uma das sete maravilhas do mundo, as ruinas da cidade de Ephesus e a casa da Virgem Maria que reza a lenda seria onde ela teria morado ate sua morte.
Desde que comecei minha viagem eu ja vi o tumulo de Sao Thiago em Santiago de Compostela, de Sao Pedro no Vaticano e agora o de Sao Joao em Selcuk, mais dois ou tres apostolos e passo de viajante a peregrino. No templo do Artemis so uma das 127 lendarias colunas ainda esta de pe, o resto do que foi recuperado esta exposto no British Museum em Londres segundo os pessoal do local.
As ruinas de Ephesus sao as que estao em melhor condicao de preservacao de todas as antigas cidades gregas. O estadio antigo da cidade tinha capacidade para 24.000 espectadores e esta praticamente intacto. La encontramos com Roman e Leonor que estavam no hostel em Istambul com a gente. Acabou que passamos o resto do dia com eles e seguimos juntos pra casa da Virgem Maria. Que foi uma grande decepcao. O preco do entrada e abusivo e assim que pegamos o ingresso descobrimos que o valor cobrado e para manutencao e preservacao da estrada que leva ate la e nao para entrar no monumento, sendo assim eles aceitam doacoes para ajudar na preservacao da area. Me senti de volta ao Vaticano. Pra piorar tudo que tem pra ver la e um casebre e ainda metem uma placa proibindo fotos dentro do recinto. Ta legal, ja vi esse filme. Tirei o flash da camera e tirei uma duzia de fotos pra fazer valer o ingresso. Tirar foto de monumento nao pode ser pecado e se a Virgem Maria pagasse o que eu paguei para entrar na casa de alguem aposto que tambem ia pelo menos querer tirar umas fotos.
Acabado o passeio fomos comer na cidade e seguir para Pergamum. La encontramos as ruinas da Acropole turca. E foi na Acropole turca que tive um momento muito estranho. As pessoas estavam jogando moedas dentro de um poco e fazendo pedidos. Como turista idiota que sou, fui perpetuar a tradicao e ao empunhar a moeda, nao fazia a minima ideia de qual seria meu desejo. Fiquei alguns minutos la ate que joguei a moeda e pedi simplesmente para ser feliz. Nesse momento, eu nao faco a minima ideia do que gostaria que fosse minha vida daqui a cinco ou dez dias, quanto mais daqui a dez anos.
Vimos tudo rapido e seguimos para Troia. Troia na verdade foi surpreendente porque as pessoas falaram tao mal que fomos sem expectativa nenhuma. No final, vimos muito mais do que esperavamos. Troia foi reconstruida oito vezes ate que os caras simplesmente desisitiram e deixaram as ruinas de lado e seguiram em frente para outras cidades. Troia devia ser uma cidade incrivel, mas seus habitantes nao deviam prezar pela inteligencia, pois reconstruir a cidade pela terceira vez ja devia ser sinal suficiente de que ali nao era o lugar ideal para se ter uma cidade. E a historia do cavalo... Fala serio! Sera que depois de toda a guerra e a cidade sitiada por tanto tempo, ninguem desconfiou de um cavalo de madeira que surgiu do nada?
Depois seguimos para Cannukale para dormir e descansar para a volta a Istambul no dia seguinte.
Quem lucrou mais com essa viagem foi meu amigo Art. Ele aprendeu que e muito melhor ser brasileiro do que americano na hora de ligar pra fazer reservas em hostels ou hoteis. Portanto toda vez que ele ligava para ver se tinha vaga em algum hostel, ele falava que era brasileiro e assim Art Rich virava Artur Ricardo. Alem de ganhar sempre um descontinho, ninguem espera gorjeta de brasileiro. O exato oposto dos americanos.
Entao no dia seguinte pegamos a balsa em Cannakale e seguimos viagem pra Istambul. A ideia era vermos a costa da Turquia e aproveitarmos a viagem de volta pra tirar algumas fotos e voltar sem pressa. Bem no estilo road trip. Foi otimo ate que chegamos num ponto em que podiamos pegar a rodovia ou continuar na costa pelo que parecia um atalho. Era uma escolha obvia 40 km por uma rodovia auxiliar ou 80 km para fazer o mesmo trajeto porque teriamos que andar para tras para poder pegar a estrada principal.
Comecamos na rodovia auxiliar e de repente, cade o asfalto? Foram quarenta quilometros de pedras, penhascos e desfiladeiros. Levamos duas horas para percorrer 40 km numa estrada que so fazia subir. Valeu pela paisagem. Apos essa "odisseia" chegamos a Istambul prontos para descansar e aproveitar o fim de semana.

Tuesday, November 24, 2009

Diario de Bordo VIII: Istambul, a melhor cidade do mundo






Eu ja falei que Istambul e fascinante. Mas isso todo mundo que ja visitou a cidade sabe. Istambul foi muito especial pra mim pelas pessoas incriveis que la conheci. O primeiro passo foi a sorte que eu dei na escolha do hostel. Isso foi fundamental, porque o Bahaus esta situado numa area de hostels e restaurantes para turistas. No entanto, ele e o unico hostel que esta sempre cheio.
O ambiente e tao agradavel que duas horas depois de chegar na cidade ja conhecia quase todo mundo no hostel. E o quase se justifica porque sempre tem um grupinho de americanos ou asiaticos que nao se mistura. No dia seguinte, eu e Charmaine fomos no Hagia Sofia, na Mesquita Azul e no Grande Bazar.
No caminho do Grande Bazar, eu e a Charmaine estavamos caminhando pela cidade quando fiquei com vontade de provar o famoso suco de roma da Turquia. O suco era uma verdadeira porcaria, azedo que doia, mas foi nesse momento que tive a sorte de conhecer o Tarik que e um cara que em pouco tempo virou meu amigaco e o Jochan que e um alemao que rodou com a gente por todo o tempo que estivemos em Istambul. Aqui todo restaurante tem alguem na porta convidando os clientes para entrar. Essa e a profissao do Tarik. Ele e tao gente boa que simplesmente todas as refeicoes que eu e a Charmaine fizemos em Istambul daquele momento em diante foram no restaurante em que ele trabalha. Depois do almoco, esbarrei de novo com o Thiago e a Fernanda que eu havia conhecido em Atenas. Eu sabia que eles estavam indo pra Istambul e haviamos ficado de nos encontrar, entao aproveitamos para irmos juntos a um banho turco. Eu nao sabia nada de banho turco, mas a galera falou tanto a respeito que resolvi experimentar. O que eu aprendi e que os turcos levaram o conceito de limpeza a um outro patamar. Eles nao limpam a pele, eles arrancam. Fiquei cheio de ferida nas costas e nos bracos, mas foi bem legal.
Apos o banho turco ainda fomos jantar no mesmo restaurante de sempre e assistimos ao Tarik cantando musicas turcas.
No dia seguinte, acordei todo quebrado do banho turco e fui dar uma caminhada com a Charmaine pela cidade. Aproveitamos para conhecer melhor o Grande Bazar e o Spice Market. E muito divertido ver as negociacoes envolvidas em cada compra e a quantidade de ouro exposta em algumas vitrines. O ouro brilha tanto que fica ate dificil tirar foto. A noite fomos eu, Charmaine e Johan assistir a um show de musica turca a convite do Tarik. Foi uma experiencia muito interessante.
O show foi otimo, mas dificultou acordar no dia seguinte. E ao subir pro cafe da manha conheci o Art, um americano que jogou futebol americano na faculdade e hoje em dia da aulas de ingles na Arabia Saudita. Conversamos um pouco e resolvemos fazer um passeio de barco. E la fomos eu, Fernanda, Charmaine e Art. O passeio vai ate a ponte que cruza do continente europeu para o asiatico. O Art e uma das maiores figuras que ja conheci e alguns minutos depois de conhece-lo, fui convidado a me juntar a ele numa road trip pela Turquia. Por que nao? Estou dentro.
A experiencia que tive em Istambul realmente define o que e viajar na minha opiniao. No final das contas, tudo remete as pessoas que conhecemos no local que fazem com que os momentos vividos sejam inesqueciveis. Tenho certeza que Istambul sera insuperavel. Muita gente legal junta querendo se divertir da nisso. Ficamos tao amigos que os caras do hostel ate estranharam quando fomos levar a Fernanda no aeroporto, pois ela tinha que voltar pro Brasil. Para eles e normal que as pessoas sigam em frente, mas para nos estava tao legal que foi como se dessemos adeus para um amigo de longa data.
Apos a deixarmos no aeroporto, seguimos para o hostel para assistir um show de danca do ventre meio mixuruca, mas engracado. Em seguida, juntamos um grupo de pessoas que estavam hospedadas no hostel e saimos na noite de Istambul. As pessoas que sairam conosco eram em sua grande maioria simplesmente incriveis como Denis, o irlandes que usa um palavrao a cada tres palavras, Stuart, o australiano que sonha em ir pro Iran, Imi, o ingles que tem que mostrar o passaporte pra provar pras pessoas que nao e indiano e Mario, um portugues que tirou um ano pra viajar pelo mundo, mas ja reservou tres meses so pro Brasil. O lugar que fomos era super legal, mas so tocava musica turca e acabamos numa boate que nao tinha ninguem alem do nosso grupo do hostel. Estava tao animado que nem quando encontraram o Stuart desmaiado em cima dos sacos de lixo do lado de fora da boate o pessoal desanimou.
A noite foi muito legal, mas o dia seguinte foi um tanto triste, pois era o ultimo dia quase todo mundo no hostel. Entao tivemos que nos despedir da cidade e do restaurante do Tarik. Fui cortar o cabelo com um cara indicado pelo Tarik que me falou cinco vezes em trinta minutos que tinha sido considerado o quarto melhor cabeleireiro de Istambul. E no final todo mundo se encontrou no hostel para sair junto.
Eu tenho que fazer um parentese aqui para explicar que desde que cheguei a Istambul, senti como se tivesse encontrado o que estava procurando. Apesar de toda a confusao, eu acho a cidade linda e gosto muito dessa integracao de cidade europeia com cultura muculmana. Cheguei a olhar empregos e oportunidades por la.
E assim, de forma meio subita, mais uma vez algo me disse que era hora de seguir em frente. Algumas pessoas vieram perguntar se eu estava triste e eu tenho que confessar que estava um pouco, mas ao mesmo tempo fiquei feliz por sentir que minha viagem continua. E uma coisa estranha, sem explicacao (e quem me conhece sabe que eu sempre fui racional a ponto de nao deixar que nada assim influenciasse minhas decisoes), mas nesse momento e o que me guia. E curtimos todos ate quase de manha cedo e no final da noite eu sabia que minha experiencia em Istambul tinha sido incrivel, mas estava na hora de dizer adeus. O meu novo amigo portugues, Mario, me falou uma coisa que eu achei muito interessante e vou levar comigo daqui em diante: nunca volte a um lugar em que voce foi muito feliz. As chances de que tenhamos duas experiencias incriveis duas vezes no mesmo lugar sao tao remotas que nao vale a pena. E foi assim que fiquei feliz de acordar no dia seguinte rumo ao interior da Turquia para uma viagem de carro de carona com o Art. Istambul foi otimo, mas e hora de seguir em frente... de novo...

Monday, November 23, 2009

Diario de Bordo VII: Atenas e a chegada a cidade mais incrivel de todas, Istambul (20/11/2009)






E o voo pra Atenas foi indescritivel. O tempo estava otimo e quando o aviao ia descendo perto de Atenas, conseguia ver claramente algumas das ilhas e o belissimo litoral grego. Foi uma experiencia unica, inesquecivel, maravilhosa, mas... perai, cade minha mala? Espera, espera, espera e nada. E fica aquela sensacao de "merda, e agora?" Primeiro, bate o desespero. Ai eu reclamei e a mulher do balcao da cia aerea me deu quarenta euros pra passar o dia. Depois, pensa pra ca, pensa pra la e a cabeca ja tinha mudado um bocado. "Eu nem preciso daquilo tudo", "e melhor pegar a grana da mala e comprar tudo novo porque eu vou saber escolher muito melhor as coisas e ainda vai sobrar dinheiro". Bom ou ruim, o que sei e que eu tinha que aguentar um tempo ate ver o que ia acontecer. Usando, claro, a mesma roupa o dia inteiro. Meu pe estava destruido e eu precisava comprar sandalias, mas como estava doendo tanto eu nao conseguia sair pra comprar as malditas sandalias. Entao quando ja me agradava a ideia de ganhar uma grana da cia aerea e comprar tudo de novo, eles ligaram e falaram que encontraram minhas coisas...
Claro que eles so iam entregar no dia seguinte, entao eu tinha que aguentar ate o dia seguinte com a mesma roupa. Descansei um pouco e jantei num lugar que serviu uma das melhores refeicoes que eu ja fiz na minha vida. Cordeiro com batatas cozidas, simples e perfeito. Na volta pro hostel, ao tentar abrir a porta do elevador, acidentalmente libertei dois americanos que estavam presos la fazia algum tempo. E assim conheci Victor e Mike. Eu posso estar sendo injusto com todo mundo que conheci ate agora, mas acredito que esses tenham sido os caras mais maneiros que conheci ate agora. A historia dos dois e simples: eles se conhecem faz bastante tempo. Um dia olharam pra vida que estavam levando, pensaram por um momento no que fazer, venderam tudo e foram morar em Granada que e simplesmente minha cidade predileta de todas que visitei ate agora. Eles querem morar em Granada definitivamente, mas e dificil arrumar visto de residente na Espanha. Entao eu pensei depois de algumas cervejas eu tive um ideia: "Por que nao abrimos um hostel em Granada?" O Mike complementou: "Por que nao abrimos um hostel/night club?" E o Victor que e um italo americano sacana pra cacete bolou uma nova ideia de negocio que deve revolucionar a industria do entretenimento e hospedagem mundial: "Ja sei: um hostel/nightclub/stripclub!" E foi assim que terminou antes mesmo de comecar minha aventura empreendedora com meus dois potenciais novos socios. Algo me diz que nao daria certo.
No dia seguinte, eu, Victor, Mike e um casal de australianos que conhecemos no hostel fizemos a walking tour do hostel que nao foi muito legal, mas foi o suficiente pra ter uma ideia da cidade. Rodamos um pouco depois do tour, comemos um kebab de dois euros maravilhoso e depois fomos fazer uma caminhada no morro mais alto de Atenas. A vista era belissima e tiramos varias fotos muito legais. De repente ouvi alguem falando portugues e conheci o Thiago, a Fernanda e o Antonio. E assim quatro brasileiros se conheceram em Atenas. O Thiago e a Fernanda estavam viajando juntos. Eles sao oficiais da Marinha. O Antonio estava fazendo mestrado na Franca e tirou um tempo pra viajar. Conversamos um pouco e combinamos de nos falar por email.
Apos o passeio foi hora de me despedir de Mike e Victor que estavam indo para Creta. Eles ate me chamaram pra ir, mas eu tinha que dar a devida atencao a Atenas. Cheguei no hostel e tudo que eu queria era ficar com o pe pra cima. Abri o email e fiquei surpreso ao ver o roteiro que o Antonio tinha mandado por email. Ele estava propondo uma visita ao Oraculo de Delfos, ate ai tudo bem. So que eu teria que estar na estacao de onibus as seis da manha. Ou seja, esquece.
No dia seguinte, fiz amizade com duas meninas que estavam no mesmo quarto que eu e marquei com elas de ir a Acropole a tarde. De manha fui no Museu de Arqueologia. O Museu de Arqueologia de Atenas tem as coisas mais antigas que eu ja vi. Tem um monte de coisas com um monte de milhares de anos. E foi la que tive meu primeiro contato intimo com uma peca de mais de dois mil anos de idade. Enquanto eu tentava enquadrar uma peca de bronze para tirar uma foto, dei uns passos pra tras e ao dar um passo um pouco maior esbarrei numa peca que estava no meio do caminho num pedestal. Ela comecou a balancar e eu tive que abracar a porcaria da peca pra evitar que ela caisse. Depois de um esporro do seguranca, perguntei se a peca nao deveria estar presa ao chao e ele falou que aquela tinha acabado de ser movida pra la e por isso estava solta. Boa cagada que eu quase fiz.
A tarde, fui com duas amigas canadenses que conheci no hostel para dar um role na cidade e fomos a alguns museus e monumentos que eram basicamente um monte de pedras muito velhas e comecei a me sentir muito cansado de ver vasos de cinco mil anos de idade. Depois dos vasos de cinco mil anos de idade, qual a graca de ver vasos de dois mil anos de idade? Se eu trabalhasse num museu grego, ia propor alterar totalmente a organizacao do museu e colocar primeiro as coisas mais novas e depois as mais velhas pra que as pessoas continuassem interessadas nas pecas expostas de menos de dois mil anos de idade.
Caminhando para o Museu de Arqueologia, esbarrei com a Fernanda que conheci no dia anterior. Ela nao conseguiu acordar e ficou perdida pela cidade ate se juntar a nos. Foi otimo voltar a falar carioques por um momento com minha nova amiga tijucana. E foi ainda melhor porque as meninas do Canada ja tinham me ensinado tudo que sabiam sobre como identificar uma bolsa Louis Vitton original e qual a cor mais elegante para armacao de oculos de grau. Entao posso dizer que estava um pouco de saco cheio. Depois fui ajuda-las a negociar a compra de souvenirs e outras tralhas pra levarem pra casa. Ainda com o pe destruido tive que dar um descanso a noite por causa do frio.
No dia seguinte, domingo, todas as atracoes em Atenas eram de graca, entao aproveitei pra ir ate a Acropole e mais algumas ruinas velhas pra cacete que pra mim eram somente um monte de pedra velha empilhada. Ficou claro que estava na hora de seguir em frente, entao usei o ultimo dia pra dar uma volta na cidade a noite e me preparei para seguir em frente no dia seguinte.
Istambul ai vou eu.
Peguei dois voos ate Istambul e quando cheguei no aeroporto passei por uma situacao unica. Os vistos da Turquia sao vendidos no proprio aeroporto. Ao chegar todo mundo entra na fila pra comprar o seu. Eu me dirigi a fila e apos comprar meu visto, vi o seguranca seguindo na minha direcao e falando: "Brazil, no visa, no visa!!" Ja me prepava para ser mandado de volta quando o seguranca pegou meu passaporte tirou o visto, me devolveu o dinheiro e pediu desculpas pela inconveniencia. Ele me falou que eu nao precisaria de visto para visitar a Turquia. Nisso, todo mundo saiu da fila, comecou a me seguir. O seguranca nao perdeu a oportunidade e virou pros caras perguntando pra um deles de onde ele era. O cara respondeu que era dos EUA. Em seguida, o seguranca lhe deu um esporro e mandou o cara pro fim da fila falando que so brasileiros tinham aquele privilegio. AEEEEEEE!!! Depois de todos esses anos, e o primeiro momento que valeu a pena ser brasileiro fora de ano de Copa do Mundo.
Istambul e uma cidade gigantesca com mais de doze milhoes de habitantes. E impossivel se encontrar sozinho aqui. E no momento, uma das coisas que mais gosto de fazer viajando e me perder um pouco na cidade. E a bandeirinha do Brasil que eu costurei na minha mochila e um convite aos turcos para um bate papo de tres ou quatro frases recheadas de nomes de jogadores brasileiros que atuam na Turquia. De cara na saida do aeroporto, um senhor chamado Izrhafi me perguntou se eu estava perdido, fiquei meio desconfiado, mas conversamos um pouco e ele falou que viu a bandeira do Brasil na minha mochila e imaginou que eu precisaria de ajuda. Dez minutos depois, eu estava sentado no metro com tres senhores turcos falando de futebol, sem que eu entendesse nada do que eles estavam falando e eles entendessem o que eu estava falando. Quando mudei o assunto e falei kebab, cada um me deu uma sugestao de lugar diferente. Sai do trem e precisei de alguns minutos para admirar a Mesquita Azul de um lado o Hagia Sophia do outro. Em alguns minutos, cheguei ao Bahaus que e o hostel em que estou hospedado. Esse hostel e simplesmente um fenomeno de popularidade. Todo mundo que ja foi pra Istambul e se hospeda em hostel ja ouviu falar do Bahaus. O Bahaus e um fenomeno inexplicavel a principio, pois e um hostel sem grandes atrativos, mas basta passar algumas horas para entender que o diferencial sao as pessoas. Tariq, Volcano, Ali, Tony. Os caras sao muito bons e o ambiente e muito tranquilo. Eles nao ficam enchendo o saco com horario de check out ou pagar tudo adiantado como os outros lugares e tem um lounge no ultimo andar que e muito legal. O Volcano e o cara que manda no bar. Ele e uma versao juvenil do Borat. A familia dele conseguiu fugir do Kosovo da guerra, mas ele acabou perdendo mais de vinte parentes no conflito. Apesar disso, ele e o cara mais divertido do mundo e comanda o lounge do hostel, entao nao e de surpreender que duas horas depois da minha chegada ele ja tivesse me apresentado a mais de vinte pessoas que tambem em sua grande maioria nao se conheciam. Conheci um cara do Paquistao que e trader em Houston muito gente boa e Charmaine, a menina mais gente boa que conheci ate agora. Acabou que no dia seguinte ficamos muito amigos e ela virou minha irmazinha. Irmazinha mesmo, pois ela tem 1,50m. Fomos no dia seguinte no Hagia Sophia, na Mesquita Azul e conhecemos o Grande Bazar. Na volta do passeio aproveitei para marcar mais duas noites em Istambul. A cidade e simplesmente fascinante. Tao fascinante que eu preciso do email seguinte pra falar so dela...

Friday, November 13, 2009

Diario de Bordo VI: Dos Alpes a Roma (11/11/2009)






Nao acreditei quando eu abri meu guia e comecei a ler sobre meu proximo destino. Interlaken e uma das capitais suicas do desporto de inverno e dos esportes radicais.
Fiquei num quarto com um casal de amigos de Denver que esta estudando em Budapeste por um semestre: Evan e Ally. Evan foi muito simpatico desde o primeiro momento e logo estavamos amigos. Ao me perguntar se eu ja havia estado la e receber uma resposta negativa, ele falou para que me preparasse para estar num cartao postal. Desci para o bar do hostel e descobri que a cozinha estava fechada. Sem opcoes tive que comecar a me nutrir por liquidos, a escolha obvia foi uma Guiness. A noite de Interlaken e incrivel, era como uma cidade fantasma, mas ao descer um lance de escadas no interior do hostel cheguei num pub subterraneo gigante e lotado. Depois de umas cervejas acabei do lado de fora cheio de casaco, luva, gorro conversando com um costarriquenho com umas dreadlocks que so usava uma camiseta e jurava que frio e psicologico. Eu sou obrigado a concordar, mas nao soube decifrar qual o tipo de problema psicologico ele tinha. O ponto alto de Interlaken e o sky diving e eu conheci o dono da empresa que faz o saltos. Claro que ele e australiano. Os australianos e os neozelandeses estao por toda parte. Os australianos mesmo falam que dos 22 milhoes de habitantes que eles tem pelo menos quinze estao rodando o mundo. Uma coisa muito legal do hostel de Interlaken e que eles tem um Sao Bernardo gigante que anda solto dentro do hostel. Ele e tao bonachao que eu deitava perto da lareira com a cabeca em cima dele e ele nem se mexia.
Na manha seguinte, abrir os olhos foi uma agradavel surpresa. Da janela do quarto, eu via uma casinha de madeira com a bandeira da Suica soltando fumaca da chamine, as arvores amareladas do outono e as montanhas com o topo cheio de neve. Lembrei do que o Evan havia falado sobre estar num cartao postal e fiquei la embasbacado admirando uma das mais belas vistas que ja vi. O Evan mencionou que faria uma caminhada por uma dessas montanhas com um grupo e me convidou pra ir. Ele nao sabia dizer como funcionava a caminhada, mas se um monte de gente estava indo devia ser uma boa ideia. Encontrei algumas pessoas que eu conheci em Paris e descobri que existe uma empresa especializada em levar estudantes americanos que moram na Italia para viagens de fim de semana. Ela foi fundada por um rapaz chamado Tom com um amigo oito anos atras quando ele foi estudar em Florenca e comecou a organizar viagens para os amigos. Gostou do que estava fazendo e transformou em profissao. Logo, eu estava estava de penetra na caminhada do grupo de turismo da empresa do Tom. Logo percebi que o frio seco dos Alpes e muito mais tranquilo do que o frio umido com chuva que eu peguei em Bruges ou Amsterdam. Quando comecamos a subir comecei a suar e tirar casaco, luva, gorro e acabei de calca e camiseta nos Alpes. A vista do topo era inacreditavel, parecia montagem. Os lagos de Interlaken sao de um tom azul muito claro por serem formados por agua que escorre das geleiras. So vendo pra entender o que estou falando.
Todo mundo estava de boca aberta com a vista ate um babaca cismar que tinha que ficar em pe na beira do mirante pra tirar uma foto. Claro que esse babaca era eu e realmente a foto ficou muito maneira, mas quando as outras pessoas comecaram a imitar e fazer papagaiada na beira do precipicio, o Tom adiantou a descida.
Acabou que eu conheci tanta gente na caminhada que no final do dia, eu e umas quinze pessoas que conheci na caminhada se dirigiram ao quarto de um deles, onde estavam todos bebendo whiskey vagabundo com Coca-Cola, mas, como isso nao faz meu genero, fiquei so no bate-papo. Eles iam para um pequeno casino que havia na cidade, mas meus pes estavam destruidos e tive que ficar pra dormir. Uma das meninas me falou que nunca teria condicoes de jogar nenhum jogo de azar, mas no dia seguinte fiquei sabendo que ela colocou dez francos suicos numa maquininha e ganhou quinhentos de primeira. Nada mal...
No dia seguinte, foi legal descobrir que meu colega de quarto ja tinha ido embora, mas me deixou uma mensagem que dizia "Safe travels, let happiness be your means and your end." Achei muito maneiro. Depois do cafe da manha, tive que ir atras da maior contribuicao dos suicos pra sociedade moderna. E nao estou falando de chocolate suico e sim dos canivetes.
A Suica tambem tem uma peculiaridade, pois ainda que faca parte da comunidade europeia, nao adotou o Euro como moeda. Isso torna qualquer compra pequena um exercicio de matematica desagradavel. Entao a licao que tirei e que nao da pra contar com a honestidade dos suicos, mas eu ja devia ter aprendido isso pelo pouco que sei do sistema bancario deles.
O Tom foi tao gente boa comigo, mas tao gente boa que quando falei que ia pra Italia, ele me convidou pra ir no onibus da excursao dele. Ele falou que tinha espaco sobrando e nao teria problema. Entao foi assim que cheguei a Florenca na Italia. Alem de ir de penetra na caminhada, ainda peguei uma carona no onibus do cara e pra fechar a triplice coroa, cheguei antes de todo mundo e deitei em tres assentos no fundo do onibus, enquanto que um monte de gente se amontoava nas cadeiras da frente. Essa e pra deixar meus pais orgulhosos.
Eu estava querendo mesmo ir pra Roma, mas acabei me convencendo de que Florenca era um lugar que valia a visita. E como o onibus chegou muito tarde, passei o dia em Florenca. Uma cidade muito bonita e que possibilitou completar um objetivo da minha viagem: eu ja havia visto obras do Michelangelo, Leonardo e Rafael, mas ainda faltava ver alguma obra do Donatello. Agora ja posso falar com orgulho que eu vi obras feitas por todas as Tartarugas Ninjas.
Fui a alguns museus bonitos, mas foi uma overdose de arte e agora quando eu passo por um quadro do Leonardo da Vinci ou uma escultura do Michelangelo e como se passasse por uma Playboy em uma banca de jornal no Rio de Janeiro, ou seja, virou parte da paisagem.
Uma das coisas mais me orgulhava nessa viagem era minha barba. E a primeira vez que eu deixo crescer por tanto tempo. Mas Florenca me deu um sinal de que era hora de dar um fim a ela. Almocei uma pasta e quando me olhei no espelho depois do almoco pude notar que metade do prato ficou na barba. Ou seja, fim da barba.
Barba feita, e hora de seguir pra Roma!!!
A chegada em Roma foi tranquila e o hostel muito bom. Comi uma pizza e fui dormir.
Ao acordar no dia seguinte, notei que tinha um cara fazendo flexao de braco no escuro. Nem pensei duas vezes e mandei um: "Bom dia, mermao!" So carioca tem tanta neura com atividade fisica e ele respondeu da mesma forma. Comecamos a conversar e descobri que ele estava indo embora naquele dia, mas durante o cafe da manha, me apresentou um outro brasileiro que esta morando em Lisboa e ficaria mais um dia em Roma. E la fomos nos para o Vaticano. O Vaticano e a sede da obra de vida do maior empreendedor da historia, o apostolo Pedro. O cara fundou a igreja catolica, foi o primeiro papa e comecou um negocio tao bom que ate hoje ninguem cobra imposto deles. E ainda tem mais, alem de ser caro pra cacete pra visitar em todo canto tem uma lojinha de souvenir e um altarzinho pedindo doacao. A Basilica de Sao Pedro e maravilhosa, as catacumbas dos papas sao super interessantes e o museu tem tanta coisa pra ver que quando as pessoas chegam na metade simplesmente desistem e vao direto pra capela sistina que e uma overdose de pinturas sensacionais. De la fui ver algumas pracas e monumentos e fechei o dia na Fontana di Trevi.
A galera que trabalhava no hostel era tao gente boa que no final do dia eu fiquei la conversando com eles e ja estavam ate me arrumando emprego pra eu ficar em Roma. Moa, Jason e Isla viraram meus bons amigos logo. Jason e Isla sao neozelandeses e simplesmente tiraram tres anos da vida deles para viajar e conhecer o mundo. Quisera eu ter coragem pra fazer isso... Moa e uma sueca que nao gostava do frio e foi parar na Italia.
Ao chegar no meu quarto a noite, conheci um iraniano chamado Mansour que foi o meu amigo do dia seguinte. No nosso quarto ainda havia um dinamarques muito simpatico chamado Thomas que saiu cedo, mas encontrou com a gente no meio da rua na hora do almoco. E o que acontece quando juntamos um brasileiro, um dinamarques e um iraniano em Roma? Nada. Sao so mais tres turistas perdidos em Roma. Mas a culpa nao era nossa, pois Roma e a cidade mais confusa que eu ja vi. Nao tem nenhuma rua que siga em linha reta por mais de 50 metros. E uma zona do cacete. E toda hora que nos perdiamos o Thomas falava que precisava de mais uma cerveja e ficava cada vez mais dificil de achar os lugares no mapa e o Mansour reclamava que tava cansado e a gente sentava e o Thomas pedia outra cerveja. Foi um longo dia e so na Fontana di Trevi nos passamos umas cinco vezes. Mas eles foram muito boa companhia.
Eu adorei Roma e uma cidade incrivel, mas tem uma coisa em Roma que me impressionou mais que qualquer outro monumento que eu ja tenha visto na minha vida: o Coliseu. E indescritivel estar caminhando nas ruelas de Roma e dar de frente com um monumento monstruoso de mais de dois mil anos de idade. So e comparavel com a emocao de avistar o Engenhao ao passar pela linha amarela.
Eu estava me sentindo muito bem em Roma. Ja tinha feito um monte de amigos no hostel, logo, e hora de seguir em frente. Atenas ai vou eu!

Diario de Bordo V: Cerveja belga e porre do brabo (07/11/2009)






Sempre pontuais, confortaveis e rapidos. Assim sao os trens europeus. So que aqui ou voce sabe exatamente o trem que quer pegar, ou voce fala holandes/alemao/frances. Como eu nao atendo a nenhuma dessas condicoes, e no minimo de se esperar que em algum momento eu entre no trem errado.
Indo de Amsterdam pra Bruges, eu tinha que trocar de trem em Antuerpia, sai e perguntei pra um cara que estava em pe com cara de quem sabia pra onde estava indo o que eu tinha que fazer pra chegar em Bruges e ele apontou o trem no qual entrei... Que ia na direcao oposta, e claro! Depois de uns 20 minutos de viagem, surge um coroa querendo me multar porque eu nao tinha bilhete para aquele trem. Prontamente respondi com um "Nem F..." em portugues mesmo. Seguido por: "I'm not paying a f... thing! You should have a motherf... on the f... platform to help stupid f... tourists like me!" (Uma forma muito elegante de falar que eles deveriam ter alguem na plataforma pra ajudar os turistas). Por incrivel que pareca, ele concordou, virou as costas e foi embora. Esperei a policia para me prender, mas nao deu em nada. Da-lhe Belgica! Como eu ainda tinha que chegar em Bruges procurei alguem a quem perguntar o que fazer. Hora ideal pra utilizar minha nova tecnica para pedir informacao: procure alguem bem feio. Essas pessoas costumam ser muito mais solicitas e voluntariosas do que a pessoa comum. Eu acabei de desenvolver essa tecnica, entao se alguem tiver me conhecido enquanto eu pedia informacao, nao precisa ficar ofendido. Mas fiquei meio espantado quando olhei em volta e so vi gente bonita arrumada. Quando avistei o corcunda de Notre Dame no fundo do vagao e me preparava para ir ate ele pra pedir ajuda, uma menina muito bonita perguntou se eu estava precisando de ajuda. Ela e um amigo estavam no trem e sairam comigo na estacao seguinte me levaram ate a plataforma onde eu tinha que pegar o trem pra Bruges e esperaram dez minutos conversando comigo enquanto meu trem nao chegava. Isso me deixou uma impressao muito boa da Belgica porque estar perdido pra mim nao e novidade. Eu me perco aqui entre 10 e 20 vezes por dia (40 em Amsterdam), mas ninguem nunca tinha me ajudado assim. Chegando em Bruges foi muito facil achar o hostel. Comi um kebab e fui dormir.
No dia seguinte, acordei pra descobrir que eu so tinha mais uma camisa limpa e estava na hora de lavar roupa. Esse e sempre um dos piores momentos da viagem porque voce sabe que vai perder pelo menos umas duas horas so pra entender como fazer isso no idioma local e isso foi o suficiente pra eu concluir que precisaria de mais um dia em Bruges. Cheguei na lavanderia e o maldito do cartaz era uma sopa de letrinhas do cacete! Botei uma nota de 20 euros e recebi uma porrada de tokens pra maquina de lavar. Aparentemente algum daqueles cartazes dizia que a maquina nao dava troco. Proxima experiencia inedita: vender alguns tokens por mimica pra uns velhinhos que foram chegando na lavanderia.. Entao, entrou na lavanderia um garoto com a cara amassada e foi nesse exato momento que conheci meu amigo do dia, um mexicano muito gente boa chamado Maurice. Apesar de ter somente 19 anos ele esta viajando pela Europa. Antes que todo mundo pense o quao legal e ver um menino tao novo viajando o mundo pra conhecer lugares e culturas diferentes, e importante ressaltar que ele esta viajando ha pelo menos dois meses e o primeiro museu que ele visitou foi comigo. O negocio do Maurice e so bagunca. Ele estava lavando roupa pela segunda vez desde que comecou a viajar e me contou que tinha ficado dez dias em Amsterdam usando as mesmas meias e a mesma cueca (algo que eu sinceramente nao precisava saber). Amsterdam foi a cidade que ele mais gostou da Europa apesar de la ter perdido a camera, a carteira e muitos, muitos neuronios. Tem duas coisas que encantam o Maurice na Europa: o guarda chuva que ele comprou (o guarda chuva abre apertando botao. Ele nunca havia visto isso antes, fazer o que?) e os kebabs. Todo mundo que ja provou kebab tem que admitir que tem algo de especial em juntar carne ruim, vegetais ruins, pao velho e ter uma refeicao maravilhosa. O Maurice falou que o sonho dele e voltar pro Mexico e abrir uma barraquinha de kebab.
Bruges e muito bonita, mas tem poucas atracoes turisticas. E simplesmente uma cidadezinha boa de ficar um tempo descansando, mas como esse nao e o espirito da minha viagem, segui pra estacao de trem e comprei um bilhete pra seguir pra Luxemburgo no dia seguinte.
Bruges tambem e a terra da batata frita, do mundialmente famoso chocolate belga e de maravilhosas cervejas belgas. Entao no caminho de volta pro hostel comprei uma porcao das "famosas batatas fritas" que sao iguais a qualquer outra batata frita no mundo e comprei um monte de chocolate que eu fui comendo no caminho. Chegando no hostel, fui direto provar as maravilhosas cervejas belgas. E a primeira licao e que as cervejas aqui sao maravilhosas, mas tem sempre um nome horrivel cheio de consoantes que tornam impossivel pro turista estrangeiro pedir duas vezes a mesma. Um casal de neozelandeses se juntou a mim e ao Maurice no bar do hostel. Hayden e Denise comecaram a namorar quando tinham quinze anos e decidiram quando tinham vinte e um que iam viajar o mundo. Moraram em alguns paises trabalhando com um monte de coisas diferentes. Agora eles estao morando na Noruega e tiram o tempo que podem pra viajar. Foi muito legal ver um casal jovem viajando junto e conhecendo o mundo, mas o mais importante de conhece-los esclarecer uma das questoes fundamentais que assombrava minha existencia e descubri que se voce fizer um piercing abaixo do labio nao pode mais bochechar porque vaza. Eu sabia!!!
As cervejas belgas sao muito mais fortes que as brasileiras e o meu amigo barman com nome impronunciavel que la pelas tantas eu apelidei de Joao me apresentou a diversas delas. Pra fechar a noite ele me deu uma cerveja que tinha mais de 15% de teor alcoolico e esse foi o momento em que eu percebi que a Terra nao estava girando como de costume. O Maurice ja tinha perdido a carteira e o anel no bar e eu me despedi dele e do novo casal de amigos pra seguir pro quarto. Cheguei no quarto e vomitei todas as famosas cervejas belgas, seguidas pelo famoso chocolate belga e a famosa batata frita belga. Dei sorte de estar sozinho num quarto de quatro camas. Isso significa que eu poderia escolher a cama que eu quisesse, mas aparentemente nao foi o suficiente pra mim porque acordei deitado no chao usando um sapato como travesseiro acompanhando da famosa dor de cabeca belga e da famosa ressaca belga. Chega de Belgica para mim.
Tomei cafe e corri pra estacao pra seguir pra Luxemburgo. A viagem e maravilhosa, passando por diversos bosques em diversos tons entre o verde e o amarelo do outono. O bom dessa epoca do ano e que eu estou vendo pela primeira vez a entrada do outono europeu que e verdadeiramente muito bonito.
Agora chega um momento diferente da minha viagem em que eu estou indo visitar primos que eu nunca vi antes. Da um frio na barriga porque voce nao sabe muito bem o que esperar. Eles moram numa cidadezinha na Franca chamada Yutz que e bem proxima das fronteiras com Luxemburgo, Alemanha e Belgica. Tudo que sei e que so os primos diretos da minha mae falam portugues, o resto da galera so fala alemao e frances. E eu so pensava comigo: Isso vai ser legal!
Sai da estacao e, alguns minutos depois, conheci um dos caras mais legais do mundo, meu primo Albertino. De cara ele ja me recebeu com o maior sorriso do mundo e fomos pra casa dele conhecer a familia. Ele e casado com a Caty e tem quaro filhos: Marc, Etienne, Adelina e Yves. Todo mundo fez uma forca pra que eu me sentisse bem e e nesse momento que eu fico muito puto com as aulas de frances que eu tive na escola. Eu sei rezar a Ave-Maria em frances, mas nao sei perguntar onde e o banheiro! Apos o jantar, o Albertino me levou pra conhecer sua irma Julia, seu irmao Belarmino e as respectivas familias. Todos me receberam maravilhosamente bem. Fiquei num quarto muito bom no porao da casa do Albertino. Com acesso a internet, XBOX e um silencio que eu nao imaginei que existisse. Melhor que todos os hostels e hoteis onde ja fiquei na vida. Acessei a internet e como nao podia deixar de ser, fiquei pendurado ate as 3h da manha no computador acompanhando pela internet a merda do meu time perder como de costume. No meio do jogo lembrei que tinha que escolher um lugar pra ir. Entrei na internet e escrevi algo como lugar mais bonito da Europa e vi uma mencao a Interlaken, na Suica, lembrei que algumas pessoas que conheci em outros lugares me falaram que iam pra la e foi assim que decidi meu proximo destino.
No dia seguinte, a Caty teve a paciencia de uma santa pra conversar via tradutor comigo na cozinha enquanto eu esperava o Belarmino. Ele me levou pra ver lugares incriveis de batalhas da Segunda Guerra Mundial e os restos de um castelo. A cidade deles ainda conserva os bunkers da epoca da guerra por todos os lados. Ta ai algo que eu nao vejo todos os dias. Depois fomos a Luxemburgo, um pais pequenininho muito simpatico e frio pra cacete. Rodamos um pouquinho ate eu perder a sensibilidade da ponta do meu nariz por conta do frio e voltamos. O Belarmino e um cara muito legal e diferente. Ele tem quase 60 anos, mas escuta Black Eyed Peas, Nelly Furtado e tudo que e musica de noitada que toca no radio. Ele tem uma cabeca muito jovem e e muito engracado. Tentei por algumas vezes comprar alguma coisa pra presentear ele e o Albertino pela hospitalidade, mas ele simplesmente nao deixava. Jantamos na casa dele com sua esposa, o filho Mikael (a grafia deve estar errada) e a namorada. Depois fui conhecer o irmao do meu avo materno e os outros irmaos do Albertino e do Belarmino. Sentado na mesa cercado por todos, tirei uma licao que levo pro resto da minha vida: o real sentido da palavra sorte. Sorte e vc chegar num lugar que nunca foi antes pra conhecer parentes que nunca viu e encontrar algumas das melhores pessoas do mundo de bracos abertos para te receber e a unica reclamacao que eles te fazem e do pouco tempo que voce reservou para visita-los. E ter amigos incriveis e familiares que sempre te apoiem e proporcionem as condicoes para voce ser o melhor que pode ser. E ainda ter uma namorada incrivel que te apoia e da forca sem te mandar pra nenhum lugar obsceno, mesmo quando voce liga pra ela e fala o quanto seria legal fazer isso pro resto da sua vida. Pra compensar isso tudo, eu torco pro Botafogo. Fazer o que? Nao da pra ser perfeito...
No dia seguinte, a Caty me convidou pra ir na escola primaria da cidade falar um pouco pra uma classe de criancas que estao comecando a aprender ingles. Falei da minha viagem. Matei a curiosidade deles confirmando que existem arvores no Brasil, ao contrario do que uma menininha pensava, e que nos dirigimos no mesmo lado que os franceses. Fui com o Belarmino a Metz, onde almocei um autentico Quiche Lorraine (pois eu estava na Lorraine) e depois me preparei para seguir em frente mesmo estando com muita vontade de ficar mas tempo. Um dia eu volto. Hora de seguir em frente.
Agora, estou num trem pra Zurique. Tudo que eu vejo e que a cada parada entra gente mais agasalhada e eu to vendo que me meti numa gelada...