Thursday, April 15, 2010

Diario de Bordo XXIII: Congelando no Gobi






Mongolia. O que esperar da Mongolia. Tudo que eu sabia da Mongolia se
limitava a Genghis Khan. E em breve eu descobri que eu nao sabia nada
a respeito de Genghis Khan. Nem soletrar Genghis Khan eu sabia, mas
logo eu descobri que aparentemente ninguem sabe porque em cada canto
eu via uma grafia diferente.

Entao apos um dia inteiro de trem atravessando o norte da China, chego
a fronteira. La temos que aguardar pelo menos cinco horas ate que
troquem as rodas do trem, pois o padrao chines e diferente do padrao
mongol. E foi na fronteira que conheci dois canadenses, Tyler e Matt.
Os dois estavam trabalhando na Coreia do Sul dando aulas de ingles e
se conheceram em Beijing. La decidiram seguir juntos para Mongolia.

Resolvidos todos os tramites burocraticos na fronteira, tivemos mais
uma noite de sono ate chegar em Ulaanbatar por volta da hora do
almoco. Na saida do trem, encontramos com o staff do hostel que nos
buscou na estacao de trem junto com os outros hospedes que estavam
chegando no mesmo trem. Chegamos no hostel fizemos o check in e fomos
procurar um lugar para almocar. De volta ao hostel conhecemos Alex.
Alex e canadense, mas nasceu na Romenia e viveu por dez anos em
Israel. Ele havia chegado no dia anterior e foi jantar conosco.
Chegamos no restaurante por volta das nove da noite e nada de comida.
A cozinha ja estava fechada e a unica coisa que eles tinham para nos
oferecer era bebida. Entao comecamos nossa primeira noite com cerveja
e vodka. Tres doses depois, o restaurante fechou e andando na rua
conhecemos alguns locais que nos levaram para mais um bar. La mais uma
vez nada de comida, so mais bebida. Mais uma garrafa de vodka e
acabamos a noite numa lanchonete furreca comendo mais carne de
carneiro.

No dia seguinte, decidimos nossa viagem pela Mongolia. Um grupo de
nove pessoas comecaria junto e, apos mais tres noites, eu, Alex e
Tyler seguiriamos para mais uma semana de viagem pelo deserto de Gobi.
Kat, Joe, Jack, Stefan, Sharon e Matt voltariam a Ulaanbatar apos tres
noites. Dez dias sem banho, dormindo em ghers no meio do nada, comendo
carne de carneiro, bode e camelo em todas as refeicoes.

Primeiro dia acordei bem cedo e fui o primeiro a tomar o ultimo banho,
o que pareceu uma decisao inteligente, mas nao foi porque a agua ainda
nao estava quente o suficiente. Liguei o computador para responder
meus ultimos emails e precisei de alguns minutos para aceitar a
temperatura que aparecia na tela do meu computador para Ulaanbatar:
-18o C.

Depois do choque, ataquei o cafe da manha e de la me juntei ao nosso
grupo para o inicio de nosso passeio. Antes da partida, pose para
fotos e um momento para que a mae do dono do hostel jogasse um pouco
de leite de cabra nas rodas dos carros. O povo da Mongolia e tao
supersticioso que se eles fossem para o Brasil teriam que ser
obrigatoriamente botafoguenses. Nao pode cruzar os dois postes no meio
dos ghers porque da azar pro casal, se passassemos por um monte de
pedras com panos azuis tinhamos que seguir pela esquerda e so podiamos
circular no sentido horario, pois faz parte da tradicao religiosa
deles.

Primeira parada: Khustain Nuruu National Park, parada obrigatoria para
ver os cavalos selvagens da Mongolia. Uma raca extraordinaria que e
famosa por seu vigor e resiliencia. Uma vez exinta, a especie foi
reinserida em seu habitat original em alguns parques pela Mongolia em
1992 e no Khustain Nuruu National Park em 1998 onde se readaptou de
forma surpreendente e o status da especie em seu habitat natural
passou de "extinto" para "ameacado" de extincao. Assim que avistamos
os cavalos, fomos em direcao a eles com cuidado para nao se aproximar
muito. Assim que todos acabaram de tirar fotos, la fui eu correr atras
dos cavalos da Mongolia. Fui me aproximando, me aproximando, ate que
um deles virou e meu momento especial de correr com os cavalos da
Mongolia, virou correr de um cavalo da Mongolia. Mas uma vez que ele
viu que eu mudei minha trajetoria, virou e seguiu em frente. Na saida
do parque, paramos para ver um filme sobre a preservacao do parque e
ainda aproveitamos para jogar um basquete numa quadra cercada de neve
por todos os lados. Seguimos viagem para o local onde ficariamos na
primeira noite. Minha primeira noite em um gher. O gher era grande o
suficiente para acomodar os nove componentes do nosso grupo. E a
familia que morava na area era bem numerosa. Chegamos e enquanto
alguns de nos foram andar de camelo, eu, Matt, Tyler, Alex e Joe fomos
subir um morro que ficava atras do gher. A noite, alguns integrantes
da familia nomade que nos abrigou foi no nosso gher para fazer o que
os mongois fazem de melhor: beber vodka. Minha primeira impressao do
gher foi bem positiva, pois estavamos no meio de um vale extremamente
frio e a temperatura estava um tanto agradavel. Os ghers sao feitos de
madeira e revestidos de isolantes termicos como pele de ovelha, camelo
ou bode qualquer. O forno no centro faz com que o ambiente aqueca
rapidamente. Quando fomos dormir, o calor era intenso. No meio da
noite, acordei com um frio insuportavel. Como era de se esperar, o
fogo apagou ninguem acendeu e o gher gelou no meio da noite. Por
sorte, quando eu acordei um dos integrantes do nosso grupo ja estava
de pe colocando a bosta no fogo. Isso mesmo. Como nao ha muita madeira
no pais, fogo aqui e feito de bosta na maior parte das vezes. Eles
recolhem as fezes dos cavalos, bois, camelos, bodes e deixam secar por
algum tempo para depois usa-los como combustivel para o fogo.

Segundo dia, frio dos infernos com vento, me preparei para meu
primeiro passeio de camelo. Uma hora depois meu nariz e orelhas
estavam congelados. Foi legal andar de camelo, mas fiquei
impressionado com duas coisas. A primeira sem duvida era a intensidade
do frio e a segunda o descaso com que os mongois tratam o frio. O
membro mais velho da familia foi quem nos levou no passeio. Apesar do
frio, "Grandpa" nos guiou sem luva e sem demonstrar nenhuma reacao ao
vento frio que soprava na nossa direcao. Kat e Joe foram os dois
membros do nosso grupo que me acompanharam e estavam sentindo tanto
frio quanto eu, apesar da familiaridade dos dois com o frio europeu.
Proximo a hora do almoco, seguimos e enfrentamos um longo percurso ate
a area da tao falada cachoeira a oeste de Ulaanbatar. Dessa vez
ficamos alojados num gher no meio de um belissimo vale.

No terceiro dia, era vez de andarmos a cavalo. Sabiamos que os cavalos
estariam bem fracos e, por isso, so aguentariam duas horas no maximo,
mas nao tinhamos a real nocao do que esperar. Os cavalos estavam pele
e osso por conta do inverno que tiveram que enfrentar. No meio do
passeio, o cavalo em que eu estava desmontou. Foi um belissimo
passeio, mas a cachoeira nao era nada demais. Seguimos em direcao a um
monasterio em Kharakhorum, antiga capital do imperio mongol. E fomos
para o gher no qual passariamos a noite. Gracas a minha insistencia,
nossa guia conseguiu arrumar um lugar para tomar banho em Kharakhorum.

Assistimos a um show de musica tradicional da Mongolia
surpreendentemente interessante e nos preparamos para dormir. Seria a
ultima noite com o grupo que decidiu fazer a viagem de 3 dias. Nossa
ultima noite, foi celebrada com vodka (e claro!) e apos a musica
tradicional um festival de "blue angels". O nome soa muito bem e
verdade, mas de bom so o nome. Dada a pouca variedade de opcoes para
as refeicoes, nossa alimentacao era uma overdose de carneiro com arroz
ou macarrao. A dificuldades dos aparelhos digestivos para se acostumar
a alimentacao se transformava numa tempestade de gases. Matt
apresentou ao grupo um de seus passatempos favoritos quando
adolescente, o tao falado "blue angel" que consiste em acender um
isqueiro proximo aos gluteos no momento da explosao intestinal
resultado da ma digestao das refeicoes. Joe e Jack, os britanicos do
grupo transformaram a noite em um campeonato de "blue angels". Por
pior que fosse, pelo menos foi um passatempo para mais uma gelida
noite na Mongolia.

O quarto dia comecou com a despedida do grupo que comecou a viagem
conosco e principalmente de nosso amigo Matt. Nossa viagem comecou
gelida. O vento transportava a neve do chao e formava uma nevoa
proxima ao chao. Apos pouco mais de duas horas de viagem chegamos ao
rochoso deserto de Gobi. A paisagem se transformou totalmente e a
temperatura foi para o campo positivo. De frio e neve passamos a sol e
tempestades de areia no horizonte. Depois de muitas horas, chegamos na
area em que passariamos a noite proximo aos Flaming Cliffs. De longe
nao pareceu nada especial, mas quando chegamos perto foi uma grande
surpresa. Como o tempo estava melhor, passamos mais tempo aproveitando
o fim de tarde sem necessidade de correr para o gher com frio. Foi sem
duvida um dos melhores dias pela mudanca climatica e pelo tempo que
passamos nos Flaming Cliffs.

No quinto dia, dirigimos pelo deserto ate chegar as Singing Dunes.
Fomos direto ver as maiores dunas do deserto de Gobi. Em quarenta
minutos de exercicio muito intenso, conseguimos escalar as dunas e
curtir a vista. Descemos rolando em cinco minutos e ao chegar na van
ainda tive tempo para praticar o esporte numero um da Mongolia: luta
livre. Meu adversario foi nosso motorista Ulsi que apelidei de Big
Boy.

Na volta das dunas, um menino que morava nas redondezas ficou super
feliz de nos ver e nos convidou para jogar basquete no deserto. Para
ele foi alegria total, pois parecia que nao haviam mais nenhuma
crianca nas redondezas e para nos foi um momento unico, afinal quantas
pessoas podem falar que jogaram basquete no meio do deserto de Gobi?

Sexto dia, dia do passeio de camelo no deserto. Abrimos a porta do
gher e... nao conseguiamos ver vinte metros a frente. Uma tempestade
de areia se formou durante a noite e parecia inviabilizar nosso
passeio. Mas nossa guia falou que nao seria problema e os camelos
pareciam nao se abalar. Uma senhora de mais de sessenta anos nos guiou
no passeio. Na maior parte do trajeto, eu mesmo usando oculos escuros
nao conseguia olhar para frente, pois a areia passava no espaco entre
os oculos e meu rosto e me cegava. Eu olhava pro lado e meus amigos
estavam na mesma situacao. Mas quando olhava para a senhora que estava
nos guiando, ela olhava em direcao a tempestade e nem piscar direito
piscava. Os camelos tambem se mostraram incrivelmente resistentes,
pois aguentaram a tempestade sem grandes problemas. Uma vez acabado o
passeio, almocamos e dirigimos o resto do dia um canyon congelado. E
mais uma mudanca de clima extrema em algumas horas. Do sol do deserto
passamos para um frio infernal com neve por todos os lados e o ceu
totalmente nublado. Aparentemente, a familia que nos hospedou parecia
estar de muito mau humor, mas nossa guia explicou que o inverno desse
ano foi sem precedentes. Eles perderam muitos animais e como o clima
nao estava melhorando, os animais continuavam morrendo sem que eles
pudessem fazer nada.

Setimo dia e fomos ver o canyon congelado que nao foi muito
interessante, ja que o gelo estava derretendo e nao conseguimos ver
muita coisa, pois o passeio envolvia caminhar pelo rio congelado. Mais
uma vez, atormentei nossa guia ate ela encontrar um lugar onde
pudessemos tomar banho. Nao e dificil, pois dada a dificuldade de
obter agua, e comum vermos nos pequenos povoados casas de banho, onde
qualquer um pode pagar um dolar e tomar um chuveirada. O lugar e limpo
e o mais importante: a agua e quente! Depois de nosso banho, almocamos
e dirigimos ate nosso proximo destino.

No oitavo dia, ja estavamos extremamente cansados e prontos para
voltar para a civilizacao. Fomos visitar uma area que havia sido o
fundo do oceano a alguns milhoes de anos atras. Nao aproveitamos muito
por conta do frio. Saimos do carro tiramos algumas fotos e seguimos em
frente. Dirigimos ate seguir em nosso proximo destino. La tivemos a
oportunidade de jogar os jogos tradicionais com ossos de ovelha.
Tentamos, mas nao gostamos e acabamos jogando poquer pelo resto da
noite.

Nono dia e o frio continuava, vimos as ruinas de um templo do seculo
XVII que foi destruido pelos russos e dirigimos ate chegar em nossa
ultima parada. Nossa ultima parada nos pareceu um tanto desnecessaria,
mas como a maior parte da Mongolia nao possui estradas e um risco
desnecessario dirigir a noite. Acabamos ficando no gher de um cacador
que nos contou que o inverno foi tao extremo, mas tao extremo que ele
nem precisava cacar mais, so caminhar pelas montanhas e recolher os
animais que morreram no frio. Encontramos um gher que funcionava como
loja no meio do nada. Eles so tinham tres produtos a venda: agua,
cigarro e vodka (claro!!). Bebemos a vodka e jogamos mais poquer ate a
hora de dormir.

Decimo dia, foi o dia da despedida. Tudo o que fizemos foi dirigir em
direcao a Ulaanbatar... em uma tempestade de neve, e claro. Chegamos
por volta da hora do almoco, extremamente felizes por retornar a um
lugar com camas e vaso sanitario. Nos despedimos de nosso motorista e
nossa guia e seguimos para uma pizzaria proxima ao hostel. Nos tres
comemos duas pizzas gigantes e voltamos para o hostel onde arrumamos
nossas coisas e dormimos.

O balanco da viagem foi super positivo. A Mongolia e um pais de
extremos. E incrivel como a os animais, as pessoas e as plantas
sobrevivem as temperaturas extremas do verao e do inverno. Chegamos a
ver algumas ovelhas comendo os pedacos de um cavalo congelado (!!!).
Varias vezes vimos pilhas de carcacas de animais mortos pelo frio. As
alternancias de temperatura e paisagem durante o dia sao intensas. Sem
duvida, como o Alex disse quando chegamos ao deserto, e o maior nada
que eu ja vi. Por diversos dias, dirigimos por horas e nao cruzamos
com nenhum carro. E o frio e algo inimaginavel. Ate as pessoas que
encontramos vindo da Siberia falam que o frio da Mongolia e intenso.
Aparentemente, essa epoca do ano e uma das piores para se visitar a
Mongolia por conta do fim do inverno.

De volta a Ulaanbatar, tudo que eu tinha para fazer agora era esperar
meu visto da Russia que levaria mais alguns dias. O dia seguinte a
nossa volta foi de descanso. Fiquei no hostel no computador curtindo o
calor. A noite conhecemos Opuni, um ganes que estava sofrendo mais com
o frio do que eu, e Loneke, uma holandesa que estava hospedada em um
gher com uma familia local. Convidei os dois para nos acompanharem no
programa do dia seguinte. Algo que eu sempre tive vontade de tentar:
snowboarding.

Acordamos cedo e pegamos o onibus que nos levou ate o resort nos
arredores de Ulaanbatar. Por quinze dolares e possivel alugar o
equipamento, e pagar o lift que leva ate o topo da montanha por
quantas vezes quiser em um intervalo de quatro horas. Por esse valor,
vale a pena. Na primeira vez que desci a pista, cai milhares de vezes,
na segunda, cai algumas vezes e na terceira, estava indo super bem
quando meu snowboard bateu numa area que tinha um montinho de neve que
estava congelado e eu voei por alguns metros ate aterrisar da pior
forma possivel. O bom do snowboarding e que tem gelo por tudo que e
lado. Assim fica facil tratar as contusoes.

No dia apos snowboarding, tinhamos combinado de ir ver a estatua de
Genghis Khan nos arredores de Ulaanbatar. A estatua fica a uma hora de
carro do centro da cidade, mas apesar da pouca distancia, nao ha nada
mais para ver em quilometros de distancia. A estatua e belissima, uma
das mais belas que eu ja vi, mas depois de vinte minutos, nao tinhamos
mais nada para ver e fomos embora. Ultimo dia na cidade, celebramos
com vodka (claro!) e fui pegar meu passaporte com o visto para a
Russia e marcar meu ticket. Queriamos todos sair para dar uma volta
pela cidade a noite, mas o staff do hostel botou tanto terror que eu
resolvi voltar para o hostel e descansar.

Hora de seguir na ferrovia transiberiana.